Lando Norris: O Queridinho da Fórmula 1

Todos os pilotos são iguais, mas alguns são mais iguais que outros.

Paráfrase de George Orwell, “A Revolução dos Bichos” (1945)

 

Ao contrário de Max Verstappen e Lance Stroll, Lando Norris entrou na Fórmula 1 sob uma chuva de elogios da imprensa esportiva. Jornalistas, narradores e comentaristas exaltavam o jovem piloto inglês da mesma maneira que faziam com Charles Leclerc em 2018 e 2019. A impressão que os torcedores tinham era de que uma grande estrela estava chegando às pistas.

No entanto, comparado a outros pilotos de sua geração, Norris não conseguiu muitos grandes feitos. Porém, isso não impediu a mídia de continuar tratando-o como um dos maiores atletas da Fórmula 1. Isso alimentou o fanatismo de muitos torcedores, que chegam a ser agressivos com quem duvida da suposta maestria do piloto. Nesta matéria, vamos analisar o perfil de Norris e as intenções da mídia por trás de sua idolatria.

 

1- As origens de Lando Norris

 

Nascido em Bristol no dia 13 de novembro de 1999, Lando Norris é o segundo filho do empresário Adam Norris e de sua esposa Cisca Wauman. O casal também é pai de Oliver, Flo e Cisca. De acordo com uma matéria do jornal Bristol Post, a fortuna pessoal de Adam Norris chegava a £205 milhões em 2019, tornando-o o um dos homens mais ricos do Reino Unido.

As condições financeiras de sua família permitiram que Norris tivesse certos privilégios em relação à maior parte da população mundial, como um tutor disponível em tempo integral para auxiliá-lo nas matérias de matemática e física. O piloto estudou na tradicional Millifield School, mas abandonou os estudos antes de se formar. Norris não é modesto ao afirmar que “se eu não fosse um bom piloto, essa não seria uma decisão sábia”.

 

Lando Norris e seu pai, Adam. (Foto: F1i.com) [1]

 

De 2014 a 2018, Norris participou de 16 edições de campeonatos de monoposto antes de estrear na Fórmula 1. Venceu cinco deles: a Fórmula MSA de 2015, a Eurocup Formula Renault 2.0, a Fórmula Renault 2.0 NEC e a Toyota Racing Series em 2016 e a Fórmula 3 Europeia de 2017.

Considerando o tratamento midiático dado a pilotos que estrearam antes na Fórmula 1 em situação semelhante, e tendo em vista sua origem burguesa, Norris seria um bom candidato à alcunha de “piloto pagante”. No entanto, veículos tradicionais de imprensa evitam associá-lo ao elitismo inerente à categoria.

 

2- A sensação teen da internet

 

É quase um consenso entre os sociólogos que as redes sociais influenciam muito na reputação de uma empresa ou figura pública. Comprada pela Liberty Media no final de 2016, a própria Fórmula 1 passou a investir pesadamente na divulgação online na esperança de atrair o público jovem. O resultado foi positivo, com um aumento considerável na audiência e na interação com a categoria, além de ganhos financeiros significativos.

Lando Norris soube aproveitar bem esse recurso. Através de postagens humoradas nas redes sociais, o piloto moldou sua reputação entre os internautas. Consequentemente, formou uma base de fãs jovens, que era um dos objetivos da Fórmula 1. No entanto, boa parte dos novos torcedores não conseguia distinguir o Norris da internet do Norris das pistas. Logo, encantados pelo conteúdo das redes sociais, eles passaram a considerar o piloto como um dos melhores do esporte, ainda que os fatos provem o contrário.

 

Diferente do que ocorre nas pistas, a postura de Norris nas redes sociais costuma ser bem humorada, o que atraiu muitos fãs. (Foto: Drive Tribe) [2]

 

Para analisar o desempenho do piloto inglês, consideramos sete pilotos do grid de 2021 da chamada “nova geração da Fórmula 1”: Max Verstappen, Lance Stroll, Charles Leclerc, Esteban Ocon, Pierre Gasly, Lando Norris e George Russell. Ficam de fora Yuki Tsunoda, Mick Schumacher e Nikita Mazepin por serem estreantes em 2021, não tendo tempo o suficiente para se chegar a um veredito concreto. O mesmo vale para Nicholas Latifi, estreante em 2020. Entre os sete citados previamente, Verstappen teve o melhor desempenho durante a carreira, seguido por Leclerc, Stroll e Gasly. Norris é o antepenúltimo da lista, à frente apenas de Ocon e Russell, como indica a tabela abaixo.

