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Racing Point: Uma Imagem Mal Gerida

O caso da gestão de imagem da Racing Point entre 2018 e 2020 deveria ser estudado pelas faculdades de Relações Públicas tanto quanto o caso da Escola Base é abordado nas de Jornalismo. O motivo é o mesmo: trata-se de um exemplo do que um bom profissional definitivamente não deve fazer.

Sucessivos erros e negligências tornaram a equipe e seus pilotos (principalmente Lance Stroll) alvos de constantes ataques e desinformações por parte da imprensa. É provável que houvesse um conflito entre as soluções para os problemas de imagem e os interesses da escuderia. Esta matéria tem por objetivo analisar as falhas da Racing Point em lidar com as sucessivas crises de imagem antes de sua transformação em Aston Martin.

 

(A autora da matéria é formada em Rádio, TV e Internet pela Faculdade Cásper Líbero, e fez cursos de Assessoria de Imprensa e Gerenciamento de Crise pela mesma instituição e pelo Senac. Suas professoras foram Neuza Serra e Aurora Seles.)

 

1- O início da Racing Point e a primeira crise: o Caso Esteban Ocon

 

Em 2018, o empresário indiano Vijay Mallya enfrentou problemas judiciais na justiça de seu país natal, que o acusava de fraude e lavagem de dinheiro. Somado a isso, sua escuderia na Fórmula 1, a Force India, decretou falência em julho daquele ano devido ao acúmulo de dívidas. Em meio às várias especulações sobre o futuro do time (entre elas a de que seria comprado pelo empresário mexicano Carlos Slim, um dos patrocinadores de Sergio Pérez), o canadense Lawrence Stroll, pai de Lance, se juntou a um grupo de empresários para montar um consórcio e comprar a Force India. Consequentemente, a escuderia correu o resto da temporada de 2018 sob o nome de Racing Point Force India.

 

Vijay Mallya: dono da Force India de 2007 a 2018. (Foto: Getty Images) [1]

 

Lance Stroll até então corria pela Williams, uma equipe marcada por sérios problemas administrativos. A chefe de equipe, Claire Williams, e o engenheiro-chefe, Paddy Lowe, buscavam transferir a culpa do mau desempenho do time aos pilotos, embora o motivo deste problema estivesse na estrutura precária do carro montado pelo departamento de engenharia. A imprensa adotou a narrativa de Claire e Lowe e passou a atacar Stroll e seu companheiro de equipe Sergey Sirotkin.

Devido ao fato de um dos novos donos da Force India ser pai de um piloto, especulou-se que ou Sergio Pérez ou Esteban Ocon sairia para dar lugar a ele. Pérez trazia mais patrocínios e conseguia pontuações mais altas, tornando-o a escolha mais provável para continuar na equipe. Por outro lado, Ocon era amigo pessoal de Lance Stroll, embora o componente emocional não seja definitivo em decisões de negócios. No entanto, o que pouco se falou foi que Ocon já era cotado para deixar a Force India, pois seu então padrinho Toto Wolff, chefe de equipe da Mercedes, teria lhe oferecido uma vaga em seu time se não dificultasse para Lewis Hamilton em uma possível disputa por posições no Grande Prêmio de Mônaco de 2018.

 

Toto Wolff falhou em arranjar um assento a Esteban Ocon 2019, mas o piloto preferiu deixar a mídia culpar Lance Stroll. (Photo: EsporteNET) [2]

 

Segundo o radialista e teórico da comunicação americano Ben Shapiro, os fatos tornam-se irrelevantes para a mídia quando esta cria uma narrativa para seguir sua agenda. Na análise do sociólogo e teórico da comunicação alemão Theodor Adorno (1903-1969), a mídia tem uma visão puramente mercadológica de seu público-alvo. Conciliando as duas teses, vemos que não era interessante para a imprensa divulgar a verdade (de que Esteban Ocon estava de partida), pois atenderia mais à sua agenda e a seus interesses financeiros criar polêmicas para vender manchetes, mesmo que isso prejudicasse a reputação de Lance Stroll.

A equipe de assessoria de imprensa do canadense nunca conseguiu administrar bem a crise de imagem gerada pela perseguição midiática. Muitos jornalistas se recusavam a reconhecer seus feitos na Fórmula 1, que a própria categoria considera “históricos”. A estratégia adotada era de simplesmente ignorar comentários maldosos da imprensa e dos torcedores. Embora isso seja um bom plano para manter o controle emocional, “o silêncio nunca é a melhor resposta”, como dizia a professora Neuza Serra. Era dever dos assessores de Stroll deixar bem claro que o mesmo nunca se enquadrou no perfil de “piloto pagante”, pois cumpriu todos os pré-requisitos da FIA para o ingresso na Fórmula 1 (como os 40 pontos na Superlicença, que são obtidos, nunca comprados) e conseguiu um pódio e dois recordes em seu ano de estreia, por uma equipe pouco competitiva.

 

Pódio de Lance Stroll no Grande Prêmio do Azerbaijão: o último da Williams. (Foto: FORMULA1) [3]

 

Esteban Ocon se aproveitou da polêmica para se omitir sobre o caso. Mesmo sabendo que a culpa de sua provável saída da Fórmula 1 era da falha de Toto Wolff em lhe arrumar um assento em outra equipe (já que as outras escuderias viam com desconfiança as relações entre Ocon e Mercedes), ele preferiu deixar a mídia culpar a compra da Force India por Lawrence Stroll e seus sócios. Só depois de meses que o piloto se pronunciou contra os ataques a Lance Stroll, mesmo não sendo sincero sobre os responsáveis por sua situação delicada. Manter a polêmica apesar do pronunciamento foi uma ótima estratégia de autopromoção para Ocon.

 

Esteban Ocon esclarecendo a polêmica, pero no mucho. (Foto: Instagram) [4]

 

2- A segunda crise: a saída de Sergio Pérez e o ingresso de Sebastian Vettel

 

Durante o ano de 2019, Lance Stroll levou mais tempo para se adaptar ao novo carro, e consequentemente suas pontuações estavam abaixo das de Sergio Pérez. Logo, alguns setores da imprensa continuavam a duvidar de sua capacidade, como foi o caso do comentarista Reginaldo Leme durante a transmissão do Grande Prêmio da França pela Rede Globo. Apesar disso, teve alguns resultados impressionantes, como o quarto lugar na Alemanha.

Em 2020 a Racing Point começou a temporada como uma candidata a “equipe de ponta”, com um ótimo desempenho dos carros e pilotos. Entretanto, o time foi acusado de copiar os sistemas de freios da Mercedes e, com isso, ganhar vantagens. Apesar da equipe ter sido condenada a pagar uma multa e perder 15 pontos no campeonato depois de uma investigação, os pilotos conseguiram trazê-la de volta ao topo. Na época, Lawrence Stroll se pronunciou sobre o caso, ressaltando que não costuma aparecer na imprensa, mas que pretende esclarecer a situação, provando a integridade de sua escuderia.

