Entenda o Caso Esteban Ocon

Matéria escrita em 10 de agosto de 2019. A leitura nos dias de hoje pode ajudar a entender porque Esteban Ocon ficou sem vagas em 2019 e quais as atitudes que teve que tomar para voltar ao grid em 2020.

 

Esteban Ocon, piloto hispano-francês que correu na Fórmula 1 entre 2016 e 2018, é um dos nomes mais comentados quando começam as especulações no mercado de pilotos. Afinal, o jovem de 22 anos, apadrinhado de Toto Wolff, era tido por muitos como a promessa de uma futura estrela. Porém, ele ficou de fora do grid de 2019. Por que isso aconteceu? Ele ainda tem chances? Seu caso é complicado, mas iremos explicar tudo.

1- Início de carreira

Esteban Ocon é um caso raro na Fórmula 1. Por esta ser um esporte com muitos custos (peças, engenheiros, mecânicos, simuladores, etc.), é esperado que os pilotos tragam patrocínio para ajudar nas despesas de suas equipes. Portanto, os pilotos em sua maioria esmagadora são de origem rica. Ocon é uma das raras exceções. Nascido em uma família humilde de imigrantes espanhóis de Málaga, cidade na província de Andaluzia (a mais pobre do país), o jovem deve toda a sua carreira a Toto Wolff. Ocon chegou a afirmar que se não fosse pelo atual chefe de equipe da Mercedes, que lhe deu uma oportunidade para ingressar no automobilismo, estaria trabalhando em lanchonetes para ajudar a renda familiar. A relação entre Wolff e Ocon é uma peça fundamental para entendermos a situação atual do piloto.

Esteban Ocon e seus pais, Laurent e Sabrina

Em 2014, Ocon foi campeão da Fórmula 3 Europeia, uma das principais categorias de acesso à Fórmula 1. No entanto, o jovem promovido naquele ano foi Max Emilian Verstappen. O jovem holandês, filho do ex-piloto Jos Verstappen, estreou na Toro Rosso em 2015, enquanto que o campeão Ocon permaneceu no anonimato até a metade de 2016, quando a Manor o contratou para substituir o indonésio Rio Haryanto no Grande Prêmio da Bélgica. Ocon terminou seu ano de estreia sem pontos, em 23⁰ lugar. Seu primeiro ponto veio com o Grande Prêmio da Austrália do ano seguinte, o qual Esteban terminou em 10⁰ lugar.

2- Caso semelhante

Pascal Wehrlein é um piloto alemão que também fora apadrinhado por Toto Wolff. Filho de pai alemão e mãe africana das Ilhas Maurício, ele estreou na Fórmula 1 pela Manor em 2016, no Grande Prêmio da Austrália. Tornou-se companheiro de Ocon após a demissão de Rio Haryanto. No final da temporada, a Manor decretou falência e anunciou que não competiria mais na Fórmula 1.

Pascal Wehrlein

Para garantir que seus apadrinhados permanecessem, Toto Wolff conseguiu bons contratos: Wehrlein foi mandado para a Sauber, substituindo o brasileiro Felipe Nasr, e Ocon para a Force India no lugar do alemão Nico Hülkenberg. A Rede Globo, emissora brasileira que detém os direitos de transmissão da Fórmula 1 no país, chegou a especular que Nasr iria para a Force India por ter resultados superiores aos de seu companheiro, o sueco Marcus Ericsson. No entanto, Nasr ficou de fora da categoria e Ocon preencheu a vaga. Inicialmente, muitos fãs brasileiros ficaram com raiva de Toto Wolff e Esteban Ocon.

