O Caso Alexander Albon: Um Potencial Desperdiçado

Matéria dedicada à leitora Lucilene Mota, que pediu uma análise a respeito de Alexander Albon.

 

No dia 18 de dezembro de 2020, a equipe Red Bull Racing anunciou a contratação de Sergio Pérez para correr ao lado de Max Verstappen em 2021. Com isso, o piloto anglo-tailandês Alexander Albon foi rebaixado ao posto de piloto reserva. Algumas controvérsias acompanham as circunstâncias dessa situação na Red Bull, como a incapacidade do time de fazer um carro à altura de Verstappen, a saída de Pérez da Racing Point após Sebastian Vettel comprar ações da futura proprietária da escuderia, e a própria contratação de Albon em 2019 no meio da temporada para substituir Pierre Gasly (que gerou uma grande expectativa em cima do novo piloto).

Percebe-se que a Red Bull está impaciente para se tornar a nova desafiante da Mercedes, dada a queda de rendimento da Ferrari e a ascensão da Racing Point em 2020. Ciente da habilidade de Verstappen, que conquistou as primeiras vitórias do time desde 2014, o time austríaco buscava um companheiro de equipe que acompanhasse o ritmo do holandês após a saída de Daniel Ricciardo para a Renault com o fim da temporada de 2018. Albon acabou sendo vítima dessa pressa e tendo uma saída humilhante da atual vice-campeã de construtoras. Nessa matéria, vamos explicar como isso aconteceu e porque houve uma grande injustiça com o atleta.

 

1- Temporada de 2019: a oportunidade de brilhar

 

Como explicado anteriormente, a saída de Daniel Ricciardo levou a Red Bull a procurar outro talento para correr ao lado de Max Verstappen. A dupla havia obtido resultados excelentes de 2016 a 2018, o que permitiu que a escuderia fosse vice-campeã e depois terceira colocada (por dois anos consecutivos) no mundial de construtoras. Substituir um piloto que garantia vitórias e pódios ao time não seria uma tarefa fácil, mas a Red Bull tinha um jovem nome em mente: Pierre Gasly.

 

Pierre Gasly conquista o quarto lugar do Grande Prêmio do Bahrein de 2018. (Foto: Sky Sports) [1]

 

O piloto francês havia se destacado na Toro Rosso, tendo seu melhor resultado até então um quarto lugar no Grande Prêmio do Bahrein de 2018. Acreditava-se que se Gasly era capaz de chegar a uma posição tão alta em um carro considerado mediano, conseguiria no mínimo pódios em uma equipe de ponta. No entanto, seu desempenho no primeiro ano com a Red Bull ficou abaixo do esperado. Enquanto Verstappen era uma presença quase constante no pódio, Gasly ficava atrás dos pilotos da Ferrari (Sebastian Vettel e Charles Leclerc). Não sendo capaz de aproveitar a crise do time italiano (cuja tensão entre os pilotos era um agravante), o francês conseguia menos pontos para a Red Bull, que perdia a chance de conquistar o vice-campeonato de construtoras.

Descontente com o descompasso entre Gasly e Verstappen, o consultor Helmut Marko convenceu os dirigentes da Red Bull a substituir o companheiro de equipe do holandês. A partir do Grande Prêmio da Bélgica de 2019, Alexander Albon assumiria essa vaga. Já era tarde para a Red Bull recuperar o prejuízo, mas o novo piloto era visto como um investimento a longo prazo (se tivesse uma boa performance, continuaria no time no ano seguinte). Albon teve atuações elogiáveis, como no Grande Prêmio da Rússia (no qual largou dos boxes e terminou em quinto lugar) e no do Brasil (tendo uma chance de conseguir o primeiro pódio, mas foi atingido por Lewis Hamilton faltando poucas voltas para o fim). Albon terminou o campeonato em oitavo lugar, com 92 pontos. Considerando que o mesmo passou a primeira metade da temporada na Toro Rosso e só então foi para uma equipe de ponta, o resultado é impressionante. Por isso, foi eleito pelo Autosports Awards como o “Estreante do Ano” em 2019.

 

Alexander Albon sendo premiado como “Estreante do Ano” de 2019. (Foto: FIA) [2]

 

2- 2020: “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”

 

Essa frase do Tio Ben, de “Homem-Aranha”, resume a pressão que caiu sobre Alexander Albon em sua segunda temporada com a Red Bull. O piloto começou o ano bem, tendo mais uma chance de conseguir o primeiro pódio, no Grande Prêmio da Áustria, mas uma infeliz coincidência impediu a conquista: novamente, uma colisão com Lewis Hamilton. Nas corridas seguintes, Albon alcançava a zona de pontuação, mas em lugares bem inferiores aos de Max Verstappen. Logo, a situação era semelhante à de Pierre Gasly em 2019, mas Helmut Marko optou por não demitir o tailandês apressadamente.