 

 

A Renault liderou o movimento contra a Racing Point, embora seu passado não seja exatamente o mais ético na Fórmula 1. [5]

 

O caso logo foi esquecido com uma segunda crise de imagem: novamente, a mídia encontrou uma oportunidade de manchar a reputação de Lance Stroll em acusá-lo de ter influência sobre as decisões da Racing Point por ser filho de um dos donos. Após ser demitido da Ferrari, devido a uma série de decisões erradas que custaram pontos à equipe, Sebastian Vettel estava sem opções para o grid de 2021. Decidiu comprar ações da Aston Martin, empresa que seria a dona da Racing Point no ano seguinte, e logo garantiu sua vaga. O problema estava na divulgação dos acontecimentos: a Racing Point ora negava, ora confirmava a vinda de Vettel, e também havia inconstância nas narrativas sobre se Sergio Pérez havia sido avisado ou não.

O fato é que a Racing Point jamais abordou em seus releases que Sebastian Vettel era mais do que um piloto, mas sim um acionista. E mesmo grandes nomes da mídia noticiando o fato (como Sergio Quintanilha e Adam Cooper), a imprensa investiu novamente em insinuar que Sergio Pérez foi dispensado porque demitir Lance Stroll estava fora de cogitação. O natural de uma equipe de assessoria de imprensa seria justamente esclarecer dois pontos primordiais neste caso: o de que Stroll é um piloto com um bom começo de carreira, e por ser jovem pode ser um bom investimento a longo prazo, e que Vettel comprou seu assento. Em vez disso, tanto a assessoria da equipe quanto a de Stroll preferiram omitir o que seria crucial para encerrar a crise.

 

3- A passividade de Lance Stroll (e de sua assessoria de imprensa)

 

Diante dos fatos elencados, também não se deve ignorar que a postura de Lance Stroll diante das sucessivas crises pelas quais passa sua imagem é no mínimo curiosa. Como dito anteriormente, o piloto e sua assessoria de imprensa preferem ignorar os insultos porque sabem que estes não possuem fundamento, mas acabam desperdiçando uma boa oportunidade de revelar a verdade à imprensa e melhorar sua imagem. Ignorar a crise não vai fazê-la sumir, só a faz aumentar.

A prova de que Lance Stroll não possui privilégios na Racing Point (como muitos da mídia insinuam) é que seus estrategistas falham constantemente nos planos para as corridas (principalmente nos pit stops, como no Grande Prêmio da Turquia, de onde Stroll largou da pole position e acabou em nono lugar), e não há nenhuma queixa do piloto ou de sua família quanto a isto. E sua assessoria poderia usar um recurso muito útil para silenciar por definitivo esses boatos.

 

Embora os estrategistas estejam falhando constantemente, nem Lance Stroll nem sua família reclamam disso. Esta é apenas uma das muitas provas de que Lance não está recebendo privilégios na equipe. [6]

 

Como comprovado em “A Fórmula 1 no Brasil: Uma análise sobre a transmissão televisiva no país”, aqueles que criticam a fortuna de Lance Stroll, um piloto indígena e judeu, e não fazem o mesmo com pilotos brancos com menos feitos, são racistas. O mesmo vale para aqueles que criticaram os investimentos de Lawrence Stroll na Force India e não fizeram o mesmo com os de Sebastian Vettel na Aston Martin. A imprensa, em sua visão mercadológica, se passa por apoiadora da luta contra as desigualdades sociais, e como afirmado por Ben Shapiro, investe no discurso da luta de classes para engajar seu público-alvo. Mas é muito suspeito que o condenado nessa narrativa seja justamente um piloto indígena e judeu, membro de minorias étnicas e engajado em causas sociais.

Por esta lógica, o que aparentemente seria um caso de narrativa de promover uma luta de classes (entre o piloto “sortudo por ser rico” e os torcedores “sem a mesma sorte”) acaba por se revelar um discurso reacionário que reforça um sistema de opressão de minorias, pois nega o direito de fortuna ao atleta de etnias historicamente perseguidas (judeus e indígenas) ao mesmo tempo que permite ao que pertence ao grupo dominante (europeus brancos).

(“A Fórmula 1 no Brasil: Uma análise sobre a transmissão televisiva no país”, p. 120-121)

 

Portanto, é estranho que a assessoria de Lance Stroll não aponte o caráter racista nos ataques da mídia ao piloto. Se assim fizesse, a imprensa seria obrigada a noticiar, e os jornalistas, temendo serem taxados como “racistas” pela opinião pública, mudariam o discurso. Também suspeito é o fato de Stroll ainda considerar Esteban Ocon seu amigo, mesmo quando este usou uma crise da imagem do canadense para se autopromover em vez de ajudá-lo.

 

Como diria o Robin, “Santa Ingenuidade, Batman!” [7]

 

Além disso, o ingresso de Sebastian Vettel na Aston Martin provocou uma atitude suspeita no próprio Lawrence Stroll, cujo posicionamento não condiz com a realidade e coloca em xeque a reputação do próprio filho. O empresário culpou a demissão de Vettel da Ferrari antes do início da temporada de 2020 pelo mau desempenho do alemão naquele ano (ignorando que essa “má fase” já ocorria nos últimos anos devido a “erros individuais” de Vettel, levando-o a ser demitido, como relatou o jornalista e ex-piloto Martin Brundle). Também responsabilizou o carro da Ferrari pelo infortúnio do piloto, ignorando que, diferente do que houve com seu filho e Sergey Sirotkin na Williams em 2018 (no qual ambos os pilotos tinham dificuldades nas pistas devido ao carro), o desempenho de Charles Leclerc em 2020 muito acima do de Vettel prova que, embora tenha um impacto, o carro da Ferrari não foi o fator principal pelo rendimento abaixo do esperado do alemão. Por fim, ao confiar que Vettel trará benefícios à equipe por ter sido tetracampeão com a Red Bull entre 2010 e 2013, o empresário recorre à falácia argumentum ad antiquitatem (apelo à tradição ou ao passado), apresentando o futuro como uma continuidade de um passado distante, ignorando as mudanças que ocorrem no presente. Ora, a Mercedes também não tinha um tetracampeão em 2014, quando sua equipe era composta por Lewis Hamilton e Nico Rosberg, e venceu todos os campeonatos a partir daquele ano. O próprio Lawrence Stroll não menciona a compra de ações de Vettel, como se quisesse também esconder esse fato para que o alemão não seja lembrado como “comprador de vaga” (recorrendo a seu passado para ajudar na estratégia de divulgação). Consequentemente, por falta de ciência (ou, talvez, até por seu próprio consentimento), permite que a mídia continue distorcendo a imagem de seu filho Lance para satisfazer os objetivos mercadológicos da equipe.