Como o carro da Sauber tinha o pior rendimento do grid, Wehrlein só chegou a pontuar duas vezes, com o sétimo lugar no Grande Prêmio da Espanha, obtendo seis pontos, e o décimo lugar no Grande Prêmio do Azerbaijão, conseguindo um ponto. Seu companheiro foi o único piloto daquele ano a não pontuar. Para 2018, a Sauber teria de sacrificar um de seus pilotos para contratar o monegasco Charles Leclerc, campeão da GP2 (outra categoria importante de acesso à Fórmula 1) e membro da Academia de Pilotos da Ferrari. Leclerc é apadrinhado de Nicolas Todt, filho do atual presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), Jean Todt (chefe de equipe da Ferrari entre 1993 e 2007). A Sauber na época era uma equipe subordinada à Ferrari tal qual a Toro Rosso é à Red Bull atualmente. Tendo que escolher entre o sueco patrocinado pela Tetra Pak e o alemão com resultados melhores apadrinhado por Toto Wolff, a equipe suíça optou por Ericsson e Wehrlein foi demitido.

Wolff colocou Wehrlein no cargo de terceiro piloto da Mercedes, juntamente com o jovem inglês George Russell. Toto prometia a Pascal que lutaria até o fim para lhe garantir um assento na Fórmula 1, porém Wehrlein espera isso até hoje. Descontente com a situação, o alemão se juntou à Ferrari como terceiro piloto, substituindo o russo Daniil Kvyat, que voltava para a Toro Rosso depois de ter sido demitido da equipe.

3- Relação com outros pilotos

Nos tempos das categorias de acesso, Ocon fez amizade com o canadense Lance Stroll, cujo pai, Lawrence Stroll, era o dono da melhor equipe da Fórmula 3 Europeia e da GP2, a Prema Powerteam. Ocon foi campeão da Fórmula 3 Europeia em 2014 por essa equipe. Lance fez o mesmo em 2016, quebrando o recorde de mais jovem campeão da categoria e primeiro canadense a ganhar o título. Alguns críticos avaliaram que Verstappen chamou mais atenção que o campeão Ocon por ter conseguido o terceiro lugar com um carro bem inferior (Van Amsterfoot Racing, motorizada pela Volkswagen). É válido notar que Verstappen foi a grande sensação de 2015. Os jornais automotivos só falavam do menino Max, seja por seus recordes, seja por seus acidentes ou por suas manobras arrojadas que lhe garantiam boas pontuações. Max foi eleito Estreante do Ano pela FIA em 2015. Tudo isso contribuiu para ofuscar a imagem de Ocon durante um ano e meio.

Com Stroll, Ocon travava uma amizade ao estilo “O Príncipe e o Mendigo”, pois ambos vieram de situações bem diferentes. Mas a amizade entre os dois provou que a riqueza não define caráter. Ser rico não quer dizer ser mau ou bom. Ser pobre não quer dizer ser bom ou mau. E mais para frente, vamos ver que isso realmente se aplica.

Com Wehrlein, Ocon não teve atritos consideráveis, situação bem diferente da que teve com o mexicano Sergio Pérez, seu companheiro na Force India. Os dois se enfrentaram em algumas ocasiões, principalmente no Grande Prêmio da Bélgica de 2017, quando um toque entre os dois na entrada da Eau Rouge espremeu Esteban contra o muro dos boxes. Ocon acusou Pérez de “tentar matá-lo”, enfurecendo os torcedores mexicanos, que passaram a ofendê-lo nas redes sociais. Alegando motivos de segurança, Esteban contratou seguranças armados para si e seus pais no Grande Prêmio do México daquele ano. Outro exemplo de atrito entre os dois foi no Grande Prêmio de Singapura, quando Pérez bateu em Ocon, tirando-o da prova.

Atrito entre Pérez e Ocon no Grande Prêmio da Bélgica de 2017. Ocon acusou Pérez de tentar matá-lo

4- Início da crise: a falência da Force India

Em 2018, o dono da Force India, Vijay Mallya, passou a ser investigado pelas autoridades indianas por suspeita de corrupção. A justiça britânica já negociava sua deportação para a Índia. Com as contas no vermelho e a confiabilidade baixa, a escuderia iniciou o processo de falência. Segundo informações de Mariana Becker, jornalista da Rede Globo, um empresário americano e um russo estavam interessados em comprá-la, mas não se chegou a um acordo.