Havia dois fatores que impediam uma ação imediata por parte da Red Bull. Em primeiro lugar, uma segunda demissão em dois anos consecutivos sem que o campeonato terminasse colocaria em xeque a reputação do time. A troca de Gasly por Albon já não parecia tão justificada em 2020 quanto era em 2019, e tirar o tailandês corria o risco de resultar em mais uma substituição não muito satisfatória. Logo, Marko seria taxado como “impetuoso”. Em segundo lugar, a AlphaTauri não tinha nomes apropriados para ocupar o lugar de Albon: trazer Gasly de volta seria “humilhante” para a Red Bull (que teria que admitir que “errou” com o francês), e Daniil Kvyat já tinha passagem pelo time austríaco, sendo demitido no começo da temporada de 2016 e substituído por Verstappen. A troca do russo pelo holandês foi a mais assertiva da Red Bull nos últimos anos a curto, médio e longo prazo, o que não se repetiu com as mudanças seguintes (isso porque Verstappen é um caso à parte).

 

Helmut Marko (esquerda) e Max Verstappen (direita). (Foto: XPB) [3]

 

O que se observou na primeira metade de 2020 é que Albon enfrentava dificuldades nos treinos de sexta e sábado, largando de lugares intermediários do grid, o que não é esperado para um piloto de equipe de ponta. Apenas no Grande Prêmio da Toscana, corrida marcada por acidentes que levaram quase a metade do grid a abandonar, o tailandês conseguiu seu merecido primeiro pódio após vencer um duelo com Daniel Ricciardo pelo terceiro lugar. O resultado se repetiu apenas no Grande Prêmio do Bahrein, no qual o motor do carro de Sergio Pérez incendiou a parte traseira do veículo e forçou o mexicano a abandonar. Apesar dos pódios, Albon não estava perto do que havia sido Ricciardo para a Red Bull, e a vitória de Gasly no Grande Prêmio da Itália somente agravou o constrangimento do time.

 

Vitória de Pierre Gasly no Grande Prêmio da Itália de 2020. (Foto: Matteo Bazzi/AP) [4]

 

A semelhança entre o desempenho de Albon em 2020 e de Gasly em 2019 foi apenas um dos ingredientes da mudança de pilotos da Red Bull para 2021. Outro motivo se encontra no contexto de outra equipe.

 

3- Mudanças na Racing Point: Sergio Pérez entra na jogada

 

Em 2020 a Racing Point iniciou um capítulo marcante de sua história. A temporada anterior serviu como um teste para os novos planejamentos da equipe, comprada na segunda metade de 2018 por um consórcio liderado por Lawrence Stroll após a falência da Force India. Decidida a entrar no grupo das equipes de ponta, a escuderia inglesa teve resultados impressionantes graças ao trabalho conjunto do departamento de engenharia e de sua dupla de pilotos, formada por Lance Stroll e Sergio Pérez.

Para 2021, o time buscou ainda mais investimentos para continuar seu caminho triunfante. Um dos acordos obtidos foi com a empresa francesa Aston Martin, que dará seu nome à equipe. Tudo parecia seguir exatamente como estava, porém com melhorias se aproximando, até que uma reviravolta aconteceu: Sebastian Vettel foi demitido da Ferrari por suas performances decepcionantes e meses depois foi anunciado como piloto da Racing Point para 2021. Sua contratação não teria sido tão polêmica se não fosse pela confusão de informações relatadas à imprensa: a Racing Point oscilava entre a negação e o interesse por Vettel, e as narrativas de Pérez e do chefe de equipe, Otmar Sznafnauer, sobre se o mexicano havia sido previamente avisado da situação conflitavam entre si. A verdade foi revelada mais tarde pelo jornalista Adam Cooper, que relatou que Vettel havia comprado ações da Aston Martin, e com isso garantiu um assento no time (para entender melhor este caso, leia o artigo de Ricardo Hernandes Meyer aqui).