 

4- Conclusão

 

A assessoria de imprensa da Racing Point falhou constantemente em proteger seus pilotos, principalmente Lance Stroll, de ataques descabidos e sensacionalistas por parte da mídia. E mesmo que isso signifique que Stroll não possui privilégios em sua equipe, a imprensa prefere ignorar os fatos para obter vantagens financeiras através de polêmicas.

Às vezes, as empresas acabam por permitir certas crises de imagem para esconder seus reais interesses. No caso da Racing Point, era óbvio que Sebastian Vettel não queria ser lembrado como “o piloto que precisou comprar sua vaga porque, apesar de seu passado glorioso, seu presente estava um desastre”. Logo, a equipe omitiu uma informação que seria essencial para salvar a reputação de Lance Stroll. Percebe-se, portanto, que se há um privilegiado na Racing Point (atual Aston Martin), esse alguém é Vettel. A passividade do piloto canadense e de sua assessoria de imprensa é um exemplo claro de como não encarar uma crise de imagem causada pela mídia.

 

Estão fazendo um ótimo trabalho na engenharia. Só falta melhorar na assessoria de imprensa. [8]

 

5- Bibliografia

Para melhor compreensão das fontes, a bibliografia foi dividida em seções de acordo com as informações apresentadas na matéria.

 

1- Criação da Racing Point

 

2- Caso Esteban Ocon

 

3- Caso Williams

3.1 Claire Williams e Paddy Lowe responsabilizando os pilotos pelos problemas da escuderia (de 2017 a 2018)

3.2 Reais causas dos problemas

 

4- Comentário de Reginaldo Leme

 

5- Feitos de Lance Stroll na Fórmula 1

 

6- Ações filantrópicas e causas sociais defendidas por Lance Stroll

 

7- Escândalo dos freios

 

8- “Erros individuais” levaram Sebastian Vettel a ser demitido pela Ferrari (depoimento de Martin Brundle)

 

9- Sebastian Vettel compra ações da Aston Martin

 

10- Discrepância de narrativas sobre a situação de Sergio Pérez

 

11- Depoimento falacioso de Lawrence Stroll em favor de Sebastian Vettel

 

12- Impacto do carro no desempenho dos pilotos

 

12- Embasamento teórico

 

6- Fotos

Obs.: Nenhuma das fotos inseridas neste artigo, exceto as montagens, pertence a mim. Este site possui fins informativos, não comerciais. Abaixo estão indicados os links de onde tirei as fotos. Todos os direitos reservados.

 

O Caso Alexander Albon: Um Potencial Desperdiçado

Matéria dedicada à leitora Lucilene Mota, que pediu uma análise a respeito de Alexander Albon.

 

No dia 18 de dezembro de 2020, a equipe Red Bull Racing anunciou a contratação de Sergio Pérez para correr ao lado de Max Verstappen em 2021. Com isso, o piloto anglo-tailandês Alexander Albon foi rebaixado ao posto de piloto reserva. Algumas controvérsias acompanham as circunstâncias dessa situação na Red Bull, como a incapacidade do time de fazer um carro à altura de Verstappen, a saída de Pérez da Racing Point após Sebastian Vettel comprar ações da futura proprietária da escuderia, e a própria contratação de Albon em 2019 no meio da temporada para substituir Pierre Gasly (que gerou uma grande expectativa em cima do novo piloto).

Percebe-se que a Red Bull está impaciente para se tornar a nova desafiante da Mercedes, dada a queda de rendimento da Ferrari e a ascensão da Racing Point em 2020. Ciente da habilidade de Verstappen, que conquistou as primeiras vitórias do time desde 2014, o time austríaco buscava um companheiro de equipe que acompanhasse o ritmo do holandês após a saída de Daniel Ricciardo para a Renault com o fim da temporada de 2018. Albon acabou sendo vítima dessa pressa e tendo uma saída humilhante da atual vice-campeã de construtoras. Nessa matéria, vamos explicar como isso aconteceu e porque houve uma grande injustiça com o atleta.

 

1- Temporada de 2019: a oportunidade de brilhar

 

Como explicado anteriormente, a saída de Daniel Ricciardo levou a Red Bull a procurar outro talento para correr ao lado de Max Verstappen. A dupla havia obtido resultados excelentes de 2016 a 2018, o que permitiu que a escuderia fosse vice-campeã e depois terceira colocada (por dois anos consecutivos) no mundial de construtoras. Substituir um piloto que garantia vitórias e pódios ao time não seria uma tarefa fácil, mas a Red Bull tinha um jovem nome em mente: Pierre Gasly.

 

Pierre Gasly conquista o quarto lugar do Grande Prêmio do Bahrein de 2018. (Foto: Sky Sports) [1]

 

O piloto francês havia se destacado na Toro Rosso, tendo seu melhor resultado até então um quarto lugar no Grande Prêmio do Bahrein de 2018. Acreditava-se que se Gasly era capaz de chegar a uma posição tão alta em um carro considerado mediano, conseguiria no mínimo pódios em uma equipe de ponta. No entanto, seu desempenho no primeiro ano com a Red Bull ficou abaixo do esperado. Enquanto Verstappen era uma presença quase constante no pódio, Gasly ficava atrás dos pilotos da Ferrari (Sebastian Vettel e Charles Leclerc). Não sendo capaz de aproveitar a crise do time italiano (cuja tensão entre os pilotos era um agravante), o francês conseguia menos pontos para a Red Bull, que perdia a chance de conquistar o vice-campeonato de construtoras.

Descontente com o descompasso entre Gasly e Verstappen, o consultor Helmut Marko convenceu os dirigentes da Red Bull a substituir o companheiro de equipe do holandês. A partir do Grande Prêmio da Bélgica de 2019, Alexander Albon assumiria essa vaga. Já era tarde para a Red Bull recuperar o prejuízo, mas o novo piloto era visto como um investimento a longo prazo (se tivesse uma boa performance, continuaria no time no ano seguinte). Albon teve atuações elogiáveis, como no Grande Prêmio da Rússia (no qual largou dos boxes e terminou em quinto lugar) e no do Brasil (tendo uma chance de conseguir o primeiro pódio, mas foi atingido por Lewis Hamilton faltando poucas voltas para o fim). Albon terminou o campeonato em oitavo lugar, com 92 pontos. Considerando que o mesmo passou a primeira metade da temporada na Toro Rosso e só então foi para uma equipe de ponta, o resultado é impressionante. Por isso, foi eleito pelo Autosports Awards como o “Estreante do Ano” em 2019.

