Quem é Lawrence Stroll? O Papai Famoso de Lance

O empresário Lawrence Stroll vem atraindo a atenção da mídia esportiva nos últimos anos devido a seus investimentos na Fórmula 1. Desde o ingresso de seu filho caçula Lance na categoria até a compra da equipe Force India (atual Racing Point e futura Aston Martin) o nome de Stroll desperta curiosidade em jornalistas e torcedores.

No entanto, muitas vezes os fãs da Fórmula 1 acabam por acreditar em boatos e ter falsas impressões a respeito do canadense, e com isso não percebem as verdadeiras intenções de seus detratores. Nesta matéria, vamos explicar quem é Lawrence Stroll através de fatos e mostrar para o apaixonado por automobilismo quem é o famoso “Papai Stroll”.

 

1- A origem dos Strolls

 

A família Stroll, cujo nome original é Strulovitch, tem origens na Rússia. Durante a era dos czares, os judeus foram intensamente perseguidos. Uma das políticas de Estado eram os pogroms: invasões de aldeias judaicas acompanhadas de saques, incêndios e mortes. Logo, muitos judeus tinham esperança em novos tempos com as revoluções de 1917 (inclusive, alguns líderes dos movimentos contra o czar Nicolau II, como Leon Trotsky, eram judeus). No entanto, o período soviético não trouxe paz para esta comunidade, sobretudo no regime de Josef Stalin. As perseguições não apenas continuaram, como se intensificaram.

Com isso, muitos judeus fugiram da Rússia rumo a países democráticos. Uma grande parte fugiu para as Américas. Foi o caso de Leo Strulovitch. Recomeçando a vida no Novo Continente, Strulovitch e sua esposa Sandra (nascida no Canadá) tiveram dois filhos: Lawrence e Randy. O jovem Lawrence cresceu observando seu pai, que trabalhava como comerciante de roupas (tornando-se investidor anos depois, introduzindo a linha feminina da Pierre Cardin e a marca Ralph Lauren no Canadá), e decidiu seguir seus passos. Estudou, trabalhou, montou seus primeiros negócios, e alguns anos depois começou seus primeiros investimentos.

 

Lawrence Stroll e seu sócio Silas Chou. [1]

 

Lawrence Stroll é apontado como o responsável pela popularização da marca Polo Ralph Lauren no continente europeu e da expansão da Michael Kors no mercado. Em 1989, Stroll e seu sócio Silas Chou fundaram a Sportswear Holdings Limited, uma das maiores empresas do setor da moda de toda a história, como apontado pelo jornalista espanhol Jaime Cevallos. A companhia permitiu a popularização da marca Tommy Hilfiger, que conquistou um grande espaço no setor têxtil. Na década de 2000, Stroll e Chou viram algumas marcas que receberam seus investimentos, como a Michael Kors, entrar na Bolsa de Valores. A compra e venda de ações renderam uma boa fortuna aos empresários.

Em agosto de 1994, Stroll se casou com a estilista belga Claire-Anne Callens. Em 11 de março do ano seguinte, nasceu a primeira filha do casal: Chloe. O segundo filho, Lance, nasceu em 29 de outubro de 1998. Dona da grife Callens, Claire-Anne administra seus negócios sozinha, e suas lojas se encontram em muitas cidades da Europa, Estados Unidos e Canadá.

 

Claire-Anne Callens: estilista belga e esposa de Lawrence Stroll. [2]

 

2- Lawrence Stroll e o esporte: uma interação antiga

 

No documentário W5: Lance Stroll Canada’s Top Formula 1 Racer, Lawrence Stroll relata que participou do Ferrari Challenge, uma competição feita por colecionadores que possuem o modelo Ferrari 348, por volta de seus 30 anos e continuou durante a infância de seus filhos, que eram levados para ver o pai no evento. Esta foi a primeira inserção de Stroll no mundo esportivo, muito antes de Lance pensar em ser piloto de Fórmula 1. Logo, cai por terra o primeiro mito sobre o empresário: de que ele só teria entrado no ramo do automobilismo porque seu filho queria ser piloto.

Assim como Lawrence adquiriu gosto pela moda ao observar o trabalho de seu pai Leo, Lance Stroll compartilha o amor pelo esporte com seu pai. O automobilismo é uma das categorias esportivas mais caras que existem devido ao custo de sua mão de obra e materiais. Consequentemente, é necessário que haja um suporte financeiro na carreira dos atletas, tornando impossível o ingresso de pilotos sem investimentos desde às categorias de base até as mais altas. Possuidor de uma fortuna decorrente de seus negócios no ramo têxtil, Lawrence Stroll foi um dos apoiadores do filho em seu caminho no esporte.