Vendo uma oportunidade de investimento, Lawrence Stroll montou um consórcio de empresários e comprou a Force India, com Mallya assumindo qualquer pendência relativa ao período de sua gestão, inclusive o processo que Sergio Pérez moveu contra a equipe. O filho de Stroll, Lance, que havia feito uma boa temporada com a Williams em 2017 (conseguindo um pódio, uma largada da primeira fila e três recordes), sofria com um carro nada competitivo na escuderia inglesa. Especulava-se que quando Lawrence comprasse a equipe, Lance se transferiria para ela.

Matéria do jornal Independent, que menciona os 405 empregos salvos por Lawrence Stroll

Como explicado no começo dessa matéria, a Fórmula 1 precisa que os pilotos tragam patrocínio para manter o esporte. Pérez traz o patrocínio de empresas como Telmex e Claro e do governo do estado de Jalisco, no México. Ocon, por sua vez, era bancado unicamente por Toto Wolff.

5- Tentativas de contrato com outras equipes

  • Mercedes: o padrinho acata a vontade de Niki Lauda

Segundo a imprensa, Toto Wolff havia dado conselhos a Ocon antes do Grande Prêmio de Mônaco de 2018. Ele teria dito que, caso não dificultasse a ultrapassagem de Lewis Hamilton após o pit stop, Esteban assumiria a segunda vaga da Mercedes, já que o finlandês Valtteri Bottas tinha o desempenho bem inferior ao de Hamilton. Isso teria ocorrido bem antes da compra da Force India (que foi efetuada nas férias dos pilotos, antes do Grande Prêmio da Bélgica). Ocon facilitou a ultrapassagem do inglês em todas as corridas.

Ou seja, meses antes da Force India ir à falência e ser vendida, Esteban Ocon já estava cotado a deixar a equipe. Porém, o então conselheiro da Mercedes, o tricampeão Niki Lauda, recomendou a Wolff que desse mais uma chance a Bottas. O chefe de equipe acatou o pedido e renovou o contrato do finlandês por mais um ano. Caso Ocon deixasse a Force India, o que era o mais provável por não trazer os mesmos benefícios que Pérez, Wolff teria de se esforçar para encaixar seu pupilo em uma escuderia nova.

  • Renault

Em 2018, a equipe francesa contava com o espanhol Carlos Sainz Jr. e com o alemão Nico Hülkenberg. O primeiro foi chamado para substituir Fernando Alonso na McLaren depois que o bicampeão anunciou sua aposentadoria. O segundo teve seu contrato renovado. Com isso, a Renault tinha uma vaga disponível para 2019. Segundo a imprensa, Toto Wolff negociava a transferência de Ocon para essa escuderia, pois o piloto não era vantajoso nem financeiramente, nem em termos de desempenho, já que seus resultados estavam abaixo dos de Pérez.

Porém, ninguém contava com uma reviravolta na Red Bull. O anúncio de que a equipe austríaca correria com o motor da Honda em 2019 desagradou um de seus pilotos, o australiano Daniel Ricciardo. Temendo passar por uma série de quebras como houve com a McLaren em 2016 e a Toro Rosso em 2017, Ricciardo optou por deixar a Red Bull e assinou contrato com a Renault, preenchendo a segunda vaga da equipe. Essa era a primeira porta que se fechava para Ocon.

  • McLaren

Insatisfeita com os resultados do belga Stoffel Vandoorne, a escuderia inglesa demitiu o piloto e chamou Carlos Sainz Jr. para substituir Fernando Alonso, que se aposentaria no final de 2018. Consequentemente, uma vaga também estaria disponível na McLaren. Fontes afirmam que Toto Wolff também contatou os britânicos para garantir uma vaga para Ocon. No entanto, a equipe optou por um jovem piloto inglês que estava há anos no programa de treinamento da escuderia. Seu nome era Lando Norris, filho de um empresário inglês bilionário. Com isso, uma segunda porta se fechou para Esteban Ocon.