 

Alexander Albon sendo premiado como “Estreante do Ano” de 2019. (Foto: FIA) [2]

 

2- 2020: “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”

 

Essa frase do Tio Ben, de “Homem-Aranha”, resume a pressão que caiu sobre Alexander Albon em sua segunda temporada com a Red Bull. O piloto começou o ano bem, tendo mais uma chance de conseguir o primeiro pódio, no Grande Prêmio da Áustria, mas uma infeliz coincidência impediu a conquista: novamente, uma colisão com Lewis Hamilton. Nas corridas seguintes, Albon alcançava a zona de pontuação, mas em lugares bem inferiores aos de Max Verstappen. Logo, a situação era semelhante à de Pierre Gasly em 2019, mas Helmut Marko optou por não demitir o tailandês apressadamente.

Havia dois fatores que impediam uma ação imediata por parte da Red Bull. Em primeiro lugar, uma segunda demissão em dois anos consecutivos sem que o campeonato terminasse colocaria em xeque a reputação do time. A troca de Gasly por Albon já não parecia tão justificada em 2020 quanto era em 2019, e tirar o tailandês corria o risco de resultar em mais uma substituição não muito satisfatória. Logo, Marko seria taxado como “impetuoso”. Em segundo lugar, a AlphaTauri não tinha nomes apropriados para ocupar o lugar de Albon: trazer Gasly de volta seria “humilhante” para a Red Bull (que teria que admitir que “errou” com o francês), e Daniil Kvyat já tinha passagem pelo time austríaco, sendo demitido no começo da temporada de 2016 e substituído por Verstappen. A troca do russo pelo holandês foi a mais assertiva da Red Bull nos últimos anos a curto, médio e longo prazo, o que não se repetiu com as mudanças seguintes (isso porque Verstappen é um caso à parte).

 

Helmut Marko (esquerda) e Max Verstappen (direita). (Foto: XPB) [3]

 

O que se observou na primeira metade de 2020 é que Albon enfrentava dificuldades nos treinos de sexta e sábado, largando de lugares intermediários do grid, o que não é esperado para um piloto de equipe de ponta. Apenas no Grande Prêmio da Toscana, corrida marcada por acidentes que levaram quase a metade do grid a abandonar, o tailandês conseguiu seu merecido primeiro pódio após vencer um duelo com Daniel Ricciardo pelo terceiro lugar. O resultado se repetiu apenas no Grande Prêmio do Bahrein, no qual o motor do carro de Sergio Pérez incendiou a parte traseira do veículo e forçou o mexicano a abandonar. Apesar dos pódios, Albon não estava perto do que havia sido Ricciardo para a Red Bull, e a vitória de Gasly no Grande Prêmio da Itália somente agravou o constrangimento do time.

 

Vitória de Pierre Gasly no Grande Prêmio da Itália de 2020. (Foto: Matteo Bazzi/AP) [4]

 

A semelhança entre o desempenho de Albon em 2020 e de Gasly em 2019 foi apenas um dos ingredientes da mudança de pilotos da Red Bull para 2021. Outro motivo se encontra no contexto de outra equipe.

 

3- Mudanças na Racing Point: Sergio Pérez entra na jogada

 

Em 2020 a Racing Point iniciou um capítulo marcante de sua história. A temporada anterior serviu como um teste para os novos planejamentos da equipe, comprada na segunda metade de 2018 por um consórcio liderado por Lawrence Stroll após a falência da Force India. Decidida a entrar no grupo das equipes de ponta, a escuderia inglesa teve resultados impressionantes graças ao trabalho conjunto do departamento de engenharia e de sua dupla de pilotos, formada por Lance Stroll e Sergio Pérez.

Para 2021, o time buscou ainda mais investimentos para continuar seu caminho triunfante. Um dos acordos obtidos foi com a empresa francesa Aston Martin, que dará seu nome à equipe. Tudo parecia seguir exatamente como estava, porém com melhorias se aproximando, até que uma reviravolta aconteceu: Sebastian Vettel foi demitido da Ferrari por suas performances decepcionantes e meses depois foi anunciado como piloto da Racing Point para 2021. Sua contratação não teria sido tão polêmica se não fosse pela confusão de informações relatadas à imprensa: a Racing Point oscilava entre a negação e o interesse por Vettel, e as narrativas de Pérez e do chefe de equipe, Otmar Sznafnauer, sobre se o mexicano havia sido previamente avisado da situação conflitavam entre si. A verdade foi revelada mais tarde pelo jornalista Adam Cooper, que relatou que Vettel havia comprado ações da Aston Martin, e com isso garantiu um assento no time (para entender melhor este caso, leia o artigo de Ricardo Hernandes Meyer aqui).

 

Otmar Sznafnauer, chefe de equipe da Racing Point (esquerda), e Sebastian Vettel (direita). (Foto: XPB) [5]

 

Pérez é notado por ser um dos pilotos mais consistentes da Fórmula 1. Em seu currículo encontram-se pódios em corridas difíceis, como no Grande Prêmio do Azerbaijão de 2018. A jornalista Noemí de Miguel, que relatou em primeira mão que a Renault negociava a contratação de Fernando Alonso para 2021 (confirmada meses depois), afirmava que a Red Bull planejava trazer Pérez para correr ao lado de Max Verstappen. Um dos indícios dessa negociação foi quando Antonio Pérez, irmão do piloto, passou a seguir o perfil da Red Bull no Twitter. No entanto, tanto “Checo” quanto a equipe austríaca preferiram manter as conversas em segredo (talvez para não afetar os resultados de Albon) e somente anunciaram a decisão após o Grande Prêmio de Abu Dhabi.

 

Entre os perfis seguidos no Twitter por Antonio Pérez, irmão de Sergio, está o da Red Bull. (Foto: Twitter) [6]

 

Percebe-se que as ações da Racing Point e da Ferrari também tiveram impacto na Red Bull, principalmente no destino de Albon. Esperava-se que Vettel teria um ano sabático para refletir sobre seus erros e repensar sua carreira, tal como houve com Esteban Ocon. No entanto, o alemão teve uma estratégia de mestre: comprando ações da empresa dona, garante uma vaga. É claro que a imprensa de maneira geral não vai ressaltar esse fato, pois prefere gerar controvérsias em cima de Stroll, que não tem nada a ver com a história (o motivo fica implícito). A necessidade de vaga de Pérez e o desejo da Red Bull por substituir Albon sem que isso se parecesse com o caso de Pierre Gasly propiciaram a contratação do mexicano e, consequentemente, a substituição do tailandês.

 

4- A pressa de Helmut Marko: o sacrifício dos jovens talentos da Red Bull

 

O consultor da Red Bull já havia dito para a imprensa que “nenhum dos jovens do programa de treinamento da equipe chega perto de Max Verstappen”. Tal afirmação é prejudicial para os atletas, que sentem uma desvalorização de seu trabalho. É certo que o esporte é uma área que demanda pressão para resultar em conquistas, mas esse tipo de comparação não apenas atrapalha a autoconfiança dos jovens pilotos como também frustra os planos da própria equipe. Somado a isso, Marko parece pressionar demais os atletas e não fazer o mesmo com o departamento de engenharia, incapaz de produzir um carro à altura do potencial de Verstappen apesar de alegadamente trabalhar focado no piloto. Lembrando que os engenheiros são fundamentais no desempenho de uma escuderia na Fórmula 1, como se observou no caso da Williams.

