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A Queda da Williams: Do Auge à Ruína

Em meio à pandemia de Covid-19 que provocou o cancelamento e adiamento de várias corridas de 2020, dois anúncios alarmaram a mídia esportiva. Um deles foi a demissão de Sebastian Vettel da Ferrari. O outro se refere à grave crise financeira que assola a Williams. Outrora campeã, a escuderia inglesa comandada por Claire Williams passou por vários períodos de má administração que culminaram numa potencial falência. Em meio a tantas especulações, desvendaremos os motivos que levaram a Williams à situação atual.

 

1- Origens: do amor de Lady Virginia à primeira crise

 

As origens da Williams provêm de dois amores: o de Virginia Berry por Frank Williams e o dele por carros. Vindo de família pobre, Frank se juntou a um grupo de amigos ricos que amavam corridas. Para conseguir dinheiro, ele trabalhava na compra e venda de peças. Com isso, fundou a Frank Williams Racing Cars em 1966 e ingressou no mercado automobilístico, vendendo carros a pilotos de diversos países da Europa, principalmente para italianos. No ano seguinte, conheceu Virginia, uma moça rica e casada. Os dois começaram um relacionamento e ela se divorciou de seu marido para ficar com Frank. Depois de atuar em algumas rodadas da Fórmula 3, ficando conhecido por seu jeito perigoso e arriscado de direção, Frank transformou a Frank Williams Racing Cars em um time de Fórmula 1, tendo Piers Courage como seu piloto principal.

 

Piers Courage, piloto de confiança de Frank Williams. (Foto: nobresdogrid.com.br) [1]

 

Porém, em 1970, Courage morreu em um trágico acidente no Grande Prêmio da Holanda. Seu falecimento deixou Frank Williams muito triste. Nos anos seguintes, sendo nomeada como Williams FW a partir de 1973, o desempenho da escuderia caiu drasticamente, sendo alvo de críticas por parte da imprensa. Seus carros eram feitos de materiais de segunda mão devido ao baixo orçamento do time. Virginia, com quem Frank se casou oficialmente em 1974, fez muitos sacrifícios para manter a equipe, inclusive vendendo seu próprio apartamento. Porém, tanto a família Williams quanto a escuderia viviam dias de penúria. Com estruturas precárias, os carros não atingiam bons resultados, logo a Fórmula 1 pagava uma quantia baixa de dinheiro à equipe. Consequentemente, não havia muitos recursos a serem investidos na melhora dos carros. Atolado em dívidas, Frank não teve outra escolha a não ser aceitar a oferta do magnata do setor petrolífero Walter Wolf e vender 60% de sua escuderia em 1976. No final daquele ano, Wolf removeu Frank da administração e comprou sua parte, renomeando a escuderia como Walter Wolf Racing.

 

Walter Wolf: primeiro investidor a solucionar uma crise da Williams. (Foto: reporter.si) [2]

 

2- Recomeço: Patrick Head e a nova Williams

 

Em 1977, Frank Williams fez um acordo com a cervejaria belga Belle Vue, patrocinadora do piloto Patrick Nève, e fundou junto com Patrick Head a Williams Grand Prix Engineering Limited. Engenheiro, Head foi um dos responsáveis pelo avanço tecnológico que possibilitou o renascimento da Williams. O primeiro ano do novo time não foi muito animador, terminando a temporada sem pontos. No entanto, tempos melhores estavam por vir.

No ano seguinte, Alan Jones conquistou o primeiro pódio da Williams, com um terceiro lugar no Grande Prêmio dos Estados Unidos. Cinco rodadas depois, na Grã-Bretanha, seu companheiro de equipe, Clay Regazzoni, garantiu a primeira vitória da história da escuderia. Jones foi vitorioso na Alemanha, Áustria, Holanda e Canadá e Regazzoni conseguiu pódios na Itália e Canadá, chegando em terceiro lugar em ambas as corridas. Somando 75 pontos, a Williams se tornou a vice-campeã do campeonato de construtoras, ficando a 38 pontos da primeira colocada Ferrari.

 

Alan Jones: primeiro campeão pela Williams. (Foto: Motorsport) [3]

 

Os anos 80 marcaram o domínio da Williams na Fórmula 1. Tendo Alan Jones e Carlos Reutemann em 1980, a escuderia venceu pela primeira vez tanto o campeonato de pilotos quanto o de construtoras. Jones foi o campeão e Reutemann foi o terceiro colocado. No ano seguinte, a equipe foi novamente campeã de construtoras, com seus pilotos marcando juntos 95 pontos (49 de Reutemann, vice-campeão, e 46 de Jones, terceiro colocado). Em 1982, Keke Rosberg substituiu Jones e foi campeão com 44 pontos. Obtendo seis pódios, Rosberg ficou conhecido como “campeão de uma só vitória”, pois a única corrida que venceu naquele ano foi o Grande Prêmio da Suíça, mas sua constância em pontuar garantiu o título. A Williams foi a quarta no campeonato de construtoras, repetindo a posição no ano seguinte, quando Jacques Laffite substituiu Reutemann.

Ficando em sexto lugar em 1984 e em terceiro em 1985, a Williams voltou a ganhar o campeonato de construtoras em 1986, tendo como pilotos Nigel Mansell e Nelson Piquet (bicampeão com a Brabham em 1981 e 1983). Mansell terminou a temporada como vice-campeão e Piquet foi o terceiro colocado. No ano seguinte, o brasileiro foi o campeão e o inglês foi vice. A Williams conquistava seu quarto campeonato de construtoras. O time terminou a década com um sétimo lugar em 1988 e um segundo lugar em 1989.

 

Nigel Mansell e Nelson Piquet: destaques nos anos de ouro da Williams. (Foto: Esportes em Ação) [4]

 

3- Acidente de Frank e a ascensão de Claire

 

No dia 8 de março de 1986, Frank Williams sofreu um grave acidente de carro na França, ficando tetraplégico. Porém, continuou ativo como diretor da equipe. A escuderia repetiu o sucesso na década de 90, vencendo o campeonato de construtoras em 1992, 1993, 1994, 1996 e 1997, e o de pilotos em 1992 (com Nigel Mansell), 1993 (com Alain Prost), 1996 (com Damon Hill) e 1997 (com Jacques Villeneuve). Em 1994, o time sofreu uma grande perda: Ayrton Senna morreu em um acidente no Grande Prêmio de San Marino.

Pai de Jonathan, Claire e Jaime, Frank não confiava em seus filhos para comandar a escuderia, porém sua filha sempre teve interesse pelos negócios da família. Ingressando em 2002 no departamento de comunicação da escuderia, ela assumiu o posto mais alto do setor oito anos depois. Em 2012, Frank abdicou da função de chefe de equipe e Claire assumiu o cargo no ano seguinte, permanecendo até os dias de hoje. Ela também é responsável pelos departamentos de marketing, de comunicação e pelos negócios comerciais da Williams. Seu irmão Jonathan também trabalha na escuderia. Ele desempenhava funções administrativas até a ascensão de Claire.