  • Williams: o caso Lance Stroll

Se 2017 foi um ano glorioso para a equipe inglesa, pois o pódio de Lance Stroll lhe garantiu o quinto lugar no campeonato de construtoras, 2018 foi arruinado pela incompetência de seus engenheiros. Lawrence Stroll era um dos principais financiadores da equipe, juntamente com o banco SMP, que patrocinava o russo Sergey Sirotkin. A equipe de engenharia liderada pelo britânico Paddy Lowe falhava em criar um carro competitivo, com promessas de melhorias que eram sempre adiadas. Amargando nas últimas posições do grid, os pilotos eram acusados injustamente pelos problemas da equipe, por estarem em maior evidência.

Obviamente, Lance estava descontente com a incompetência da equipe e tratamento injusto por parte da imprensa e dos torcedores. Também era nítida a antipatia de Claire Williams, chefe de equipe e filha do fundador Frank Williams, pelo piloto canadense e o embate entre Claire e Lawrence criava um clima pesado na escuderia. Lembrando que era a segunda vez que a má gestão da família Williams levava a equipe a ficar nas mãos de um investidor de fora (Toto Wolff em 2009 e Lawrence Stroll em 2017). Lawrence percebeu que o investimento não valeria a pena e encontrou uma oportunidade na compra da Force India.

Embora seu pai tenha assumido como o novo dono da equipe, Lance não se transferiu para a escuderia. Esse é o primeiro argumento que rebate a acusação que caiu sobre o canadense: de que seu pai teria comprado a Force India para que o filho tivesse um assento melhor, mesmo que tivesse que sacrificar seu amigo. Se Lawrence fosse simplesmente um pai tentando agradar o filho, teria pago a rescisão de contrato de Ocon e colocado Lance no time imediatamente. Não foi o que aconteceu. Esteban permaneceu na equipe, agora com o nome de Racing Point Force India, até o final do ano.

Muitos esperavam que Lance e Esteban trocassem de equipe. Em outras palavras, Stroll iria para a Force India e Ocon para a Williams. Com o desempenho de Sirotkin abaixo do esperado e com a partida de Stroll, a escuderia inglesa teria duas vagas disponíveis. Toto Wolff entrou em ação, colocando seu pupilo em uma das vagas da Williams. Seu nome, GEORGE RUSSELL.

O jovem inglês era membro do programa de desenvolvimento de pilotos da Mercedes e atuava como terceiro piloto da equipe alemã. Há muito tempo ele esperava uma oportunidade na Fórmula 1. Wolff não deu explicações sobre porque optou por garantir um assento a um novato em vez do apadrinhado que estava ficando sem chances. Apenas alegou que Russell tinha qualificações para a vaga.

Ao mesmo tempo, especulava-se sobre a volta de Robert Kubica às pistas. O polonês estava afastado desde 2011, quando sofreu um grave acidente que deixou seu braço esquerdo lesionado. Seu empresário era ninguém menos do que o campeão de 2016, Nico Rosberg. O retorno Kubica era um investimento arriscado: sua equipe teria que gastar mais dinheiro para adaptar o carro a suas deficiências e não havia garantia de que seu desempenho seria bom. Rosberg alegava que empresas polonesas estariam dispostas a patrocinar o piloto e que os torcedores do país ansiavam pela volta de Kubica desde a aposentadoria do brasileiro Felipe Massa.

  • Toro Rosso: apadrinhado do Toto Wolff? Nem pensar!

A Toro Rosso passava por uma dança das cadeiras inigualável. Insatisfeita com os sucessivos acidentes de Daniil Kvyat, a equipe correu em 2018 com Pierre Gasly e Brendon Hartley. No entanto, o segundo também se envolveu numa série de colisões que irritaram os dirigentes da equipe italiana.