 

Otmar Sznafnauer, chefe de equipe da Racing Point (esquerda), e Sebastian Vettel (direita). (Foto: XPB) [5]

 

Pérez é notado por ser um dos pilotos mais consistentes da Fórmula 1. Em seu currículo encontram-se pódios em corridas difíceis, como no Grande Prêmio do Azerbaijão de 2018. A jornalista Noemí de Miguel, que relatou em primeira mão que a Renault negociava a contratação de Fernando Alonso para 2021 (confirmada meses depois), afirmava que a Red Bull planejava trazer Pérez para correr ao lado de Max Verstappen. Um dos indícios dessa negociação foi quando Antonio Pérez, irmão do piloto, passou a seguir o perfil da Red Bull no Twitter. No entanto, tanto “Checo” quanto a equipe austríaca preferiram manter as conversas em segredo (talvez para não afetar os resultados de Albon) e somente anunciaram a decisão após o Grande Prêmio de Abu Dhabi.

 

Entre os perfis seguidos no Twitter por Antonio Pérez, irmão de Sergio, está o da Red Bull. (Foto: Twitter) [6]

 

Percebe-se que as ações da Racing Point e da Ferrari também tiveram impacto na Red Bull, principalmente no destino de Albon. Esperava-se que Vettel teria um ano sabático para refletir sobre seus erros e repensar sua carreira, tal como houve com Esteban Ocon. No entanto, o alemão teve uma estratégia de mestre: comprando ações da empresa dona, garante uma vaga. É claro que a imprensa de maneira geral não vai ressaltar esse fato, pois prefere gerar controvérsias em cima de Stroll, que não tem nada a ver com a história (o motivo fica implícito). A necessidade de vaga de Pérez e o desejo da Red Bull por substituir Albon sem que isso se parecesse com o caso de Pierre Gasly propiciaram a contratação do mexicano e, consequentemente, a substituição do tailandês.

 

4- A pressa de Helmut Marko: o sacrifício dos jovens talentos da Red Bull

 

O consultor da Red Bull já havia dito para a imprensa que “nenhum dos jovens do programa de treinamento da equipe chega perto de Max Verstappen”. Tal afirmação é prejudicial para os atletas, que sentem uma desvalorização de seu trabalho. É certo que o esporte é uma área que demanda pressão para resultar em conquistas, mas esse tipo de comparação não apenas atrapalha a autoconfiança dos jovens pilotos como também frustra os planos da própria equipe. Somado a isso, Marko parece pressionar demais os atletas e não fazer o mesmo com o departamento de engenharia, incapaz de produzir um carro à altura do potencial de Verstappen apesar de alegadamente trabalhar focado no piloto. Lembrando que os engenheiros são fundamentais no desempenho de uma escuderia na Fórmula 1, como se observou no caso da Williams.

Verstappen, como revelado anteriormente, é um talento excepcional. Ainda adolescente conseguiu vitórias, pódios e recordes em uma equipe que não tinha o melhor carro do grid. Isso não significa, porém, que outros pilotos não possam ser bons. Exigir de seus alunos um clone de Verstappen é uma atitude absurda de Marko, pois cada pessoa tem seu estilo de trabalho. Nem mesmo o pai de Max, Jos Verstappen, teve resultados tão brilhantes na carreira quanto o filho. Se em vez de exigir uma segunda versão do holandês a Red Bull trabalhasse para desenvolver o potencial de ambos os pilotos, o time teria uma performance melhor nos campeonatos. Mas parece que essa escuderia privilegia um atleta e pretere o outro, como observado na primeira década de 2010 com Sebastian Vettel e Mark Webber.

 

Marko chegou a acusar Albon de não ter confiança. Com um chefe desses fica difícil. (Foto: GPBlog) [7]

 

A vitória de Pierre Gasly em 2020 provou que cada piloto tem seu tempo de adaptação e que cobranças excessivas não moldam um atleta baseado em outro somente porque o conselho da equipe deseja. Lamentavelmente, embora seja inimiga da perfeição, a pressa se mostra como um dos valores de Marko e isso sacrifica as oportunidades da Red Bull. O exemplo da Racing Point, que preferiu “ir com calma” em 2019 para arrasar em 2020, demonstra que cautela deve ser o principal ingrediente de um bom planejamento, não ansiedade.

Outro ponto importante a ser notado é a contratação de Yuki Tsunoda para correr pela AlphaTauri em 2021. Como Daniil Kvyat não consegue satisfazer mais o grupo e Gasly faz um ótimo trabalho, é natural que o russo seja demitido para dar uma chance ao japonês. Embora isso signifique um impedimento para que Albon volte à AlphaTauri, Tsunoda não deve ser responsabilizado pelo infortúnio do tailandês, pois trata-se de um novo talento que terá uma chance de apresentar seu trabalho. Como demonstrado anteriormente, a compra de assento de Vettel na Aston Martin influencia muito mais a situação de Albon do que a contratação do piloto japonês.