 

Claire Williams: filha do fundador e atual CEO da escuderia. (Foto: Pinterest) [5]

 

4- A segunda crise: Toto Wolff salva a equipe

 

No início da década de 2000, a Williams permaneceu em uma boa posição entre as construtoras, ficando em terceiro lugar em 2000 e 2001 e em segundo em 2002 e 2003. A partir de 2004, o desempenho da equipe foi caindo, oscilando entre o quarto e o oitavo lugar até 2009. Durante esse período, pelo menos um piloto saía da Williams por ano. Entre os nomes mais conhecidos do time nessa década se destacam Juan Pablo Montoya, Mark Webber e Nico Rosberg.

Era nítido que havia algo de errado na escuderia. Os acordos com as provedoras de motor Cosworth (2006) e Toyota (2007-2009) não haviam rendido bons resultados. Ganhando menos do que nos anos de glória, a Williams não tinha recursos suficientes para boas atualizações no carro. Porém, em 2009, o empresário Toto Wolff comprou uma parte das ações do time e passou a integrar seu corpo de diretores. Era a oportunidade perfeita para sair da crise.

 

Toto Wolff: segundo salvador da Williams. (Foto: EsporteNET) [6]

 

Em 2010, desiludida com a Toyota, a Williams voltou a usar os motores Cosworth, firmando um acordo de longo prazo. Porém, sem bons resultados, a pareceria acabou no ano seguinte. Em 2012, a equipe passou a utilizar motores Renault, mas o desempenho continuou bem abaixo do esperado. Nesse mesmo ano, Pastor Maldonado garantiu a última vitória da Williams até hoje, no Grande Prêmio da Espanha. Toto Wolff foi nomeado diretor executivo e sua esposa Susie foi contratada como piloto de testes. A Williams tinha a oportunidade de ter oficialmente a primeira mulher na Fórmula 1 desde Desiré Wilson, que correu em 1980. No entanto, entraves internos impediram a realização desse fato, bem como a de mudanças necessárias no departamento de engenharia. Com isso, a Williams oscilou entre o sexto e o nono lugar entre as construtoras entre 2010 e 2013.

 

Vitória de Pastor Maldonado no Grande Prêmio da Espanha de 2012, a última da Williams. (Foto: CarsNB.com) [7]

 

5- Saída de Wolff e terceira crise: Lawrence Stroll salva a equipe

 

Em 2013, vendo-se de mãos atadas, Toto Wolff vendeu suas ações na Williams e se juntou à Mercedes, comprando 30% das ações da escuderia. Claire Williams assumiu a função de chefe de equipe e cargos administrativos. No ano seguinte teve início o domínio da equipe alemã na Fórmula 1 que permanece até os dias de hoje. Em 2014 e 2015, contando com os motores da Mercedes, a Williams voltou para o pódio das construtoras, ficando no terceiro lugar. No entanto, a administração financeira da equipe ainda sofria problemas. Correndo risco de fechar após a temporada de 2016, a qual terminou no quinto lugar, a escuderia precisava de mais investimentos. Entre os pilotos, Felipe Massa anunciou sua aposentadoria no final daquele ano, enquanto Valtteri Bottas permaneceu com o time.

Ainda em 2016, o empresário do setor vestuário Lawrence Stroll, pai do campeão da Fórmula 3 Europeia daquele ano, Lance Stroll, anunciou que investiria na Williams. Lance assumiu a vaga de Massa. Porém, com a aposentadoria de Nico Rosberg, Wolff chamou Bottas, seu apadrinhado, para substituí-lo na Mercedes. Para realizar a transferência, a filha de Frank Williams exigiu a volta de Paddy Lowe à equipe, que assumiu o departamento de engenharia. Segundo relatos de Massa, Claire o chamou por telefone no Natal para voltar ao time no lugar do finlandês.

 

Lance Stroll e seu pai Lawrence, o terceiro salvador da Williams. (Foto: F1Sport.it) [8]

 

Em 2017, a Williams teve um começo mediano. Massa conseguia pontuações razoáveis e Stroll enfrentava dificuldades, com falhas mecânicas na primeira corrida e acidentes causados respectivamente por Sergio Pérez e Carlos Sainz Jr nas seguintes. A mídia passou a atacar o canadense, culpando-o pelos problemas da equipe. Antes mesmo do início da temporada, durante os testes em Barcelona, Claire chegou a culpar as batidas de Stroll pelo cancelamento de um dos testes da equipe, o que incitou torcedores furiosos a atacar o jovem nas redes sociais de maneira covarde e injusta. Lowe sempre o criticava na imprensa. Ao mesmo tempo, a mesma mídia que se encantou com uma mulher na posição de chefe de equipe não teve a mesma reação com a estreia de um piloto indígena na categoria. No entanto, no Grande Prêmio do Azerbaijão, Stroll obteve o único pódio da equipe e o último da Williams até hoje, com um terceiro lugar. Com este resultado, a escuderia passou para o quinto lugar do campeonato, conseguindo uma bonificação maior do que o ano anterior.

 

Pódio de Lance Stroll no Grande Prêmio do Azerbaijão de 2017: o último da Williams. (Foto: Fórmula 1) [9]

 

Infelizmente, a contribuição de Stroll para o time não foi reconhecida devidamente. Em 2018, após a aposentadoria definitiva de Massa, a Williams contratou Sergey Sirotkin para substituí-lo. Mesmo com o ingresso de mais um patrocinador, o banco russo SMP, o departamento de engenharia não soube traduzir o investimento em melhorias no carro. Consequentemente, os dois pilotos tiveram muita dificuldade em conseguir pontuações. Isentando os engenheiros de culpa pelo fraco rendimento dos carros, a mídia voltou a atacar Stroll. Alguns jornalistas ignoraram a ética jornalística (ensinada nas faculdades) e chegaram a usar termos passíveis de processo, como “pilotos de talento questionável”, ignorando os feitos de Stroll no ano anterior e nas competições anteriores à sua estreia na Fórmula 1 e desconsiderando a falta de experiência de Sirotkin. A mídia simplesmente se “esqueceu” que quem faz os carros são os engenheiros, não os pilotos, que o orçamento da equipe provém dos patrocinadores (portanto investidores são sempre bem-vindos) e jornalistas utilizaram a falácia argumentum ad hominem para atacar os pilotos e inocentar Claire Williams e Paddy Lowe (ver 11º item da bibliografia).

 

Paddy Lowe, diretor técnico da Williams de 2017 a 2019. (Foto: Jornal Cruzeiro do Sul) [10]

 

6- Saída de Stroll e quarta crise: as máscaras começam a cair

 

Na segunda metade de 2018, Lawrence Stroll montou um consórcio de investidores e comprou a equipe Force India, cujo dono Vijay Mallya era procurado pelas autoridades indianas por suspeita de corrupção. Mesmo ciente das dificuldades enfrentadas por seu filho com um carro nada competitivo e de sua crucificação na mídia, Lawrence manteve Lance na Williams até o final do ano. O canadense se mudou para a nova equipe, renomeada como Racing Point, no ano seguinte (ver Entenda o caso Esteban Ocon).