Com Hartley demitido e Gasly promovido para a Red Bull após a saída de Daniel Ricciardo para a Renault, havia duas vagas disponíveis. No entanto, dois fatores dificultavam as chances de Ocon. O primeiro é o fato da Toro Rosso ser uma equipe subordinada à Red Bull, e normalmente seus pilotos estão ligados a ela: ou são jovens do programa de treinamento ou foram rebaixados da escuderia. Esteban não tinha laços com a Red Bull. O segundo fator era a ligação de Ocon com Toto Wolff. O chefe de equipe, Franz Tost, chegou a afirmar que não queria pilotos ligados à Mercedes na equipe. Talvez a escuderia temesse um escândalo de espionagem como o da McLaren em 2007 ou que Ocon contasse para Wolff os segredos do time, que usava motores Honda.

6- A imagem de Esteban Ocon

  • Stroll é jogado na fogueira; Ocon demora a socorrer o amigo

Lance Stroll estreou pela Fórmula 1 em 2017 pela Williams, aos 18 anos, no Grande Prêmio da Austrália. Três abandonos sucessivos e acidentes nos treinos livres fizeram a imprensa e os torcedores esquecerem de seus feitos na Fórmula 3 Europeia (como seu título e recorde) e o considerarem um “piloto pagante”. Essa fama injusta acompanhou Lance até seu terceiro lugar no Grande Prêmio do Azerbaijão, no qual quebrou o recorde de “mais jovem estreante a ter pódio”. Ocon até então não tinha pódio, mesmo com um carro superior, e assim permaneceu até o fim de sua carreira.

Com os problemas enfrentados pela Williams em 2018, a fama de “piloto pagante” voltou a pairar sobre Stroll, principalmente porque a mídia atribuía aos pilotos a culpa pelo mau rendimento do carro, mesmo isto sendo responsabilidade dos engenheiros. Quando seu pai, Lawrence Stroll, comprou a Force India na segunda metade do ano, salvando o emprego de 405 trabalhadores, os fãs de Esteban Ocon, envolvidos por uma raiva mortal, passaram a atacar Lance em suas redes sociais com as ofensas mais terríveis possíveis, algumas inclusive de teor racial. Pouco se falou dos empregos salvos, ou das vantagens que Pérez e Stroll trariam à equipe, ou que a falta de patrocínio e resultados de Ocon o atrapalhou na questão. Alguns simplesmente não admitiam que um piloto canadense judeu descendente de indígenas que possuía um pódio, uma largada da primeira fila e três recordes substituísse um piloto branco de origem europeia sem pódios e sem recordes.

Mas o mais surpreendente nesse caso foi a reação de Esteban Ocon. A Force India foi comprada em agosto de 2018. Ocon só se manifestou sobre os ataques a Lance em setembro de 2018. Em um mês, a mídia e os torcedores tiveram tempo suficiente para lançar boatos caluniosos sobre o canadense, enquanto que seu amigo desde a época da Fórmula 3 assistia a tudo calado. Ocon classificou os ataques como “irracionais” e lançou um stories em seu Instagram no qual ressaltava sua amizade com Stroll apesar de suas “origens diferentes”. Por que Ocon demorou um mês para acudir o amigo que sofria uma das mais baixas campanhas de difamação na história da Fórmula 1? Por que Ocon ressaltou diferenças nas “origens” de ambos, sendo que Stroll sofria ofensas raciais e ataques por ser rico (coisa que 99,9% dos pilotos é)?