 

 

Para se classificar um piloto como “talentoso” ou “pagante”, é preciso estabelecer critérios de avaliação. De acordo com os impactos no histórico do piloto e na tabela do campeonato, os critérios adotados são vitórias, pódios, pole positions, recordes e pontos*. Através da análise conjunta dos dados, chegamos ao veredicto sobre a performance do atleta. Gasly, por exemplo, tem uma vitória até o momento e Stroll nenhuma, mas o canadense tem uma pole, três pódios e dois recordes, contra dois pódios e um recorde do francês. Portanto, Stroll fica à frente de Gasly, vencendo-o em três dos cinco critérios estabelecidos.

(*Os pontos afetam a tabela do campeonato, mas os recordes são mais marcantes para o histórico do piloto, portanto foram colocados à frente na ordem de relevância para a análise. Além disso, os pontos são totalmente dependentes da particularidade de cada corrida.)

No caso de Norris, que até agora possui três pódios, supera Ocon e Russell, pilotos com uma certa peculiaridade. Até o Grande Prêmio do Sakhir de 2020, penúltima corrida daquele ano, Ocon não havia tido pódio e Russell não havia pontuado. Percebe-se pelos dados oficiais que seria mais razoável considerar Verstappen, Leclerc, Stroll e Gasly “mais talentosos” que Norris. Mas a mídia esportiva tradicional tem outra abordagem.

 

Internauta expressa apoio a Norris no Twitter com frase generalista. (Foto: 9GAG) [3]

 

Infelizmente, os interesses financeiros de um veículo de comunicação acabam se sobressaindo ao comprometimento com os fatos. No ambiente esportivo, observa-se que os patrocinadores de atletas e equipes também financiam emissoras e sites, influenciando na maneira como seus assessorados são representados na mídia. A reputação do atleta, portanto, resulta do trabalho de sua assessoria de imprensa e da influência de seus patrocinadores nos veículos de comunicação. A postura do piloto também pode ter certo impacto na reputação (principalmente em escândalos). Mas, algumas vezes, em casos menos graves, ela fica na sombra dos outros dois fatores.

Isso explica, por exemplo, as situações de Stroll e Norris. Por mais que os fatos indiquem que ele tem talento e que não pode ser considerado “pagante”, Stroll ainda será crucificado na mídia devido à incompetência de seus assessores e à sua própria passividade diante das crises de imagem (ver “Racing Point: Uma Imagem Mal Gerida”). Ao mesmo tempo, Norris será retratado como um piloto de grande talento e generosidade, ainda que seus resultados e comportamento mostrem o contrário.

 

3- Lando Norris humilde: um personagem de histórias infantis

 

Durante a transmissão do Grande Prêmio de Mônaco de 2021, o narrador brasileiro Sérgio Maurício e os comentaristas Reginaldo Leme e Max Wilson dedicaram um tempo para elogiar Lando Norris. O adjetivo mais usado foi “humilde”. No entanto, nenhum dos três citou qualquer evento que comprovasse essa suposta “humildade” do piloto. Na vida real, o comportamento de Norris está longe do que pode ser considerado “humilde”.

O primeiro “surto” de Norris ocorreu no Grande Prêmio da Espanha de 2019, ao colidir com Lance Stroll. Embora tenha se desculpado com a equipe pela batida, admitindo sua responsabilidade, o inglês esbravejou contra o canadense, culpando-o pelo ocorrido mesmo que os comissários o tivessem inocentado. No Grande Prêmio da França, ordenou à McLaren que mandasse Carlos Sainz Jr. lhe ceder sua posição. Ao ser ultrapassado por Sergio Pérez no Grande Prêmio de Abu Dhabi, Norris chorou no rádio e desmereceu a atuação do mexicano.