Com Stroll fora do time, a Williams perdia seu maior bode expiatório. Os críticos, crentes que o empresário canadense e seu filho eram os culpados pela crise na equipe, acreditavam que as novas contratações levariam a escuderia de volta aos tempos áureos. No entanto, com a saída de Stroll, a Williams teve o pior desempenho de sua história. Robert Kubica foi o único a pontuar, marcando apenas um ponto no Grande Prêmio da Alemanha. George Russell, apadrinhado de Toto Wolff, terminou o ano sem pontos. No entanto, nenhum órgão de imprensa o chamou de “piloto pagante”, mesmo vindo de família rica e não tendo chances de justificar o investimento em seu trabalho, gerando suspeitas de racismo por parte da mídia (ver O Caso Lance Stroll: Um Indígena na Fórmula 1).

 

George Russell: branco e europeu, não é criticado pela mídia mesmo não conseguindo pontuar. (Foto: AutoSport) [11]

 

Amargando na lanterna do campeonato com a menor bonificação de sua história, a Williams se encontrou novamente numa grave crise. Logo no início de 2019, vendo que a mídia agora não tinha mais como culpar Stroll e que Russell e Kubica não conseguiam sair dos últimos lugares, Lowe pediu afastamento de suas funções alegando motivos pessoais. O departamento de engenharia continuou falhando em suas funções, sendo o caso mais notável o atraso em meses do volante adaptado de Kubica. Finalmente a pressão caiu sobre Claire. Kubica foi demitido no final do ano e Nicholas Latifi, piloto canadense de ascendência iraniana, foi escolhido como seu substituto. Latifi nem havia estreado e alguns torcedores o acusaram de ser pagante e fizeram ofensas xenofóbicas ao Canadá. Não houve sequer pronunciamento da Williams a respeito disso.

 

Nicholas Latifi: nem estreou e os torcedores raivosos já o culpam pela quarta crise da Williams. (Foto: tomadadetempo.com) [12]

 

Em 2020, em meio à paralisação das atividades das escuderias devido à pandemia de Covid-19, Claire admitiu a possibilidade de venda total da Williams. Toto Wolff adquiriu 5% das ações do time em junho.

 

7- Afinal, de quem é a culpa?

 

Diferente do que alguns jornalistas tentam incutir na cabeça dos torcedores, a culpa pela crise da Williams NÃO é de Lawrence Stroll, muito menos de Lance Stroll, e nem de nenhum outro investidor ou piloto a quem a mídia tenta nomear desonestamente como “pagante”. A culpa é de ninguém a não ser a própria Claire Williams. Por ser filha do fundador da escuderia e gestora após o acidente do mesmo, Claire deveria administrar melhor a parte financeira para assegurar o controle do time em suas mãos. No entanto, os gastos excessivos que não foram traduzidos em resultados nas pistas levaram a escuderia a depender de investimentos externos. Ora, se o problema da Williams era dinheiro, como que a culpa pode ser de quem colocou dinheiro em seu caixa? Toto Wolff e Lawrence Stroll nada fizeram além de AJUDAR o time inglês no momento em que este mais precisava de auxílio. Pilotos e investidores não fazem carros, engenheiros fazem, e o departamento de engenharia comandado por Paddy Lowe teve dinheiro suficiente para desenvolver um bom projeto, mas falhou consideravelmente.

O fato de Lance ser filho de Lawrence não quer dizer absolutamente nada no assunto da crise financeira da Williams. A participação do piloto indígena garantiu à escuderia o quinto lugar do campeonato de construtoras em 2017 graças a seu terceiro lugar no Grande Prêmio do Azerbaijão, justificando o investimento de seu pai na equipe. É óbvio que o desempenho do carro é responsabilidade do engenheiro e o controle financeiro compete aos donos da equipe, mas muitos não enxergam isso e, por ignorância ou falta de caráter, jogam a culpa em Stroll. A insistência da mídia em querer culpá-lo por todos os problemas que acontecem na Fórmula 1 atual, desde questões internas das escuderias até as da categoria como um todo, reflete dois fenômenos que acompanham a história da humanidade e foram responsáveis pelas maiores tragédias.

 

Essa frase de Einstein diz muito sobre o modo como a mídia trata Lance Stroll. (Foto: Pensador) [13]

 

Um deles é o antissemitismo, pois os grupos poderosos sempre tentaram culpar os judeus pelas mazelas do mundo e o fazem até hoje. Como a sociedade atual é mais consciente do problema da discriminação, a mídia apenas acusa Stroll e omite sua origem étnica (o motivo da perseguição) para não correr o risco de ser retaliada pela opinião pública. Alguns torcedores aceitam o discurso por compactuarem com essas ideias, outros são enganados facilmente, refletindo o que foi previsto por Theodor Adorno no século XX: há pessoas que aceitam passivamente tudo o que a mídia diz, sem questionar nada. No século XXI, Ben Shapiro comprovou a existência dessa face da mídia, notando que a mesma ignora os fatos e apresenta a narrativa como bem entender para cumprir sua agenda.

O outro fenômeno é o racismo estrutural. Mesmo com boas condições financeiras, Lance Stroll ainda pertence a grupos minoritários (pois é judeu e indígena), e a mídia tenderá a favorecer os grupos historicamente privilegiados (europeus e brancos). Com isso, comprovando a análise de Shapiro, ela ignora a incompetência administrativa de Claire Williams para jogar a culpa em Stroll, mesmo sem argumentos ou provas. Seu discurso acaba prevalecendo porque muitos torcedores não querem pensar, pois é mais cômodo aceitar o que é dito sem averiguar os fatos. Para alguns, pode parecer absurdo que discussões raciais sejam feitas no contexto da Fórmula 1, principalmente se tratando da falência de uma escuderia. No entanto, é humanamente impossível ignorar a perseguição doentia e injusta que a mídia e alguns torcedores fazem com Lance Stroll e os motivos devem sim ser desmascarados.

 

8- Conclusão

 

O mau gerenciamento financeiro da Williams colocou a equipe em quatro crises ao longo de sua história. Mesmo com bons investimentos e patrocinadores, o departamento de engenharia falhou sucessivamente em atualizar o carro para que os pilotos pudessem lutar por boas posições e colocar a equipe de volta ao topo do campeonato. A mídia preferiu culpar quem estava ajudando em vez dos responsáveis pela ineficiência do carro. O clima interno hostil afasta potenciais investidores, sob o temor de enfrentar entraves nas decisões (e se pertencer a uma minoria étnica, corre o risco de ser crucificado pela imprensa e torcedores e culpado por questões fora de sua responsabilidade). Logo, para a Williams só resta a venda da escuderia ou aprender com o passado e realizar uma mudança radical na sua postura.