Postagem no Instagram de Ocon defendendo Stroll um mês depois
  • Batida em Verstappen no Grande Prêmio do Brasil; a martelada final

Com 99,9% das vagas indisponíveis para Ocon, suas chances de permanecer na Fórmula 1 estavam cada vez mais escassas. No dia 11 de novembro de 2018, ocorreu o Grande Prêmio do Brasil, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Embora Lewis Hamilton tenha obtido a pole position, Max Verstappen conseguiu a liderança da prova e caminhava rumo à vitória. Esteban era o 16º e saía dos boxes quando acelerou e ignorou a bandeira azul, chocando-se contra Verstappen. Os dois pilotos saíram temporariamente da pista, possibilitando a ultrapassagem de Hamilton. Verstappen voltou em segundo lugar, com danos no carro. Ocon foi punido com 10 segundos de stop-and-go. A vitória de Hamilton estava na conta desse incidente.

Depois da cerimônia do pódio, Verstappen procurou Ocon para esclarecer a situação. Com um sorrisinho debochado no rosto, Esteban lhe respondeu que “estava mais rápido” e portanto tinha o direito de estar na frente mesmo com a bandeira azul.

Nota: Acreditem, há quem engula essa desculpa esfarrapada até hoje.

Verstappen ficou irado com o deboche e partiu para a agressão física, empurrando sucessivamente Ocon até que ambos foram separados. Max deixou a sala visivelmente irritado, enquanto que Esteban continuava rindo e caçoando do holandês. Depois, ele teve a coragem de dizer que “Max não agiu como homem”. Desrespeitar a bandeira azul, que obriga os retardatários a deixar os pilotos da frente passar, é coisa de homem? Caçoar da pessoa prejudicada em vez de assumir o erro e pedir desculpas é coisa de homem? Ver o amigo sendo vítima de difamação e ajudá-lo somente um mês depois é coisa de homem? Acusar o companheiro de equipe de tentativa de homicídio é coisa de homem?

Ocon caçoa de Verstappen após manobra que impediu sua vitória
  • Veredito: culpado por fidelidade máxima a Toto Wolff; Sentença: ficar sem vaga para 2019

A reação de Ocon ao choque com Max Verstappen gerou duas teorias para explicá-la: a primeira é um possível ressentimento de Esteban pela promoção de Max à Fórmula 1 em 2015, mesmo este sendo o terceiro colocado na Fórmula 3 Europeia de 2014 enquanto que o hispano-francês havia sido o campeão; a outra é a de que Ocon estaria passando uma mensagem a Toto Wolff de que ele seria um ótimo piloto para a equipe, já que suas ações inegavelmente garantiram a vitória de Lewis Hamilton.

Se por um lado essa imagem lhe traria benefícios com Wolff, ela rendeu a Ocon uma péssima reputação com as outras equipes. Esteban passou a ser visto como um agente leal ao chefe de equipe da Mercedes, e sua presença em outras escuderias poderia significar espionagem, traição e dupla-lealdade. Ocon não ganhou nada com o acidente com Verstappen: não pontuou, recebeu punição e teve a reputação manchada. Os únicos beneficiados com o acontecimento foram Hamilton, pela vitória, e Valtteri Bottas, que permanecia em quarto lugar no campeonato, à frente de Verstappen. Mas isso não se manteve até o final, pois na última corrida do ano, em Abu Dhabi, Max conseguiu um terceiro lugar e tomou a posição de Bottas no campeonato, ficando a apenas três pontos do terceiro colocado, Kimi Raikkonen.

Depois do Grande Prêmio do Brasil, Claire Williams anunciou que a equipe britânica havia contratado Robert Kubica, encerrando todas as chances de Esteban continuar na categoria máxima do automobilismo. Wolff não teve outra alternativa a não ser colocá-lo como terceiro piloto da Mercedes.

7- Mitos e verdades

  • Mito: Stroll é o culpado pela saída de Ocon da Fórmula 1.

Stroll não assumiu a vaga logo após o pai ter comprado a Force India com a ajuda de um consórcio de empresários. Mesmo tendo condições de pagar uma rescisão de contrato, os novos donos da escuderia deixaram Ocon correr pela equipe até o final de seu contrato. Ocon também era cotado para sair da equipe antes da compra. Pérez trazia vantagens para a equipe por ser o piloto com melhor desempenho e ainda trazer bons patrocinadores, coisa que Esteban não fazia. A escolha por Pérez foi baseada em oferta e demanda, uma regra de ouro do mercado.