Verstappen, como revelado anteriormente, é um talento excepcional. Ainda adolescente conseguiu vitórias, pódios e recordes em uma equipe que não tinha o melhor carro do grid. Isso não significa, porém, que outros pilotos não possam ser bons. Exigir de seus alunos um clone de Verstappen é uma atitude absurda de Marko, pois cada pessoa tem seu estilo de trabalho. Nem mesmo o pai de Max, Jos Verstappen, teve resultados tão brilhantes na carreira quanto o filho. Se em vez de exigir uma segunda versão do holandês a Red Bull trabalhasse para desenvolver o potencial de ambos os pilotos, o time teria uma performance melhor nos campeonatos. Mas parece que essa escuderia privilegia um atleta e pretere o outro, como observado na primeira década de 2010 com Sebastian Vettel e Mark Webber.

 

Marko chegou a acusar Albon de não ter confiança. Com um chefe desses fica difícil. (Foto: GPBlog) [7]

 

A vitória de Pierre Gasly em 2020 provou que cada piloto tem seu tempo de adaptação e que cobranças excessivas não moldam um atleta baseado em outro somente porque o conselho da equipe deseja. Lamentavelmente, embora seja inimiga da perfeição, a pressa se mostra como um dos valores de Marko e isso sacrifica as oportunidades da Red Bull. O exemplo da Racing Point, que preferiu “ir com calma” em 2019 para arrasar em 2020, demonstra que cautela deve ser o principal ingrediente de um bom planejamento, não ansiedade.

Outro ponto importante a ser notado é a contratação de Yuki Tsunoda para correr pela AlphaTauri em 2021. Como Daniil Kvyat não consegue satisfazer mais o grupo e Gasly faz um ótimo trabalho, é natural que o russo seja demitido para dar uma chance ao japonês. Embora isso signifique um impedimento para que Albon volte à AlphaTauri, Tsunoda não deve ser responsabilizado pelo infortúnio do tailandês, pois trata-se de um novo talento que terá uma chance de apresentar seu trabalho. Como demonstrado anteriormente, a compra de assento de Vettel na Aston Martin influencia muito mais a situação de Albon do que a contratação do piloto japonês.

 

5- Conclusões

 

O caso de Alexander Albon apenas se difere do de Pierre Gasly no tempo em que cada um foi demitido da Red Bull. Ambos foram vítimas da pressa e da ânsia de Helmut Marko em ter dois pilotos com o desempenho de Max Verstappen, o que descarrega toda a responsabilidade nos jovens atletas. Tanto Albon quanto Gasly provaram ter talento e merecem assentos na Fórmula 1, mas sofreram com o conflito de interesses da equipe austríaca, que deseja o triunfo optando pelos meios errados.

Caso Sebastian Vettel não tivesse comprado as ações da Aston Martin, em sua tentativa bem sucedida de se manter nas pistas apesar de sua impetuosidade, talvez a Red Bull tivesse que manter Albon por mais tempo. Isso porque provavelmente a Racing Point manteria seus pilotos, já que Lance Stroll e Sergio Pérez têm uma ótima dinâmica como companheiros e garantem ótimos resultados nas corridas. Como o mexicano é mais experiente, e com isso tem um currículo mais extenso, ele se tornou o candidato ideal para a Red Bull prosseguir em sua luta contra a Mercedes, além de satisfazer a vontade de demitir um piloto cujo “erro” foi não ser igual a Verstappen.

 

É assim que a Red Bull pensa: Verstappen está acima de qualquer piloto. [8]

 

Embora tenha dito que nunca sofreu racismo em sua vida pessoal ou profissional, alguns torcedores e jornalistas se lembram de um caso no mínimo suspeito. No Grande Prêmio da Itália de 2019, os comissários decidiram puni-lo por um incidente com Carlos Sainz Jr., mesmo tendo sido o espanhol a lançar o adversário para fora da pista. Esta foi uma das ações que levaram às suspeitas de racismo por parte dos comissários (as outras foram as decisões injustas com Stroll e Lewis Hamilton), que prejudicaram os três pilotos de cor do grid em benefício de atletas brancos. Talvez Albon não tenha percebido as “coincidências” nas decisões tomadas no Grande Prêmio da Itália, mas estas não podem ser ignoradas. Além disso, quando começaram as especulações a respeito de sua saída da Red Bull, muito se falou de um possível interesse dos donos da empresa em mantê-lo por ele ser tailandês. É certo que empresas patrocinadoras se interessam por atletas compatriotas em suas respectivas categorias esportivas, mas Albon não deve ser lembrado apenas por suas origens étnicas. Seu trabalho e esforço justificaram sua presença na Fórmula 1.

Alexander Albon é mais um piloto condenado pela irresponsabilidade de sua equipe mesmo sendo inocente. Um caso parecido foi o de Sergey Sirotkin, que saiu da Fórmula 1 com o estigma de “piloto pagante” embora não tivesse culpa pela crise enfrentada pela Williams (que foi provada nos anos seguintes ser de seus engenheiros e dirigentes). Os responsáveis diretos pela saída do piloto da Red Bull são Vettel (por ter causado a saída de Pérez da Racing Point ao comprar as ações da Aston Martin) e Marko (por exigir perfeição de seus pilotos em pouco tempo), mas o que podemos considerar a “culpada” pelo infortúnio de Albon é a política segregacionista da Red Bull, que prefere transformar um piloto em príncipe (mesmo não tendo os recursos para isso) e o outro em mendigo, quando poderia transformar ambos em heróis. Se não mudar suas estratégias, a equipe austríaca corre o risco de passar por uma crise semelhante à da Ferrari e outros “Albons” serão sacrificados no processo.

 

Resumo da ópera. [9]

 

6- Leia também:

 

 

7- Bibliografia

 

 

8- Fotos

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A Queda da Williams: Do Auge à Ruína

Em meio à pandemia de Covid-19 que provocou o cancelamento e adiamento de várias corridas de 2020, dois anúncios alarmaram a mídia esportiva. Um deles foi a demissão de Sebastian Vettel da Ferrari. O outro se refere à grave crise financeira que assola a Williams. Outrora campeã, a escuderia inglesa comandada por Claire Williams passou por vários períodos de má administração que culminaram numa potencial falência. Em meio a tantas especulações, desvendaremos os motivos que levaram a Williams à situação atual.