 

Problema da Williams: sempre morde a mão que a alimenta. [14]

 

Atualização: No dia 21 de agosto de 2020 foi anunciada a venda total da Williams para o grupo americano Dorilton Capital.

 

9- Bibliografia

 

 

10- Fotos

Obs.: Nenhuma das fotos inseridas neste artigo, exceto a montagem, pertence a mim. Este site possui fins informativos, não comerciais. Abaixo estão indicados os links de onde tirei as fotos. Todos os direitos reservados.

 

O Caso Lance Stroll: Um Indígena na Fórmula 1

 

Atualizado em 1º de setembro de 2020

 

Resumo: “Não é racismo não torcer por Lance Stroll, mas negar seu talento e diminuí-lo em relação a pilotos brancos com menos feitos é.

 

O piloto canadense Lance Stroll volta e meia é assunto dos jornais esportivos e comentários dos fãs da Fórmula 1. Infelizmente, grande parte dos comentários é ofensiva, descarregando uma carga de ódio anormal em cima de um rapaz que nunca fez mal para ninguém (muito menos para seus detratores, que sequer o conhecem pessoalmente). Várias hipóteses são levantadas sobre a origem desse ódio: inveja pela fortuna da família Stroll, fanatismo por pilotos rivais, ignorância acerca de quem Lance é, entre outras. Mas apenas uma está mais próxima da verdade: racismo contra os povos indígenas.

“Ah, mas a mãe dele é belga”, dizem alguns dos haters. “Ah, mas a pele dele é mais clara”, dizem outros. Tais frases relatam o quanto que a sociedade atual desconhece acerca dos povos indígenas da América. Neste artigo, vamos provar que esta raiva gigantesca que muitos internautas (e até membros da imprensa) têm de Lance Stroll nada mais é do que o desejo de que o esporte seja composto unicamente por pilotos brancos.

 

1- Um piloto indígena na Fórmula 1

 

Lance Stroll nasceu em Montreal no dia 29 de outubro de 1998, segundo filho do empresário Lawrence Stroll e da estilista Claire-Anne Callens. Lance é descendente de judeus russos e indígenas inuítes (povo nativo do Canadá, incluindo o Quebec, terra natal dos Strolls) por parte de pai, e de belgas e ingleses por parte de mãe. Lawrence Stroll é filho de um imigrante judeu russo e de uma canadense, possui a pele avermelhada, cabelos lisos e grossos, e olhos levemente puxados. Claire-Anne Callens tem pele branca e olhos azuis. O resultado da miscigenação é notado nos filhos do casal: Chloe, a filha mais velha, tem os olhos da mãe, mas o formato de rosto do pai. Lance, o filho mais novo, tem o formato de rosto da mãe, mas os olhos castanhos levemente puxados e os cabelos escuros, lisos e grossos do pai. A pele de Lance é mais clara que a de Lawrence e mais avermelhada que a de Claire.

 

Os Strolls. Da direita para a esquerda: Claire-Anne (mãe), Lance (filho), Lawrence (pai) e Chloe (filha). (Foto: Thill Arthur/ATP) [1]

 

O fenômeno da miscigenação é muito comum nos países americanos devido ao histórico de colonização, escravidão e imigração no continente. No Canadá, país natal de Lance, não foi diferente. Os povos nativos tiveram contato com os europeus (de pele branca) e os africanos (de pele negra). Os filhos de casais de cores de pele diferente são chamados mestiços. No Brasil, por exemplo, os mestiços ganham nomes diferentes de acordo com suas origens. Os filhos de brancos com negros são chamados de “mulatos”, os filhos de índios com negros são chamados de “cafuzos”, e os filhos de brancos com índios (como é o caso de Stroll), são chamados de “caboclos” ou “mamelucos”.

Na genética existe grande probabilidade de pessoas mestiças com ancestrais brancos terem filhos brancos quando se casam com brancos. Países como os Estados Unidos chegaram a proibir o casamento entre pessoas de cores diferentes no século XIX, enquanto que o governo brasileiro incentivava o casamento com brancos para “branquear” as futuras gerações. No entanto, o fato do mestiço ter a pele mais clara que seus ancestrais não anula sua origem. Logo, um “caboclo” não deixa de ter origens indígenas por sua pele ser mais clara que a dos “índios”. Ele possui tanto origem indígena quanto europeia, e este é o caso de Lance Stroll.

 

Características físicas de Lance Stroll que comprovam sua origem indígena. [2]

 

2- Os indígenas de acordo com os europeus

 

A Fórmula 1 foi criada na década de 1950. Não haviam se passado nem uma década da queda dos regimes nazifascistas na Europa, que se caracterizavam pela intensa repressão do Estado e perseguição de grupos étnicos minoritários (principalmente os judeus) sob pretextos raciais. Desde o século XIX, com a formulação do “darwinismo social”, as escolas e intelectuais europeus ensinavam à população de que as raças se organizavam em uma hierarquia, na qual a raça branca europeia era considerada superior às demais e os mestiços inferiores a todas as “raças puras”. Antropólogos como inglês Edward Tylor aplicaram essa teoria para a defesa do “evolucionismo social”, tese que defende uma hierarquia entre as culturas. Mesmo com esforços de outros antropólogos, como o alemão judeu Franz Boas, em mostrar que não se pode afirmar em superioridade de culturas ou raças, a sociedade europeia abraçou com firmeza a ideia de que estava em vantagem em relação aos demais povos do planeta.

Porém, esse fenômeno tem origens mais antigas. Desde a colonização da América por nações da Europa, diversos grupos detentores do poder lançavam propagandas para obter apoio ao processo colonizador. No Brasil, por exemplo, após a morte do bispo Pedro Fernandes Sardinha (que teria sido devorado por indígenas antropófagos) no século XVI, a Igreja Católica promoveu campanhas que tratavam os indígenas como seres animalescos e selvagens para justificar as campanhas catequizadoras e o controle português em território brasileiro. As consequências foram catastróficas e a tribo acusada de matar o bispo, os Caetés, foi exterminada no processo.

 

Imagem da Exposição Antropológica Brasileira de 1882, ilustrando um indígena brasileiro e um escravo africano sendo exibidos na Europa. Note como os indígenas e os negros são retratados de maneira animalesca comparado aos brancos. (Foto: Museu Nacional do Rio de Janeiro) [3]

 

Na década de 50 a população europeia ainda não entendia como eram os povos nativos da América. Décadas antes, em 1911, o escocês James Matthew Barrie lançou sua obra mais famosa: “Peter Pan”. Na história, uma tribo indígena é retratada como pessoas submissas ao protagonista e a filha do chefe, a princesa Tigrinha, se dispõe a fazer tudo por Peter, mesmo ele não tendo por ela o mesmo sentimento que tem por Wendy Darling, menina inglesa que ele leva para a Terra do Nunca. Em 1953, Walt Disney adaptou a obra em um filme de animação no qual os indígenas assumem um papel maior na música “Por Que Ele Diz ‘Au’?” (“What Makes the Red Man Red?” no original em inglês). Na cena, a tribo é composta de indivíduos parados no tempo, isolados do resto do mundo e que usam as mesmas vestes de seus antepassados. O estereótipo em torno dos indígenas gerou tanta polêmica para a Disney que os estúdios optaram por não incluir os personagens na sequela do filme: “De Volta à Terra do Nunca”, de 2002 (título original “Return to Neverland”).