 

Lawrence Stroll no Ferrari Challenge com seus filhos. [3]

 

A formação de um piloto requer investimento e desempenho atlético. Neste caso, pouco importa se o patrocínio vem de sua família ou não. Um piloto talentoso sem um bom investimento não consegue ajudar nas contas da equipe, enquanto que um atleta sem aptidão não alcança bons resultados que se traduzem em ganhos financeiros para a escuderia. Com esses obstáculos, é quase impossível um piloto chegar à categoria máxima do automobilismo mundial apenas com aparato financeiro e com um desempenho frustrante. Atletas assim normalmente abandonam suas carreiras em etapas mais baixas, como o kart. Ainda, de acordo com Nuno Sousa Pinto, diretor esportivo, a própria FIA dificultou ainda mais o ingresso de pilotos cujos desempenhos não justificariam os investimentos em suas carreiras (os famosos “pilotos pagantes”): a partir de 2016, para entrar na Fórmula 1 seria preciso marcar 40 pontos na Superlicença.

 

3- Lance e Lawrence: pai e filho na Fórmula 1

 

Sendo campeão da Fórmula 4 Italiana em 2014 (o primeiro da categoria), da Toyota Racing Series em 2015, e da Fórmula 3 Europeia em 2016, Lance Stroll obteve os pontos necessários na Superlicença para ingressar na Fórmula 1 em 2017 pela equipe Williams. Nuno Sousa Pinto aponta que o currículo de Stroll é mais impressionante do que de muitos atletas jovens que também chegaram à Fórmula 1, e que apesar destes também virem de famílias ricas não são criticados pela imprensa. Isto revela que, infelizmente, alguns jornalistas deixam as preferências pessoais se sobressair ao profissionalismo esperado e espalham desinformação, ignorando um dos princípios mais importantes do jornalismo: a ética.

Os atletas têm um tempo de adaptação à categoria em que atuam. As críticas a Lance Stroll logo durante a pré-temporada foram, do ponto de vista jornalístico, precipitadas. Isso se comprovou ainda no primeiro semestre de 2017, quando Stroll marcou seus primeiros pontos no Grande Prêmio do Canadá e teve seu primeiro pódio no Grande Prêmio do Azerbaijão, quebrando seu primeiro recorde: mais jovem estreante a ter pódio. Um piloto “pagante” jamais conseguiria resultados tão impressionantes, pois não teria aptidão para o esporte, apenas aporte financeiro. No Grande Prêmio da Itália, Stroll quebrou o recorde de mais jovem piloto a largar da primeira fila, comprovando seu potencial e talento para o automobilismo.

 

Pódio do Grande Prêmio do Azerbaijão de 2017. [4]

 

Em uma entrevista para a emissora canadense RDS em agosto de 2018, Lance Stroll afirmou que seu pai é um homem de negócios, e que investe em empreendimentos que ele tem a certeza de que darão certo. Portanto, o interesse de Lawrence Stroll em escuderias, desde a Prema Powerteam à Racing Point, vai muito além de uma interação com seu filho: trata-se de oportunidades de bons investimentos.

Vale a pena ressaltar que os únicos pilotos do grid de 2020 que vieram de famílias mais humildes são Esteban Ocon e Valtteri Bottas. Todos os demais provém de família com boas condições financeiras: alguns de classe média como Lewis Hamilton e Kimi Raikkonen, outros de classes mais abastadas. No entanto, todos, sem exceção, possuem aporte financeiro, seja de suas famílias, de empresas ou até de ambos. Alguns pilotos são filhos de empresários (Lance Stroll, Lando Norris, Charles Leclerc, Daniel Ricciardo, Sebastian Vettel, etc.), que atuam em diferentes nichos (moda, investimentos, automóveis, engenharia, entre outros). Outros são filhos de atletas (Max Verstappen, Carlos Sainz Jr., Pierre Gasly), logo também têm condições privilegiadas desde o nascimento. A origem do piloto não interfere em seu desempenho pois, como definiu Lawrence Stroll, os pais não dirigem o carro pelos filhos.