 

Os comentários ácidos de Norris não poupam nem seus companheiros de equipe. O caso mais recente foi Ricciardo. (Foto: GPBlog) [4]

 

Em 2020, durante o Grande Prêmio da Bélgica, o piloto agrediu verbalmente seu engenheiro, que o havia alertado sobre exceder os limites da pista (que poderia gerar uma punição). No Grande Prêmio da Itália, irritado por Stroll ter conquistado o pódio, Norris agiu de maneira hipócrita. Fez críticas infundadas ao regulamento da FIA que permite a troca de pneus durante a bandeira vermelha, mas omitiu que os comissários o investigaram por ter sido excessivamente lento nos boxes, o que de fato contraria as regras. No Grande Prêmio do Eifel, o piloto foi grosseiro com sua equipe, novamente se utilizando de vocabulário chulo. Após uma colisão com Stroll no Grande Prêmio de Portugal, Norris ofendeu a capacidade de aprendizagem do adversário. Em entrevista na mesma semana, desmereceu o heptacampeonato de Lewis Hamilton, creditando-o totalmente ao carro da Mercedes. Após muitas críticas pela postura arrogante, Norris lançou um pedido de desculpas a Stroll e Hamilton, mas sequer mencionou seus nomes, referindo-se a ambos como “certas pessoas”.

No Grande Prêmio da Emília-Romanha de 2021, Norris exigiu que a McLaren ordenasse a Daniel Ricciardo a ceder-lhe a posição. Diferente do que houve na França em 2019, a equipe acatou a vontade do piloto inglês. Apesar da manobra, considerada antiesportiva por muitos especialistas, Norris foi eleito o “Piloto do Dia” pelo público. A performance mais impressionante daquela corrida, no entanto, foi a de Hamilton, que conquistou o segundo lugar após uma batida no muro quase o tirar da prova. Além disso, Norris disse abertamente que “não tem simpatia” por Ricciardo diante das dificuldades enfrentadas pelo companheiro, e que o considera “menos adaptável” que Sainz. O inglês também relata que almeja uma posição de “liderança” dentro da McLaren.

 

Matéria do site oficial da Fórmula 1 relata que houve ordens de equipe na troca de posições entre Norris e Ricciardo. (Foto: Site oficial da Fórmula 1) [5]

 

Os fatos elencados anteriormente provam que Norris não tem uma postura ética e respeitosa dentro do ambiente esportivo, tanto com os demais competidores quanto com sua própria equipe. Portanto, a palavra “humilde” não descreve sua conduta, mesmo que os narradores e comentaristas brasileiros insistam em tratá-lo como tal. Ressalta-se que o mesmo Sérgio Maurício que aplaude Norris, mesmo com todas as grosserias ditas pelo inglês, criticou Max Verstappen por responder duramente a uma pergunta indelicada de um jornalista em 2018. Voltamos à paráfrase do início da matéria: “Todos os pilotos são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”.

Enquanto a mídia tradicional omite o comportamento inadequado de Norris e o vende como o melhor e mais humilde piloto de todos os tempos, jornalistas independentes e internautas desmascaram essa fraude. Inicialmente, o piloto foi comparado à personagem Veruca Salt, do livro infantil “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (1964). Eles têm características em comum: ambos são ingleses, muito ricos e exigem que todas as suas vontades sejam atendidas, não importa o quanto precisem gritar por isso.

 

Embora a mídia esportiva tente disfarçar, Norris tem muitas características em comum com a personagem Veruca Salt. [5]

 