 

Tribo indígena do filme “Peter Pan” (1953). (Foto: Disney) [4]

 

Como os indígenas viviam apenas no continente americano, não havia nenhum interesse na Europa em combater o preconceito contra eles, muito menos em fazer uma autocrítica sobre a interação entre brancos e indígenas ao longo dos séculos. Mesmo nos países americanos, os nativos ainda eram marginalizados e excluídos da sociedade. Somente com a organização e luta desses povos, principalmente no século XX, é que a questão foi levada mais a sério. No dia 19 de abril de 1940 foi realizado o Congresso Indigenista Interamericano, visando promover o combate ao racismo e pressionar os países americanos a adotar políticas de proteção e garantia dos direitos indígenas. É por isso que na Argentina, na Costa Rica e no Brasil, no dia 19 de abril é comemorado o Dia do Índio.

A Fórmula 1 visava incentivar o interesse à indústria automobilística. À época, os consumidores desse setor eram homens brancos. Mulheres eram proibidas de dirigir em muitos países do mundo, e negros e indígenas viviam em segregação, impossibilitando-os de ter acesso a veículos. Logo, o esporte se concentrava em agradar ao público masculino, branco e europeu, seu mercado consumidor. É devido a isso que por anos a Fórmula 1 foi dominada por europeus e seus descendentes (Juan Manuel Fangio, piloto argentino que foi o segundo campeão da categoria, era descendente de italianos).

 

3- Revson e Hamilton: quebrando a hegemonia

 

Em 1964, o norte-americano Peter Revson estreou como o primeiro judeu na categoria, quebrando anos de domínio branco europeu na Fórmula 1. Vale lembrar que o povo judeu sofre perseguições desde a Antiguidade e foi o grupo majoritário entre as vítimas do Holocausto (antes havia sofrido invasões de suas terras por assírios, persas, gregos e romanos, inquisições por parte da Igreja Católica, pogroms no Império Russo e muitas outras políticas de segregação e extermínio). Também importante ressaltar que mesmo um quarto da população judaica tendo pele branca (caso de Revson), eles não são considerados brancos pelas teorias raciais (por terem origem no Oriente Médio) e são perseguidos pelos grupos de supremacia branca. Revson correu por 10 anos com as equipes Revson Racing, Reg Parnell, Tyrell, McLaren e Shadow Racing. Teve duas vitórias e oito pódios, pontuou 14 vezes e acumulou 61 pontos em toda a carreira. Faleceu em um acidente nos treinos para o Grande Prêmio da África do Sul de 1974.

Quarenta e três anos depois, em 2007, estreou o primeiro piloto negro da Fórmula 1, o inglês Lewis Hamilton. Filho de mãe branca e pai negro nascido de imigrantes caribenhos, Hamilton juntou-se à McLaren para correr ao lado do espanhol Fernando Alonso. Logo nos treinos preparatórios, ele sofreu ofensas raciais pelos torcedores de Alonso, que o chamavam de “macaco”. Alguns dizem que o motivo das ofensas não era racial, e sim esportivo, pois os torcedores de Alonso amavam o piloto espanhol. Porém, se assim fosse, não seria mais lógico chamar Hamilton de “perdedor” ou dizer que Alonso iria “acabar com ele”? Chamá-lo de “macaco”, ofensa historicamente associada aos negros, prova que o ódio dos torcedores espanhóis contra Hamilton era sim, racismo.

Hamilton começou o ano com um pódio, teve sua primeira vitória, e se tornou vice-campeão de 2007. No ano seguinte, foi campeão ainda com a McLaren. Porém, mesmo com seus resultados brilhantes, o inglês ainda não estava livre da perseguição racial. No Grande Prêmio de Mônaco de 2011, os comissários puniram Hamilton por um choque com Felipe Massa, piloto brasileiro de ascendência italiana. Ele questionou a punição e acusou os comissários de tomar uma decisão com base na cor de pele dos pilotos, pois Massa era branco e Hamilton negro. Em vez de apurarem o caso, os responsáveis pela Fórmula 1 moveram uma censura ao piloto inglês, proibindo-o de acusar novamente os comissários de racismo. A melhor decisão nesse caso seria a de mostrar os vídeos da colisão para ambos os pilotos e esclarecer os motivos da punição. Ao silenciarem Hamilton, os administradores do esporte deixaram margem para que a hipótese de racismo fosse levada em conta.

 

Peter Revson (à esquerda) e Lewis Hamilton (à direita): respectivamente o primeiro piloto judeu e o primeiro piloto negro na Fórmula 1. [5]

 

Outro caso de racismo sofrido pelo britânico ocorreu no Grande Prêmio da Itália de 2019, cuja arbitragem é questionada até hoje. Correndo pela Mercedes, Hamilton tinha chances de ultrapassar Charles Leclerc, piloto monegasco que representava a Ferrari. Para bloquear o adversário, Leclerc o espremeu contra o muro e uma investigação foi iniciada. No entanto, os comissários decidiram apenas advertir Leclerc com uma bandeira preta e branca. Após a vitória do monegasco, Hamilton subiu ao segundo lugar do pódio e os torcedores italianos o vaiaram fortemente. Alguns inclusive fizeram gestos e sons imitando macacos. Hamilton postou uma mensagem em seu Instagram recomendando aos italianos não cometer esse desrespeito, pois mancharia a imagem de uma torcida lembrada por sua alegria e entusiasmo. Nenhuma autoridade da Fórmula 1 sequer chegou a comentar o caso.

Séculos de ensinamentos racistas de “superioridade branca” deixaram marcas profundas na sociedade europeia de modo que o fenômeno do racismo passe despercebido ou seja encarado como algo banal até os dias de hoje. É nítido que os movimentos contra o racismo são mais fortes na América do que na Europa, mas mesmo no continente americano existem aqueles que se negam a enxergar a discriminação racial como um problema. No Brasil, por exemplo, enquanto alguns imigrantes europeus se misturaram com indígenas e negros, outros preferiram se unir a outros europeus e criaram seus filhos com as mesmas ideias que eram repercutidas na Europa. Tal fenômeno levou alguns brasileiros a acreditar que o racismo não era algo sério e a aceitar a discriminação contra negros e índios, incluindo atletas dessas etnias. No Grande Prêmio do Brasil de 2008, após o resultado dar o título de campeão a Hamilton mesmo com a vitória de Massa, torcedores brasileiros vaiaram o inglês e o chamaram de “macaco”, provando que a “utopia racial brasileira” não passa de uma lenda.

