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Fórmula 1: O Esporte dos Negócios

Praticamente todos os fãs de Fórmula 1 gostam do esporte por sua competição. Uma prova disso são os índices de audiência televisiva na década de 2010: no Brasil, pelo menos, o número de espectadores estava caindo ano após ano durante a “Era Turbo”, que marcou o domínio de Sebastian Vettel, enquanto que começou a aumentar em níveis recorde quando começou um certo equilíbrio entre Mercedes, Ferrari e Red Bull. No entanto, os fãs se emocionam tanto com as disputas entre os carros que se esquecem de um fator definitivo na Fórmula 1: o dinheiro.

Resolvi fazer este artigo por causa de um episódio desagradável que aconteceu com uma amiga minha. Em uma conversa em um grupo de Whatsapp, ela estava conversando com um professor e, para reforçar seu ponto de vista, incluiu um link de uma matéria do site Motorsport assinada por Adam Cooper, que relatava sobre os investimentos de Sebastian Vettel na Aston Martin. Eis que um sujeito aparece e simplesmente ri do comentário dela, achando um absurdo que alguém diga que um “tetracampeão” compre uma vaga em uma equipe, mesmo que os fatos mostrem exatamente isso. Minha amiga soube responder bem, argumentando que Vettel não estava exatamente agindo como um “tetracampeão” (basta ver seus acidentes e resultados, que em nada se assemelham a seus tempos de campeão). Mas o homem continuou debochando (e ainda questionou a qualidade jornalística de Cooper, um jornalista experiente e conceituado no meio), ignorando uma simples questão: Por que alguém investiria em uma equipe da qual não pudesse participar?

Essa história provou que o sujeito em questão não conhece bem a Fórmula 1, mas sei que muitos fãs também não percebem o caráter financeiro do esporte. Não é à toa que muitos jornalistas tentam vender manchetes sensacionalistas com base em criar polêmicas sobre o dinheiro em vez de informar os torcedores sobre o papel deste na Fórmula 1. Como nossa proposta é informar e conscientizar, aqui está a verdadeira face dos negócios da “categoria máxima do automobilismo mundial”.

 

1- Esporte caro, investidores mandam

 

Quem acessa o site da Fórmula 1 nota que há uma parte reservada aos “partners” (ou seja, aos “parceiros”), que nada mais são do que os patrocinadores. Como bem definiu Paulo Mourão em seu livro “The Economics of Motorsports: The Case of Formula One” (2017), os custos da realização de cada corrida giram em torno de milhões de euros, pois há uma grande demanda material e humana. Tudo custa dinheiro na Fórmula 1: as estruturas da pista e do paddock, a engenharia dos carros, a preparação física dos pilotos, o transporte, o salário dos funcionários, entre outros componentes da categoria. Isso sem falar nos inúmeros setores beneficiados nesse processo (hotelaria, combustíveis, turismo, etc.). Como devem saber, “dinheiro não nasce em árvore”, é preciso uma fonte de recursos para viabilizar tudo isso. Logo, são as empresas patrocinadoras que investem na categoria para tal propósito (fora outras receitas da Fórmula 1, como a venda de ingressos e artigos de consumo, impostos, acordos de transmissão, taxas de contribuição das escuderias e organizadores).

 

Bernie Ecclestone (antigo dono da Fórmula 1) e Chase Carey (atual CEO da Fórmula 1). [1]

 

Como bem explicado na matéria “Entenda o Caso Esteban Ocon” (2019), os altos custos da Fórmula 1 dificultam o ingresso de pilotos que não tenham um suporte financeiro significativo para arcar com as despesas da equipe. Infelizmente, a mídia esportiva falha em ensinar ao público que esta é uma característica intrínseca da categoria, embora isso possa ser explicado pela seguinte lógica: normalmente os veículos de imprensa são patrocinados e por isso evitam falar mal de investimentos de maneira geral, e o sensacionalismo acaba sendo um negócio rentável, pois prende mais atenção das pessoas e ajuda a disseminar as matérias. Em outras palavras: é mais fácil rotular pilotos e equipes do que mostrar que tudo na Fórmula 1 está relacionado ao dinheiro.