 

1- Origens: do amor de Lady Virginia à primeira crise

 

As origens da Williams provêm de dois amores: o de Virginia Berry por Frank Williams e o dele por carros. Vindo de família pobre, Frank se juntou a um grupo de amigos ricos que amavam corridas. Para conseguir dinheiro, ele trabalhava na compra e venda de peças. Com isso, fundou a Frank Williams Racing Cars em 1966 e ingressou no mercado automobilístico, vendendo carros a pilotos de diversos países da Europa, principalmente para italianos. No ano seguinte, conheceu Virginia, uma moça rica e casada. Os dois começaram um relacionamento e ela se divorciou de seu marido para ficar com Frank. Depois de atuar em algumas rodadas da Fórmula 3, ficando conhecido por seu jeito perigoso e arriscado de direção, Frank transformou a Frank Williams Racing Cars em um time de Fórmula 1, tendo Piers Courage como seu piloto principal.

 

Piers Courage, piloto de confiança de Frank Williams. (Foto: nobresdogrid.com.br) [1]

 

Porém, em 1970, Courage morreu em um trágico acidente no Grande Prêmio da Holanda. Seu falecimento deixou Frank Williams muito triste. Nos anos seguintes, sendo nomeada como Williams FW a partir de 1973, o desempenho da escuderia caiu drasticamente, sendo alvo de críticas por parte da imprensa. Seus carros eram feitos de materiais de segunda mão devido ao baixo orçamento do time. Virginia, com quem Frank se casou oficialmente em 1974, fez muitos sacrifícios para manter a equipe, inclusive vendendo seu próprio apartamento. Porém, tanto a família Williams quanto a escuderia viviam dias de penúria. Com estruturas precárias, os carros não atingiam bons resultados, logo a Fórmula 1 pagava uma quantia baixa de dinheiro à equipe. Consequentemente, não havia muitos recursos a serem investidos na melhora dos carros. Atolado em dívidas, Frank não teve outra escolha a não ser aceitar a oferta do magnata do setor petrolífero Walter Wolf e vender 60% de sua escuderia em 1976. No final daquele ano, Wolf removeu Frank da administração e comprou sua parte, renomeando a escuderia como Walter Wolf Racing.

 

Walter Wolf: primeiro investidor a solucionar uma crise da Williams. (Foto: reporter.si) [2]

 

2- Recomeço: Patrick Head e a nova Williams

 

Em 1977, Frank Williams fez um acordo com a cervejaria belga Belle Vue, patrocinadora do piloto Patrick Nève, e fundou junto com Patrick Head a Williams Grand Prix Engineering Limited. Engenheiro, Head foi um dos responsáveis pelo avanço tecnológico que possibilitou o renascimento da Williams. O primeiro ano do novo time não foi muito animador, terminando a temporada sem pontos. No entanto, tempos melhores estavam por vir.

No ano seguinte, Alan Jones conquistou o primeiro pódio da Williams, com um terceiro lugar no Grande Prêmio dos Estados Unidos. Cinco rodadas depois, na Grã-Bretanha, seu companheiro de equipe, Clay Regazzoni, garantiu a primeira vitória da história da escuderia. Jones foi vitorioso na Alemanha, Áustria, Holanda e Canadá e Regazzoni conseguiu pódios na Itália e Canadá, chegando em terceiro lugar em ambas as corridas. Somando 75 pontos, a Williams se tornou a vice-campeã do campeonato de construtoras, ficando a 38 pontos da primeira colocada Ferrari.

 

Alan Jones: primeiro campeão pela Williams. (Foto: Motorsport) [3]

 

Os anos 80 marcaram o domínio da Williams na Fórmula 1. Tendo Alan Jones e Carlos Reutemann em 1980, a escuderia venceu pela primeira vez tanto o campeonato de pilotos quanto o de construtoras. Jones foi o campeão e Reutemann foi o terceiro colocado. No ano seguinte, a equipe foi novamente campeã de construtoras, com seus pilotos marcando juntos 95 pontos (49 de Reutemann, vice-campeão, e 46 de Jones, terceiro colocado). Em 1982, Keke Rosberg substituiu Jones e foi campeão com 44 pontos. Obtendo seis pódios, Rosberg ficou conhecido como “campeão de uma só vitória”, pois a única corrida que venceu naquele ano foi o Grande Prêmio da Suíça, mas sua constância em pontuar garantiu o título. A Williams foi a quarta no campeonato de construtoras, repetindo a posição no ano seguinte, quando Jacques Laffite substituiu Reutemann.

Ficando em sexto lugar em 1984 e em terceiro em 1985, a Williams voltou a ganhar o campeonato de construtoras em 1986, tendo como pilotos Nigel Mansell e Nelson Piquet (bicampeão com a Brabham em 1981 e 1983). Mansell terminou a temporada como vice-campeão e Piquet foi o terceiro colocado. No ano seguinte, o brasileiro foi o campeão e o inglês foi vice. A Williams conquistava seu quarto campeonato de construtoras. O time terminou a década com um sétimo lugar em 1988 e um segundo lugar em 1989.

 

Nigel Mansell e Nelson Piquet: destaques nos anos de ouro da Williams. (Foto: Esportes em Ação) [4]

 

3- Acidente de Frank e a ascensão de Claire

 

No dia 8 de março de 1986, Frank Williams sofreu um grave acidente de carro na França, ficando tetraplégico. Porém, continuou ativo como diretor da equipe. A escuderia repetiu o sucesso na década de 90, vencendo o campeonato de construtoras em 1992, 1993, 1994, 1996 e 1997, e o de pilotos em 1992 (com Nigel Mansell), 1993 (com Alain Prost), 1996 (com Damon Hill) e 1997 (com Jacques Villeneuve). Em 1994, o time sofreu uma grande perda: Ayrton Senna morreu em um acidente no Grande Prêmio de San Marino.

Pai de Jonathan, Claire e Jaime, Frank não confiava em seus filhos para comandar a escuderia, porém sua filha sempre teve interesse pelos negócios da família. Ingressando em 2002 no departamento de comunicação da escuderia, ela assumiu o posto mais alto do setor oito anos depois. Em 2012, Frank abdicou da função de chefe de equipe e Claire assumiu o cargo no ano seguinte, permanecendo até os dias de hoje. Ela também é responsável pelos departamentos de marketing, de comunicação e pelos negócios comerciais da Williams. Seu irmão Jonathan também trabalha na escuderia. Ele desempenhava funções administrativas até a ascensão de Claire.

 

Claire Williams: filha do fundador e atual CEO da escuderia. (Foto: Pinterest) [5]

 

4- A segunda crise: Toto Wolff salva a equipe

 

No início da década de 2000, a Williams permaneceu em uma boa posição entre as construtoras, ficando em terceiro lugar em 2000 e 2001 e em segundo em 2002 e 2003. A partir de 2004, o desempenho da equipe foi caindo, oscilando entre o quarto e o oitavo lugar até 2009. Durante esse período, pelo menos um piloto saía da Williams por ano. Entre os nomes mais conhecidos do time nessa década se destacam Juan Pablo Montoya, Mark Webber e Nico Rosberg.