Ocon tentou vagas em outras equipes, porém todas tiveram outros planos. A Renault optou por Daniel Ricciardo. A McLaren escolheu Lando Norris. A Mercedes renovou o contrato de Valtteri Bottas. A Toro Rosso contratou Alexander Albon e Daniil Kvyat (que tinha na época um pódio na carreira, um a mais que Esteban Ocon). Stroll não é mais culpado que Ricciardo, Norris, Pérez, Bottas, Albon, Kvyat, Russell e Kubica pela saída de Ocon. Lembrando que Stroll tem um pódio, uma largada da primeira fila e três recordes na carreira, competências que Ocon não tem. Culpar Stroll por estar na Fórmula 1 enquanto que Ocon está fora é a mesma coisa que culpar Ayrton Senna por ter mais títulos que Rubens Barrichello.

  • Verdade: a ligação com Toto Wolff diminuiu as oportunidades de Ocon na Fórmula 1

Os incontáveis elogios de Esteban ao chefe de equipe da Mercedes e a manobra para cima de Max Verstappen no Grande Prêmio do Brasil de 2018 comprovam que Ocon tem muita devoção a Toto Wolff, seu padrinho no esporte. As outras equipes temiam que um agente-duplo gerasse um escândalo de espionagem ou que seus segredos fossem vazados para a escuderia alemã.

Muitos podem pensar que, devido ao fato da Mercedes ter um dos melhores carros do grid (se não o melhor) ela não estaria interessada em informações sobre os outros times. Porém, as equipes sempre observam o desempenho de suas concorrentes (vide McLaren em 2007) em busca de melhorias e estratégias.

  • Mito: Ocon era um piloto de desempenho excelente e sua saída foi uma grande injustiça

Ocon foi superado por todos os seus companheiros de equipe durante sua carreira na Fórmula 1. Em seu ano de estreia, em 2016, ficou atrás de Pascal Werhlein nos resultados finais (embora ambos tivessem pontuação nula) por ter entrado na Fórmula 1 no meio do ano. Em 2017 e 2018 foi superado por Sergio Pérez, com 87 pontos contra 100 no primeiro ano e 49 contra 62 no segundo. Esse mito foi criado por jornalistas que, por motivos pessoais, focam em difamar Pérez, Stroll e Verstappen mais do que em elogiar Ocon por si. Os dados do piloto provam isso.

Em dois anos e meio de carreira, Ocon não conseguiu UM pódio, UMA largada da primeira fila, UMA pole position nem UM recorde, somando apenas 136 pontos. Comparando com outros pilotos da mesma faixa etária: Max Verstappen quebrou dois recordes em seu ano de estreia e mais quatro no ano seguinte, mesmo ano que obteve uma vitória, cinco pódios e uma largada da primeira fila; Lance Stroll conseguiu um pódio, três recordes e uma largada da primeira fila em seu ano de estreia; Charles Leclerc não obteve grandes resultados em seu ano de estreia, mas um ano depois conseguiu, até o presente momento, duas poles e cinco pódios. Lembrando que em seu ano de estreia, Ocon foi incapaz de pontuar.

  • Verdade: as escolhas de Ocon lhe renderam má fama no paddock

O caso do Grande Prêmio da Bélgica de 2017, no qual Esteban acusou Sergio Pérez de “tentar matá-lo”, é um dos exemplos da guerra de narrativas que o piloto travou em sua carreira. Pérez chegou a afirmar que Ocon gosta de se vitimizar e fazer seus rivais parecerem vilões. A teoria tem embasamentos.