 

5- Conclusões

 

O caso de Alexander Albon apenas se difere do de Pierre Gasly no tempo em que cada um foi demitido da Red Bull. Ambos foram vítimas da pressa e da ânsia de Helmut Marko em ter dois pilotos com o desempenho de Max Verstappen, o que descarrega toda a responsabilidade nos jovens atletas. Tanto Albon quanto Gasly provaram ter talento e merecem assentos na Fórmula 1, mas sofreram com o conflito de interesses da equipe austríaca, que deseja o triunfo optando pelos meios errados.

Caso Sebastian Vettel não tivesse comprado as ações da Aston Martin, em sua tentativa bem sucedida de se manter nas pistas apesar de sua impetuosidade, talvez a Red Bull tivesse que manter Albon por mais tempo. Isso porque provavelmente a Racing Point manteria seus pilotos, já que Lance Stroll e Sergio Pérez têm uma ótima dinâmica como companheiros e garantem ótimos resultados nas corridas. Como o mexicano é mais experiente, e com isso tem um currículo mais extenso, ele se tornou o candidato ideal para a Red Bull prosseguir em sua luta contra a Mercedes, além de satisfazer a vontade de demitir um piloto cujo “erro” foi não ser igual a Verstappen.

 

É assim que a Red Bull pensa: Verstappen está acima de qualquer piloto. [8]

 

Embora tenha dito que nunca sofreu racismo em sua vida pessoal ou profissional, alguns torcedores e jornalistas se lembram de um caso no mínimo suspeito. No Grande Prêmio da Itália de 2019, os comissários decidiram puni-lo por um incidente com Carlos Sainz Jr., mesmo tendo sido o espanhol a lançar o adversário para fora da pista. Esta foi uma das ações que levaram às suspeitas de racismo por parte dos comissários (as outras foram as decisões injustas com Stroll e Lewis Hamilton), que prejudicaram os três pilotos de cor do grid em benefício de atletas brancos. Talvez Albon não tenha percebido as “coincidências” nas decisões tomadas no Grande Prêmio da Itália, mas estas não podem ser ignoradas. Além disso, quando começaram as especulações a respeito de sua saída da Red Bull, muito se falou de um possível interesse dos donos da empresa em mantê-lo por ele ser tailandês. É certo que empresas patrocinadoras se interessam por atletas compatriotas em suas respectivas categorias esportivas, mas Albon não deve ser lembrado apenas por suas origens étnicas. Seu trabalho e esforço justificaram sua presença na Fórmula 1.

Alexander Albon é mais um piloto condenado pela irresponsabilidade de sua equipe mesmo sendo inocente. Um caso parecido foi o de Sergey Sirotkin, que saiu da Fórmula 1 com o estigma de “piloto pagante” embora não tivesse culpa pela crise enfrentada pela Williams (que foi provada nos anos seguintes ser de seus engenheiros e dirigentes). Os responsáveis diretos pela saída do piloto da Red Bull são Vettel (por ter causado a saída de Pérez da Racing Point ao comprar as ações da Aston Martin) e Marko (por exigir perfeição de seus pilotos em pouco tempo), mas o que podemos considerar a “culpada” pelo infortúnio de Albon é a política segregacionista da Red Bull, que prefere transformar um piloto em príncipe (mesmo não tendo os recursos para isso) e o outro em mendigo, quando poderia transformar ambos em heróis. Se não mudar suas estratégias, a equipe austríaca corre o risco de passar por uma crise semelhante à da Ferrari e outros “Albons” serão sacrificados no processo.

 

Resumo da ópera. [9]

 

6- Leia também:

 

 

7- Bibliografia

 

 

8- Fotos

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6 respostas
  1. Lucilene
    Lucilene says:

    Excelente reportagem, a RBR peca pela pressa e prejudica o desenvolvimento de seus jovens pilotos! Uma pena Albon ter perdido o assento, espero que ele dê a volta por cima e retorne, como Ocon, seu talento não pode ser desperdiçado!

    Responder
    • Rebeca Pinheiro
      Rebeca Pinheiro says:

      Concordo em gênero, número e grau, Lucilene. Creio que nem tudo está perdido para o Albon. Se ele fizer como o Ocon e mudar de equipe, talvez o novo time o valorize.
      Obrigada pelo comentário 🙂 fico feliz que tenha gostado da matéria.

      Responder

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