Era nítido que havia algo de errado na escuderia. Os acordos com as provedoras de motor Cosworth (2006) e Toyota (2007-2009) não haviam rendido bons resultados. Ganhando menos do que nos anos de glória, a Williams não tinha recursos suficientes para boas atualizações no carro. Porém, em 2009, o empresário Toto Wolff comprou uma parte das ações do time e passou a integrar seu corpo de diretores. Era a oportunidade perfeita para sair da crise.

 

Toto Wolff: segundo salvador da Williams. (Foto: EsporteNET) [6]

 

Em 2010, desiludida com a Toyota, a Williams voltou a usar os motores Cosworth, firmando um acordo de longo prazo. Porém, sem bons resultados, a pareceria acabou no ano seguinte. Em 2012, a equipe passou a utilizar motores Renault, mas o desempenho continuou bem abaixo do esperado. Nesse mesmo ano, Pastor Maldonado garantiu a última vitória da Williams até hoje, no Grande Prêmio da Espanha. Toto Wolff foi nomeado diretor executivo e sua esposa Susie foi contratada como piloto de testes. A Williams tinha a oportunidade de ter oficialmente a primeira mulher na Fórmula 1 desde Desiré Wilson, que correu em 1980. No entanto, entraves internos impediram a realização desse fato, bem como a de mudanças necessárias no departamento de engenharia. Com isso, a Williams oscilou entre o sexto e o nono lugar entre as construtoras entre 2010 e 2013.

 

Vitória de Pastor Maldonado no Grande Prêmio da Espanha de 2012, a última da Williams. (Foto: CarsNB.com) [7]

 

5- Saída de Wolff e terceira crise: Lawrence Stroll salva a equipe

 

Em 2013, vendo-se de mãos atadas, Toto Wolff vendeu suas ações na Williams e se juntou à Mercedes, comprando 30% das ações da escuderia. Claire Williams assumiu a função de chefe de equipe e cargos administrativos. No ano seguinte teve início o domínio da equipe alemã na Fórmula 1 que permanece até os dias de hoje. Em 2014 e 2015, contando com os motores da Mercedes, a Williams voltou para o pódio das construtoras, ficando no terceiro lugar. No entanto, a administração financeira da equipe ainda sofria problemas. Correndo risco de fechar após a temporada de 2016, a qual terminou no quinto lugar, a escuderia precisava de mais investimentos. Entre os pilotos, Felipe Massa anunciou sua aposentadoria no final daquele ano, enquanto Valtteri Bottas permaneceu com o time.

Ainda em 2016, o empresário do setor vestuário Lawrence Stroll, pai do campeão da Fórmula 3 Europeia daquele ano, Lance Stroll, anunciou que investiria na Williams. Lance assumiu a vaga de Massa. Porém, com a aposentadoria de Nico Rosberg, Wolff chamou Bottas, seu apadrinhado, para substituí-lo na Mercedes. Para realizar a transferência, a filha de Frank Williams exigiu a volta de Paddy Lowe à equipe, que assumiu o departamento de engenharia. Segundo relatos de Massa, Claire o chamou por telefone no Natal para voltar ao time no lugar do finlandês.

 

Lance Stroll e seu pai Lawrence, o terceiro salvador da Williams. (Foto: F1Sport.it) [8]

 

Em 2017, a Williams teve um começo mediano. Massa conseguia pontuações razoáveis e Stroll enfrentava dificuldades, com falhas mecânicas na primeira corrida e acidentes causados respectivamente por Sergio Pérez e Carlos Sainz Jr nas seguintes. A mídia passou a atacar o canadense, culpando-o pelos problemas da equipe. Antes mesmo do início da temporada, durante os testes em Barcelona, Claire chegou a culpar as batidas de Stroll pelo cancelamento de um dos testes da equipe, o que incitou torcedores furiosos a atacar o jovem nas redes sociais de maneira covarde e injusta. Lowe sempre o criticava na imprensa. Ao mesmo tempo, a mesma mídia que se encantou com uma mulher na posição de chefe de equipe não teve a mesma reação com a estreia de um piloto indígena na categoria. No entanto, no Grande Prêmio do Azerbaijão, Stroll obteve o único pódio da equipe e o último da Williams até hoje, com um terceiro lugar. Com este resultado, a escuderia passou para o quinto lugar do campeonato, conseguindo uma bonificação maior do que o ano anterior.

 

Pódio de Lance Stroll no Grande Prêmio do Azerbaijão de 2017: o último da Williams. (Foto: Fórmula 1) [9]

 

Infelizmente, a contribuição de Stroll para o time não foi reconhecida devidamente. Em 2018, após a aposentadoria definitiva de Massa, a Williams contratou Sergey Sirotkin para substituí-lo. Mesmo com o ingresso de mais um patrocinador, o banco russo SMP, o departamento de engenharia não soube traduzir o investimento em melhorias no carro. Consequentemente, os dois pilotos tiveram muita dificuldade em conseguir pontuações. Isentando os engenheiros de culpa pelo fraco rendimento dos carros, a mídia voltou a atacar Stroll. Alguns jornalistas ignoraram a ética jornalística (ensinada nas faculdades) e chegaram a usar termos passíveis de processo, como “pilotos de talento questionável”, ignorando os feitos de Stroll no ano anterior e nas competições anteriores à sua estreia na Fórmula 1 e desconsiderando a falta de experiência de Sirotkin. A mídia simplesmente se “esqueceu” que quem faz os carros são os engenheiros, não os pilotos, que o orçamento da equipe provém dos patrocinadores (portanto investidores são sempre bem-vindos) e jornalistas utilizaram a falácia argumentum ad hominem para atacar os pilotos e inocentar Claire Williams e Paddy Lowe (ver a fonte na matéria assinada por Kadu Gouvêa na bibliografia).

 

Paddy Lowe, diretor técnico da Williams de 2017 a 2019. (Foto: Jornal Cruzeiro do Sul) [10]

 

6- Saída de Stroll e quarta crise: as máscaras começam a cair

 

Na segunda metade de 2018, Lawrence Stroll montou um consórcio de investidores e comprou a equipe Force India, cujo dono Vijay Mallya era procurado pelas autoridades indianas por suspeita de corrupção. Mesmo ciente das dificuldades enfrentadas por seu filho com um carro nada competitivo e de sua crucificação na mídia, Lawrence manteve Lance na Williams até o final do ano. O canadense se mudou para a nova equipe, renomeada como Racing Point, no ano seguinte (ver “Entenda o Caso Esteban Ocon”).