 

4- Indígena e judeu: o bode expiatório perfeito

 

Lance Stroll pertence a dois povos historicamente perseguidos e massacrados: os ameríndios e os judeus. Esses dois grupos nunca foram bem-vistos pela sociedade europeia. Os indígenas eram “canibais”, “selvagens”, “animalescos”, “incivilizados” na visão eurocêntrica e, como tais, precisavam de conversão ou serem domados e escravizados. Os judeus eram “deicidas”, “hereges”, “controlavam os bancos, a mídia e a política” segundo as ideias vigentes e, como tais, deveriam ser convertidos ou queimados por “não aceitarem a verdade cristã e serem de uma raça inferior”. Mesmo com a queda do nazismo, essas ideias não foram apagadas da mentalidade europeia por completo. Ainda existem figuras no cenário mundial que negam o Holocausto, acusam os judeus de conspiração e defendem que os indígenas devem abrir mão de suas culturas originais.

 

Lance Stroll jogando futebol americano na infância. Repare nas características inuítes no menino. (Foto: Instagram) [6]

 

Muitas pessoas, tanto na Europa quanto na América, ainda veem os indígenas como parados no tempo, habitantes de florestas, que vivem da caça e pesca. Logo, causa estranheza para muitos ver que os indígenas podem ser empresários bem-sucedidos. Como a Fórmula 3 não recebe tanta atenção quanto a Fórmula 1, não eram todos os fãs do esporte que sabiam das conquistas de Lance Stroll. Tudo o que sabiam dele era que o piloto vinha do Canadá e seu pai era bilionário, ignorando que todos os pilotos recebem um investimento para manter suas carreiras. Até mesmo pilotos como Esteban Ocon possuem quem arque com os custos de suas estadias no esporte. Na pré-temporada de 2017, por não ter experiência com o carro de Fórmula 1, Stroll acabou batendo várias vezes. Enquanto uns aproveitavam a situação para fazer piadas, alguns precipitadamente acusaram o jovem de compra de vaga. Oras, mesmo que Stroll realmente tivesse pago para entrar na Fórmula 1, isso não seria motivo para tanto ódio. Afinal, ele havia sido contratado pela Williams para substituir um piloto que estava se aposentando, Felipe Massa. O brasileiro desistiu da aposentadoria após a ida de Valtteri Bottas para a Mercedes para substituir o aposentado Nico Rosberg. Ninguém comprou a vaga de ninguém. Bottas e Stroll estavam simplesmente ocupando as vagas de pilotos que se aposentaram. Por que então tanto ódio a Stroll, que até então não era rival de ninguém?

A resposta para essa pergunta é simples: os fãs queriam ver outro europeu na Williams. Incomoda para muitos ter que aturar um piloto negro na Fórmula 1, agora um piloto indígena estava chegando ao esporte, na vaga que segundo os torcedores deveria ser ocupada por um piloto branco de etnia europeia. Este é o motivo pelo qual a fortuna de Lawrence Stroll causa tanto ódio nos internautas: mesmo ele sendo casado com uma europeia, mesmo suas empresas gerando empregos e sustentando famílias, mesmo seu dinheiro tendo sido obtido de maneira totalmente legal, sem envolvimento em nenhum escândalo, ele ainda era um “selvagem canibal incivilizado inferior aos europeus”. Imaginem o quanto que estes internautas devem ter se indignado ao ver pela primeira vez um piloto do continente americano ser campeão da Fórmula 3 EUROPEIA.

 

Lance Stroll foi o primeiro indígena a vencer a Fórmula 3 Europeia. Os racistas queriam ver um europeu como campeão. (Foto: Prema Powerteam) [7]

 

Motivados pelo ódio racial a Stroll, os racistas lançaram críticas ácidas à presença do canadense na Fórmula 1 como se ele fosse o culpado de todas as mazelas do mundo. Lance sentia na pele o que seu povo sofreu por séculos. Enquanto os supostos “justiceiros sociais” da internet (que não dão nem uma esmola a um mendigo necessitado) odeiam os Strolls por sua fortuna, Lance prova que não corresponde ao estereótipo de “rico egoísta” e se engaja em ações de caridade, como uma visita ao Montreal Children’s Hospital, uma campanha pela perfuração de poços de água na Gâmbia e uma generosa doação ao Corpo de Bombeiros de Los Angeles para combater os incêndios florestais na Califórnia. Os haters ignoram de propósito o fato de haver pilotos igualmente ricos cujos resultados não se aproximam dos de Lance. Por quê? Porque um branco rico não gera a mesma estranheza e desconforto do que um indígena rico. Eles veem um indígena judeu como o culpado de todos os infortúnios do mundo, como se um simples piloto canadense fosse o responsável pela fome e a miséria mundiais. Ao mesmo tempo, inocentam os brancos igualmente riquíssimos disso.

Afinal, qual foi o último piloto estreante que conseguiu um pódio em um carro de uma equipe mais fraca? Qual foi o último estreante que largou da primeira fila em um carro longe de ser competitivo? Qual foi o último piloto a quebrar dois recordes em seu ano de estreia? Todos esses feitos são apagados propositalmente da memória dos torcedores e jornalistas para inocular nos fãs a ideia de que Lance só está no esporte porque seu pai é bilionário. Por quê? Porque os racistas da internet e da mídia não suportam ver que um piloto indígena conseguiu feitos que muitos brancos não foram capazes de obter, e que oito pilotos brancos, incluindo Fernando Alonso (o mesmo ídolo dos racistas que chamaram Hamilton de “macaco”), ficaram atrás de um indígena em seu ano de estreia. Para isso, omitem não só seus feitos, como também omitem a etnia de Lance das discussões. Usam a desculpa de que a mãe de Stroll é branca para dizer que ele “não é mais índio”. Ninguém deixa de ser índio. É como deixar de ser velho. Etnia, assim como idade, é uma característica inerente de cada pessoa.

 

5- Pilotos pagantes brancos não são pagantes, só os índios

 

O fato é que o século XXI não é igual ao XX. Mesmo com a persistência do racismo, os movimentos de combate são mais fortes hoje em dia do que no século passado. A sociedade ocidental está mais consciente da importância do respeito e de que nenhuma etnia ou cultura é superior ou inferior a outra. Logo, até mesmo os racistas mais convictos procuram mascarar seu racismo para evitar serem condenados pela opinião pública.

A desculpa que os racistas encontraram para criticar a presença de um indígena na Fórmula 1 sem que se perceba os motivos raciais foi ressaltar a fortuna de seu pai. E como dizia o ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels, “uma mentira contada várias vezes torna-se uma verdade”. Com isso, há jornalistas e internautas tão entorpecidos com o preconceito e a ideia de que Stroll não merece a vaga que se recusam até a ler a história do piloto antes de julgá-lo, convencidos de que os indígenas devem ser ignorados, tratados com desprezo, do mesmo modo que foi séculos atrás, quando os colonizadores europeus massacraram tribos, escravizaram nativos e os obrigaram a abrir mão de suas culturas originais.