 

2- O caso de Sebastian Vettel

 

Não é raro ver pilotos expandindo sua área de atuação. Tivemos os casos de Jack Brabham, Jackie Stewart e Emerson Fittipaldi como donos de escuderias, Niki Lauda foi acionista e conselheiro da Mercedes, Alain Prost se tornou embaixador da Renault, entre outros. Mais recentemente, tivemos Lawrence Stroll, pai de Lance, como sócio majoritário da Racing Point, e Nico Rosberg como empresário de Robert Kubica (embora tenha se desligado da função meses depois). Mas o caso de Sebastian Vettel tem peculiaridades que são fundamentais para entender a situação.

 

Demitido da Ferrari, Vettel investiu na Aston Martin. O fato não gerou tanta polêmica (se fosse com outro piloto…) [2]

 

Para começar, com exceção de Jack Brabham, todos os pilotos citados anteriormente (Fittipaldi, Prost, Roberg e Stewart) entraram no mundo dos negócios quando já não estavam mais nas pistas. Sebastian Vettel é um membro do grid atual e se viu na beira de um precipício quando foi demitido da Ferrari, afinal, como explicado na matéria “A Demissão de Sebastian Vettel: Justiça ou Injustiça?”, a equipe estava perdendo dinheiro e credibilidade com os constantes acidentes do alemão. Lembrando que as escuderias recebem um pagamento por seus resultados, que são melhores quando os pilotos têm performance consistente. De nada adiantava ele ter vencido quatro títulos com a Red Bull no começo dos anos 2010 se nos tempos atuais com a Ferrari estava desperdiçando boas oportunidades de pontuação. Mas Vettel não se deu por vencido e estava disposto a tudo para continuar na Fórmula 1, para isso buscou uma oportunidade de investir em uma equipe: ele ganharia dinheiro como piloto e acionista.

Mas não poderia ser qualquer time, teria que ser um com grande potencial e chances reais de triunfo. Ninguém se indagou o porquê de Vettel não ter comprado ações da Williams como fez Toto Wolff? Ou da Haas? Basta ver a evolução da Racing Point em 2020 e todo o projeto em torno do crescimento da escuderia para entender porque o alemão se interessou tanto pela “Mercedes Rosa”. E diferente de Wolff, que estava pensando nos ganhos mercadológicos, Vettel deseja limpar sua imagem e trazer um novo capítulo glorioso à sua carreira atlética.

 

3- Conclusão

 

Mesmo que os fãs não percebam, o esporte é um negócio, e este não é o caso único da Fórmula 1 (os brasileiros vão lembrar bem da transferência do Neymar do Santos para o Barcelona, conhecida como “Neymargate”). Às vezes a imprensa não instrui corretamente os torcedores, pois quanto mais leiga acerca do tema for a pessoa, maiores as chances de a mesma acreditar em manchetes sensacionalistas e de alimentar um fanatismo através de polêmicas. Logo, muitos torcedores ainda não percebem que os negócios são uma parte constituinte muito mais significativa da Fórmula 1 do que a competição em si.

 

O caso de Neymar é mais uma prova da relação intrínseca entre o dinheiro e o esporte. [3]

 

Agora, se você pensa que Sebastian Vettel não precisa comprar vagas porque foi vitorioso no passado (mesmo sendo exatamente esta a situação), e que Nico Rosberg empresariou Robert Kubica por caridade, saiba que está analisando o caso de maneira rasa. E não adianta rir ou tentar desqualificar o outro baseado em sexo ou idade. Para fazer um debate razoável, é preciso que ambos os lados estejam devidamente informados.


Bibliografia

Sobre a audiência

Sobre a matéria em si

Nota: Algumas das fontes consultadas para este artigo estão presentes no TCC “A Fórmula 1 no Brasil: Uma análise sobre a transmissão televisiva no país” (2020), que ainda será publicado pela Faculdade Cásper Líbero (cedi fontes para a autora na elaboração do trabalho e ela me cedeu fontes para minha publicação). Estou esclarecendo esse ponto para que não haja acusações de plágio.

 

Fotos

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