Com Stroll fora do time, a Williams perdia seu maior bode expiatório. Os críticos, crentes que o empresário canadense e seu filho eram os culpados pela crise na equipe, acreditavam que as novas contratações levariam a escuderia de volta aos tempos áureos. No entanto, com a saída de Stroll, a Williams teve o pior desempenho de sua história. Robert Kubica foi o único a pontuar, marcando apenas um ponto no Grande Prêmio da Alemanha. George Russell, apadrinhado de Toto Wolff, terminou o ano sem pontos. No entanto, nenhum órgão de imprensa o chamou de “piloto pagante”, mesmo vindo de família rica e não tendo chances de justificar o investimento em seu trabalho, gerando suspeitas de racismo por parte da mídia (ver “O Caso Lance Stroll: Um Indígena na Fórmula 1”).

 

George Russell: branco e europeu, não é criticado pela mídia mesmo não conseguindo pontuar. (Foto: AutoSport) [11]

 

Amargando na lanterna do campeonato com a menor bonificação de sua história, a Williams se encontrou novamente numa grave crise. Logo no início de 2019, vendo que a mídia agora não tinha mais como culpar Stroll e que Russell e Kubica não conseguiam sair dos últimos lugares, Lowe pediu afastamento de suas funções alegando motivos pessoais. O departamento de engenharia continuou falhando em suas funções, sendo o caso mais notável o atraso em meses do volante adaptado de Kubica. Finalmente a pressão caiu sobre Claire. Kubica foi demitido no final do ano e Nicholas Latifi, piloto canadense de ascendência iraniana, foi escolhido como seu substituto. Latifi nem havia estreado e alguns torcedores o acusaram de ser pagante e fizeram ofensas xenofóbicas ao Canadá. Não houve sequer pronunciamento da Williams a respeito disso.

 

Nicholas Latifi: nem estreou e os torcedores raivosos já o culpam pela quarta crise da Williams. (Foto: tomadadetempo.com) [12]

 

Em 2020, em meio à paralisação das atividades das escuderias devido à pandemia de Covid-19, Claire admitiu a possibilidade de venda total da Williams. Toto Wolff adquiriu 5% das ações do time em junho.

 

7- Afinal, de quem é a culpa?

 

Diferente do que alguns jornalistas tentam incutir na cabeça dos torcedores, a culpa pela crise da Williams NÃO é de Lawrence Stroll, muito menos de Lance Stroll, e nem de nenhum outro investidor ou piloto a quem a mídia tenta nomear desonestamente como “pagante”. A culpa é de ninguém a não ser a própria Claire Williams. Por ser filha do fundador da escuderia e gestora após o acidente do mesmo, Claire deveria administrar melhor a parte financeira para assegurar o controle do time em suas mãos. No entanto, os gastos excessivos que não foram traduzidos em resultados nas pistas levaram a escuderia a depender de investimentos externos. Ora, se o problema da Williams era dinheiro, como que a culpa pode ser de quem colocou dinheiro em seu caixa? Toto Wolff e Lawrence Stroll nada fizeram além de AJUDAR o time inglês no momento em que este mais precisava de auxílio. Pilotos e investidores não fazem carros, engenheiros fazem, e o departamento de engenharia comandado por Paddy Lowe teve dinheiro suficiente para desenvolver um bom projeto, mas falhou consideravelmente.

O fato de Lance ser filho de Lawrence não quer dizer absolutamente nada no assunto da crise financeira da Williams. A participação do piloto indígena garantiu à escuderia o quinto lugar do campeonato de construtoras em 2017 graças a seu terceiro lugar no Grande Prêmio do Azerbaijão, justificando o investimento de seu pai na equipe. É óbvio que o desempenho do carro é responsabilidade do engenheiro e o controle financeiro compete aos donos da equipe, mas muitos não enxergam isso e, por ignorância ou falta de caráter, jogam a culpa em Stroll. A insistência da mídia em querer culpá-lo por todos os problemas que acontecem na Fórmula 1 atual, desde questões internas das escuderias até as da categoria como um todo, reflete dois fenômenos que acompanham a história da humanidade e foram responsáveis pelas maiores tragédias.

 

Essa frase de Einstein diz muito sobre o modo como a mídia trata Lance Stroll. (Foto: Pensador) [13]

 

Um deles é o antissemitismo, pois os grupos poderosos sempre tentaram culpar os judeus pelas mazelas do mundo e o fazem até hoje. Como a sociedade atual é mais consciente do problema da discriminação, a mídia apenas acusa Stroll e omite sua origem étnica (o motivo da perseguição) para não correr o risco de ser retaliada pela opinião pública. Alguns torcedores aceitam o discurso por compactuarem com essas ideias, outros são enganados facilmente, refletindo o que foi previsto por Harold Lasswell no século XX: há pessoas que aceitam passivamente tudo o que a mídia diz, sem questionar nada. No século XXI, Ben Shapiro comprovou a existência dessa face da mídia, notando que a mesma ignora os fatos e apresenta a narrativa como bem entender para cumprir sua agenda.

O outro fenômeno é o racismo estrutural. Mesmo com boas condições financeiras, Lance Stroll ainda pertence a grupos minoritários (pois é judeu e indígena), e a mídia tenderá a favorecer os grupos historicamente privilegiados (europeus e brancos). Com isso, comprovando a análise de Shapiro, ela ignora a incompetência administrativa de Claire Williams para jogar a culpa em Stroll, mesmo sem argumentos ou provas. Seu discurso acaba prevalecendo porque muitos torcedores não querem pensar, pois é mais cômodo aceitar o que é dito sem averiguar os fatos. Para alguns, pode parecer absurdo que discussões raciais sejam feitas no contexto da Fórmula 1, principalmente se tratando da falência de uma escuderia. No entanto, é humanamente impossível ignorar a perseguição doentia e injusta que a mídia e alguns torcedores fazem com Lance Stroll e os motivos devem sim ser desmascarados.

 

8- Conclusão

 

O mau gerenciamento financeiro da Williams colocou a equipe em quatro crises ao longo de sua história. Mesmo com bons investimentos e patrocinadores, o departamento de engenharia falhou sucessivamente em atualizar o carro para que os pilotos pudessem lutar por boas posições e colocar a equipe de volta ao topo do campeonato. A mídia preferiu culpar quem estava ajudando em vez dos responsáveis pela ineficiência do carro. O clima interno hostil afasta potenciais investidores, sob o temor de enfrentar entraves nas decisões (e se pertencer a uma minoria étnica, corre o risco de ser crucificado pela imprensa e torcedores e culpado por questões fora de sua responsabilidade). Logo, para a Williams só resta a venda da escuderia ou aprender com o passado e realizar uma mudança radical na sua postura.

 

Problema da Williams: sempre morde a mão que a alimenta. [14]

 

Atualização: No dia 21 de agosto de 2020 foi anunciada a venda total da Williams para o grupo americano Dorilton Capital.

 

9- Bibliografia

 

 

10- Fotos

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