Mas os racistas acabam deixando escapar seu plano ao cometerem um deslize fatal: desconhecerem a etnia que eles julgam inferior. Muitos internautas em sua defesa afirmam não saber que Lance Stroll é indígena, e outros até negam com firmeza a etnia dele. A mesma desculpa era dada quando os mesmos racistas afirmavam não saber que Stroll é judeu. Os motivos: Stroll não usa kipá, o “chapeuzinho” judaico (e mesmo se usasse, ele ficaria escondido debaixo do capacete), não usa peyot (os cachinhos de cabelo nas têmporas) e não tem “nariz grande”. O primeiro passo para se identificar um racista é notar que ele generaliza todos os membros de um grupo como se todos fossem iguais. No caso, por Lance não ser um judeu ortodoxo hassídico, “não teria como saber que ele é judeu”. A internet facilita muito o trabalho de pesquisa, mas os racistas se julgam tão superiores que não veem a necessidade de pesquisar sobre aqueles que eles consideram inferiores.

 

O povo judeu é composto de diversas etnias. É errado pensar que todos os judeus são iguais. Na imagem acima é possível ver quatro etnias judaicas: os asquenazim, os sefaradim, os judeus etíopes (também chamados de Beta Israel) e os mizrahim. [8]

 

Mais absurda ainda é a desculpa de não saber que Stroll é indígena. Os motivos: ele não anda de cocar na cabeça, não caça e pesca com lança, não mora na floresta ou em reserva indígena, e sua pele é mais clara do que a pele “de índio”. Isso revela muito da ignorância da sociedade atual sobre os povos indígenas. Para começar, não existe apenas uma etnia indígena. Agrupar todos as tribos e nações nativas da América como um povo só foi um instrumento dos colonizadores para convencer os monarcas europeus de que os indígenas seriam facilmente derrotados e domados. Existem indígenas de diversas tonalidades de pele. No Canadá, os Métis, por exemplo, são mais claros que os Inuítes, e isso não os torna “menos índios” que os outros. Entre as tribos americanas, os Quileutes são diferentes dos Navajos, que são diferentes dos Cherokees, que são diferentes dos Ottawa, que são diferentes dos Potawatomi, que são diferentes dos Powhatans, e por aí vai. No Brasil, os Tupiniquins se diferem dos Guaranis, que se diferem dos Yanomamis, que se diferem dos Jês, entre outros. É verdade que a maioria dos indígenas possuem cabelos escuros, lisos e grossos, pele avermelhada, olhos levemente puxados e poucos pelos no corpo, mas nem todos são assim. Ironicamente, Stroll apresenta muitas dessas características, mas por não viver isolado da sociedade contemporânea, seus detratores omitem que ele seja indígena.

 

Existem milhares de etnias indígenas no continente americano. Cada tribo possui particularidades, como cultura, religião, vestimenta, língua e costumes. Na foto acima é possível ver quatro etnias indígenas: os Inuítes (Canadá), os Navajos (EUA), os Seris (México) e os Yanomamis (Brasil). [9]

Como podem ver, o ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, possui o mesmo tipo de cabelo e de olhos de Lance Stroll. Morales é da etnia aimará e Stroll é mestiço da etnia inuíte com a etnia europeia. Ambos possuem origens indígenas. [10]

 

O problema do racismo com os indígenas é que ele passa despercebido pela população por não haver muita atenção midiática acerca disso como há para o preconceito contra outras etnias. A luta dos indígenas pelo respeito é silenciada pelo desprezo midiático, e há quem afirme que nunca ouviu falar em índio. Quando se ouve a palavra “racismo”, ela quase nunca é associada aos indígenas, e estes somente aparecem nos noticiários quando o governo ou algum fazendeiro ou garimpeiro invade as terras de uma reserva e entra em confronto com os membros da aldeia.

E a prova concreta de que a birra que os haters tem com Stroll não tem nada a ver com dinheiro e sim com cor de pele é a idolatria que os mesmos tem pelo piloto inglês Lando Norris. Lando é filho do magnata Adam Norris, um milionário dono da companhia Horatio Investments e detentor de uma fortuna pessoal de £205 milhões, sendo o 18⁰ homem mais rico do Reino Unido.

Ao contrário de Stroll, que estreou em uma equipe pouco competitiva, Norris estreou pela McLaren em um ano de atualizações no chassi que renderam à equipe um bom desempenho para competir pelos primeiros cinco lugares do ranking. Diferente de Stroll, que terminou seu ano de estreia a apenas três pontos de seu experiente companheiro (chegando até a ultrapassá-lo no ranking em alguns momentos do campeonato), Norris terminou o ano com 47 pontos a menos que o companheiro Carlos Sainz Jr., que possuia quatro anos de experiência. Sainz ainda conquistou o único pódio da equipe no ano, com um terceiro lugar no Grande Prêmio do Brasil de 2019.

Se formos comparar os resultados, não há dúvidas de que Lance Stroll é melhor que Lando Norris. Em seu ano de estreia, Lance teve um pódio, largou da primeira fila e quebrou dois recordes: mais jovem estreante a ter pódio e mais jovem piloto a largar da primeira fila. Seus feitos garantiram o quinto lugar de sua equipe no campeonato de construtoras. Lando em seu ano de estreia não conseguiu nenhum pódio e não quebrou nenhum recorde, tendo seu melhor resultado um sexto lugar no Bahrein e na Áustria, no mesmo ano em que Lance teve seu melhor resultado um quarto lugar na Alemanha. Para mascarar sua medianidade enquanto atleta, Norris lançou uma campanha de marketing para que os fãs e a própria Fórmula 1 o lembrassem como um piloto engraçado em vez de um piloto pagante que só está no esporte porque seu pai é um empresário milionário. Nessa campanha, são feitos vários memes, usam-se perfis falsos para divulgá-los e qualquer coisinha que Norris faça já é acompanhada de uma enxurrada de pessoas rindo e o considerando o melhor piloto do grid, mesmo ele não fazendo nada de impressionante. Somado a isso está o patrocínio da Petrobras à McLaren, garantindo que os narradores e comentaristas brasileiros elogiassem Norris como se ele fosse a própria reencarnação de Ayrton Senna.

Então, se Lando Norris também é milionário e tem resultados muito inferiores, por que é Lance Stroll que é chamado de “piloto pagante”? Realmente, até no ano de “glória” de Norris, o melhor resultado de Stroll foi melhor que o de Norris e o inglês ainda não tem os feitos do canadense. O diretor esportivo Nuno Pinto também aponta que o currículo de Lance é mais impressionante que o de Lando, e que ele foi o primeiro piloto a cumprir a regra da FIA contra pilotos pagantes (fazer ao menos 40 pontos na Superlicença). E mesmo assim os internautas e a mídia idolatram Norris e apedrejam Stroll. Isso prova que não é o dinheiro que importa, é a cor da pessoa que tem o dinheiro.