Norris também foi comparado a outros personagens fictícios. Um deles é Quico, do seriado mexicano “Chaves” (1973-1980), famoso por gritar seu bordão “Cale-se, cale-se, cale-se, você me deixa louco”. A referência se deve ao fato de Norris ter berrado várias vezes com seu engenheiro no rádio. Outro personagem comparado a Norris é o Príncipe Adam, da franquia “A Bela e a Fera” da Disney (esta, por sua vez, é uma adaptação do conto francês de Suzanne de Villeneuve, escrito em 1740). No filme “O Natal Encantado” (1998), é revelado que Adam agia de maneira deveras rude com seus criados e era indiferente ao sofrimento alheio. Por conta disso, uma feiticeira decidiu transformá-lo em fera. Além do príncipe, que tem o mesmo nome que o pai de Norris, outra personagem francesa com comportamento semelhante ao do piloto é Chloé Bourgeois, do desenho animado “Miraculous”. Incapaz de amar alguém além de si mesma, Chloé maltrata todo e qualquer um que cruze seu caminho, e acha que é obrigação de todos servi-la e idolatrá-la. Apesar de ela não demonstrar respeito por ninguém, possui uma grande base de fãs (principalmente americanos), tal como Norris. Esses relativizam seu perfil grosseiro e torcem por seu triunfo no final.

 

Os jornalistas tratam Norris como “o rico humilde” (como Adrien Agreste), mas na vida real ele age como “o rico mimado” (como Chloé Bourgeois). [6]

 

Infelizmente, por não estar de acordo com seus interesses, a mídia tradicional não tratará Norris e suas grosserias da mesma forma que o faz com outros pilotos. Somado a isso, seus torcedores mais fanáticos continuarão promovendo ambientes hostis na internet em seu nome até que sua onda de popularidade se dissipe.

Além disso, o fator racial deve ser levado em conta. Hamilton afirmou em entrevista que “seria mais popular no Reino Unido se fosse branco”, o que permite o levantamento de mais uma hipótese. Ciente de que Hamilton é o piloto britânico mais bem sucedido da história, talvez a mídia tente investir na imagem de Norris (bem como na de George Russell) na esperança de que o público acredite que o posto um dia será ocupado por um piloto branco. Consequentemente, a mídia dos outros países adota a mesma postura, já que os principais órgãos da imprensa oficial da Fórmula 1 se encontram no Reino Unido.

 

4- Conclusão

 

A mídia esportiva elegeu Lando Norris como seu piloto favorito devido, principalmente, à vantagem econômica que ele traz a seus patrocinadores e à Fórmula 1. Sua popularidade nas redes sociais atraiu muitos torcedores jovens à categoria, mas estes o enxergam por um filtro de celebridade e não percebem que o atleta está longe de ser o astro gentil que a imprensa vende. Como Norris é bem assessorado e o dinheiro continua sendo o principal motor da Fórmula 1, talvez não o veremos sendo tratado igual aos outros pilotos tão cedo.

 

Adendo (23/07/2021): Lando Norris confirmou que sua equipe ganhou muitos patrocinadores com seu ingresso. Além disso, sua participação no Twitch atraiu bastante público. Essas informações (conferidas aqui) comprovam o argumento principal da matéria.

 


Fontes:

 

1- As origens de Lando Norris

 

2- A sensação teen da internet

*Fontes da tabela

 

3- Lando Norris humilde: um personagem de histórias infantis

 

Adendo

 

Fotos:

Obs.: Nenhuma das fotos inseridas neste artigo, exceto as montagens, pertence a mim. Este site possui fins informativos, não comerciais. Abaixo estão indicados os links de onde tirei as fotos. Todos os direitos reservados.

 

 

2 respostas
  1. CLEISSON SANTOS GUTERRES
    CLEISSON SANTOS GUTERRES says:

    Excelente matéria, mostrou com inúmeros exemplos a postura arrogante e antipática de Norris como piloto, e o quanto isso difere do personagem simpático que ele cria para conquistar os fãs em suas redes sociais. Lamentável que grande parte do público continue acreditando e admirando esse personagem que não existe fora das redes sociais, fomentado por um marketing da própria F1 que ‘passa o pano’ justamente por conta dos fãs e dinheiro que esse personagem ilusório traz a ela. E realmente, como piloto, acho que seria até generoso dizer que ele é ‘medíocre’ (que significa ‘de qualidade média’)

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    • Ricardo Hernandes Meyer
      Ricardo Hernandes Meyer says:

      Muito obrigado, Cleisson.
      O objetivo da matéria é justamente fazer com que o leitor entenda que a mídia sempre tem um interesse em valorizar uma pessoa em detrimento de outra com mais feitos. Norris é o exemplo mais marcante da atualidade.

      Responder

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