Durante sua carreira, as escolhas de Ocon, sejam elas manobras nas corridas ou declarações à imprensa (incluindo a falta/demora delas), fizeram Pérez parecer um “piloto impulsivo que seria capaz inclusive de matar o colega de equipe”, Stroll parecer “um capitalista malvadão que compra assentos na Fórmula 1” e Verstappen parecer “um brigão descontrolado que agride seus adversários”. Todas essas figuras midiáticas acabaram por se voltar contra Esteban, que perante às demais equipes ficou com a imagem de “um piloto traiçoeiro e incompetente que não se dá bem com ninguém a não ser com Toto Wolff”. Com essa reputação, é difícil arrumar um assento na Fórmula 1 porque não se tem a confiança das escuderias.

8- Comparações entre Ocon e Wehrlein

Pascal Wehrlein entrou na Fórmula 1 com a Manor em 2016. Não obteve pontos devido ao péssimo rendimento do carro. Em 2017 foi promovido para a Sauber, onde pontuou no Grande Prêmio da Espanha e no Grande Prêmio do Azerbaijão. Sem patrocinadores que pudessem ajudar as contas da equipe, embora tenha superado seu companheiro de equipe, Marcus Ericsson, foi demitido da equipe para dar lugar a Charles Leclerc, protegido da Ferrari. Em 2018 foi colocado como terceiro piloto da Mercedes pelo padrinho Toto Wolff, que lhe prometeu um retorno à Fórmula 1. Como a promessa jamais foi cumprida, juntou-se à Ferrari como terceiro piloto e nunca mais foi visto nas pistas.

Esteban Ocon entrou na Fórmula 1 com a Manor em 2016. Não obteve pontos devido ao péssimo rendimento do carro. Em 2017 foi promovido para a Force India, onde pontuou 18 vezes, porém terminou o campeonato com 13 pontos a menos que seu companheiro, Sergio Pérez, que o venceu em 2018 também. Sem patrocinadores que pudessem ajudar as contas da equipe e com um desempenho inferior ao do companheiro, foi demitido. Em 2019 foi colocado como terceiro piloto da Mercedes pelo padrinho Toto Wolff, que lhe prometeu um retorno à Fórmula 1 (antes teria prometido a vaga de Bottas).

9- Conclusão

A saída de Esteban Ocon da Fórmula 1 em 2019 e sua incerteza para o futuro são frutos das péssimas escolhas que o piloto hispano-francês realizou durante a carreira. Deixando a gratidão a Toto Wolff lhe subir à cabeça, Ocon entregou seu futuro nas mãos do padrinho, que havia falhado em conseguir uma vaga para seu outro apadrinhado, Pascal Wehrlein. O péssimo relacionamento com Sergio Pérez, a demora em socorrer o amigo de longa data Lance Stroll enquanto este sofria difamação e a manobra para cima de Max Verstappen que possibilitou a vitória de Lewis Hamilton no Grande Prêmio do Brasil de 2018 renderam a Esteban uma reputação manchada (de vitimista com dupla-lealdade) e desconfiança das outras equipes (que optaram pelas contratações de Daniel Ricciardo, Lando Norris, Alexander Albon, Daniil Kvyat, George Russell e Robert Kubica). Seus resultados não foram suficientes para justificar seu merecimento à vaga na Racing Point, herdeira da Force India, e suas escolhas o afastaram das demais escuderias do grid. A imagem de “piloto excelente injustiçado pelos demais” não passa de uma invenção midiática de jornalistas mal intencionados cujos interesses focam mais em difamar Pérez, Stroll e Verstappen do que em exaltar os grandes feitos de Esteban na Fórmula 1, que até agora não se materializaram. Se Ocon tem chances de voltar à Fórmula 1? Tem, mas isso dependerá da estratégia adotada por Toto Wolff. No momento, a situação de Ocon está praticamente idêntica à de Wehrlein.

Esteban Ocon e Toto Wolff: o casamento mais problemático da Fórmula 1

 

10- Fontes

Fotos

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