 

 

Lógica dos racistas: se você for indígena, você é pagante; se você for branco, pode ser o piloto mais medíocre possível que vamos te louvar. [11]

 

Outro caso de racismo foi quando a mídia tentou culpar Lance Stroll pela saída de Esteban Ocon da Fórmula 1 (ver “Entenda o Caso Esteban Ocon”) após o pai do canadense comprar a equipe, salvar 405 empregos e manter Ocon até o fim de seu contrato (pois é, mesmo com esse detalhe, os racistas chegam ao absurdo de acusar Lawrence de comprar equipe para Lance). Omitem que Ocon já estava de saída quando seu padrinho Toto Wolff o prometeu uma vaga na Mercedes, na Renault ou na McLaren, mas todas as outras equipes recusaram. Ou seja, a culpa é de Stroll ou de Wolff, que mentiu para o apadrinhado? E por que não culpam Daniel Ricciardo, Lando Norris, Carlos Sainz Jr. ou George Russell pela saída de Ocon? Porque todos estes são brancos.

E falando em George Russell, ele provou que muitas vezes a mídia só critica as minorias, enquanto exime os brancos de culpa. Em 2018, com o fraco desempenho da Williams, por culpa de seu departamento de engenharia comandado por Paddy Lowe, a mídia culpou Lance Stroll por não trazer pontos suficientes para o time. Stroll terminou aquele ano em antepenúltimo lugar, vencendo Romain Grosjean e o companheiro Sergey Sirotkin. Quando George Russell e Robert Kubica vieram para o time inglês substituir Stroll e Sirotkin, o desempenho do carro da Williams piorou e a equipe fez apenas um ponto, marcado por Kubica. Em nenhum momento criticou-se a contratação de Russell, mesmo ele não sendo capaz de fazer um mísero ponto para seu time. A mídia preferiu apostar em Russell como um piloto excelente, vítima de uma equipe incompetente, título este que dariam a Stroll se ele não fosse indígena.

 

6- Você já sabia que ele é índio, só não quer admitir

 

Ao ser anunciado como piloto da Williams para 2017, Lance Stroll ficou em evidência. Houve um interesse por parte da mídia e dos internautas de conhecê-lo melhor. Uma coisa prontamente notada foi a semelhança entre Lance e o ator americano Taylor Lautner, famoso por interpretar o lobisomem indígena Jacob Black na saga “Crepúsculo”. O curioso é que mesmo Lautner sendo filho de uma indígena, ainda havia pessoas que duvidavam de sua etnia por seu pai ser descendente puramente de europeus. Se Lautner não fosse indígena, não teria sido chamado para interpretar um personagem indígena, certo? E se Stroll não fosse indígena, não faria sentido ele ser comparado com um ator indígena. Por que não compararam Stroll a Will Smith ou a Leonardo DiCaprio? Porque ele não tem a mesma etnia desses dois, e sim de Taylor Lautner.

 

Foto que compara Lance Stroll a Taylor Lautner. (Foto: Blig Groo) [12]

 

Site humorístico F1 Fanático chamando Stroll de “cover do lobisomem do crepúsculo”. Para quem não sabe, Jacob Black, o lobisomem na saga Crepúsculo, é um indígena da tribo Quileute. (Foto: F1 Fanático) [13]

 

7- O que aprendemos com isso?

 

  • Que Lance Stroll não está ocupando a vaga de ninguém. Ele foi contratado para substituir um piloto que havia se aposentado.
  • Que Lance Stroll possui mais conquistas que muitos pilotos brancos europeus, e isso incomoda muita gente.
  • Que mesmo sendo filho de mãe belga e neto de imigrante russo, Lance Stroll possui ancestrais inuítes, povo indígena nativo do Canadá, e não deixa de ter origens indígenas por ser mestiço.
  • Que não existe apenas uma aparência indígena. Há milhares de tribos indígenas na América, cada uma com sua etnia e cultura.
  • Que não importa o quão bom seja o piloto, ele sempre será vítima de racismo se pertencer a uma minoria étnica (ex.: Lewis Hamilton).
  • Que nenhum piloto chega à Fórmula 1 sem um suporte financeiro (incluindo os brasileiros). A implicância com a fortuna dos Strolls, obtida de maneira honesta e justa, é pura indignação de pessoas que acham que os indígenas não podem ser bem-sucedidos.
  • Que todos os haters de Lance Stroll, ou são racistas que não suportam ver indígenas no esporte (ainda mais vencendo brancos), ou são idiotas que repetem a falácia racista porque são incapazes de pensar com a própria cabeça e engolem tudo o que a mídia e a internet diz.

Sabendo disso, da próxima vez que ver ou ouvir um internauta ou apresentador de televisão (narrador ou comentarista) chamando Lance Stroll de “piloto pagante” (“pay driver”) ou de “garoto rico” (“rich boy”), ou acusando-o de roubar a vaga de alguém, saiba que está diante de um caso de racismo. Denuncie, confronte, diga a verdade para essa pessoa. Não deixe o racismo prosperar. Se queremos uma sociedade onde todos são iguais, não ignore o preconceito com o outro. Desmascare o racista. Obrigue-o a silenciar-se. Os indígenas são seres humanos como todas as outras etnias e origens, e como tais, merecem o nosso respeito e apoio.

 

Adendo (11/04/2020): No dia 11 de março de 2020, a página do The Racing Track no Instagram foi alvo de um comentário racista de um perfil chamado official_alexalbon, que afirmou que “Judeus merecem ‘Aushwitz’ não assentos na Fórmula 1”. Esta é a prova cabal do que foi demonstrado nesse artigo: quem é contra a presença de Lance Stroll na Fórmula 1 é contra a presença de pilotos indígenas e judeus no esporte, usando a fortuna da família do canadense como desculpa para o ódio desproporcional a uma pessoa que eles sequer conhecem. Lembrando que torcer para pilotos brancos e europeus, ou até mesmo não ser fã de Lance Stroll não torna o torcedor um racista (em momento algum a matéria deu a entender isso), mas usar padrão duplo para julgar os pilotos, ignorando os feitos de Stroll e rebaixando-os em relação a pilotos brancos igualmente ricos cujos resultados no esporte foram inferiores é sim um ato de racismo. Fica abaixo a foto do comentário:

 

Para quem duvidava que o racismo contra Lance Stroll fosse real, eis a prova.

 

Errata: Originalmente o texto dizia que Lance Stroll havia quebrado três recordes em seu ano de estreia: mais jovem estreante a ter pódio, mais jovem piloto a largar da primeira fila e pódio mais jovem (menor média de idade entre os integrantes do pódio). No entanto, o pódio mais jovem da história foi o do Grande Prêmio do Brasil de 2019, e antes desta prova, o pódio do Grande Prêmio do Azerbaijão de 2017, do qual Stroll fez parte, era o décimo mais jovem. Ao sermos informados do erro, corrigimos o parágrafo.

 

8- Bibliografia

 

Fotos

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