 

4- Os rumores: noticiando antes de saber a verdade

 

Em 2018, quando a Force India foi vendida para o consórcio liderado por Lawrence Stroll (formado também por Silas Chou, Michael de Picciotto, John McCaw Jr., John Idol, Jonathan Dudman e Andre Desmarais), especulava-se que Lance se mudaria para a equipe imediatamente, já que falhas contínuas do departamento de engenharia da Williams comprometeram o desempenho de seus carros. Com a saída de Esteban Ocon do time, no final daquele ano, os fãs do piloto francês e alguns jornalistas imediatamente jogaram a culpa nos Strolls, como se o futuro de Ocon já estivesse garantido antes da venda da escuderia.

Na verdade, como relatou Joas van Wingerden, Toto Wolff já cogitava tirar seu apadrinhado da Force India. As negociações falharam porque os laços entre Ocon e Wolff eram vistos com desconfiança pelas outras equipes, como afirmado por Christian Horner, chefe de equipe da Red Bull. Este fato se comprovou em 2019, quando Ocon desfez seus vínculos com Wolff para conseguir uma oportunidade de voltar à Fórmula 1 pela Renault.

Na época da compra da Force India, Sergio Pérez era mais atrativo para os investidores do que Esteban Ocon devido a sua consistência em pontuação e patrocinadores. Isso, somado às pretenções do empresário do piloto francês, garantiu que o mexicano fosse a melhor opção para correr ao lado de Lance Stroll. Além disso, o canadense apresentava boas perspectivas de futuro, devido aos investimentos e seus feitos no ano de estreia.

 

Lance Stroll e Sergio Pérez na Racing Point. [5]

 

Em 2020 ocorreu uma situação parecida. Sebastian Vettel não teve seu contrato com a Ferrari renovado pois seu trabalho não estava atendendo às expectativas do time. Os donos da Racing Point cogitaram contratá-lo em razão de seu passado como tetracampeão e de seu investimento financeiro. Embora parecesse óbvio que Lance Stroll não seria o escolhido para dar sua vaga a Vettel, isso não se deve simplesmente ao fato de ele ser filho de um dos donos. Existem de fato empresas que priorizam laços familiares e se os membros não são preparados para assumir as responsabilidades o negócio acaba por falir. Mas este não é o caso que se observa em Lawrence Stroll: o sucesso de seus investimentos se deve ao cuidado nas decisões.

Isso significa que laços familiares não são o fator decisivo para escolhas como esta. O que se discutia era qual dos dois pilotos, Stroll ou Pérez, teria mais chances de trazer os resultados que a equipe pretende alcançar em 2021. Ambos têm boas conquistas, diferindo no tempo de carreira na Fórmula 1: Pérez tem 10 e Stroll tem quatro. Em termos técnicos, os dois podem ser considerados pilotos experientes, mas o mexicano teria mais chances de se aposentar mais cedo, pois já tem 30 anos e está há uma década na Fórmula 1. Tendo ambos bons patrocínios, os investidores esportivos encontram mais perspectivas em atletas jovens, como é o caso de Stroll.

Percebe-se que os negócios envolvem questões muito mais profundas do que apenas laços de parentesco. O investimento na Fórmula 1 é de alto risco e, portanto, as decisões exigem cautela. É claro que a inconstância de narrativas na divulgação dos acontecimentos na Racing Point não facilitou a compreensão dos fatos, e quem não entende bem como funcionam os negócios pode impetuosamente julgar que se trata de um caso de pai protegendo o filho. Por isso se deve analisar friamente os fatos para divulgar as informações corretamente.

 

5- Conclusão

 

Esta é a história de Lawrence Stroll: um homem que construiu sua fortuna com investimentos e empreendedorismo, um trabalho que exige muito empenho e cautela. Se você esperava o estereótipo de um rico herdeiro de um grande capital, casado com uma socialite e com um filho boa vida, procure outra pessoa. Talvez você encontre algum pai de piloto com esse perfil, mas esse definitivamente não é Lawrence Stroll.

 

Atualização (09/10/2020): Como revelado por Adam Cooper no site Motorsport (veja aqui), Sebastian Vettel havia comprado ações da Aston Martin antes de assinar o contrato com a equipe. Logo, este fato reforça o que dizemos neste artigo: a contratação de Vettel em vez da renovação de contrato de Sergio Pérez foi feita com base em negócios, não em privilégio de Lance Stroll por ser filho do dono.

 

Bibliografia

 

 

Fotos

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Renault: Um Passado Que Condena

Durante a temporada de 2020, a Renault F1 Team lançou quatro protestos contra a Racing Point F1 Team alegando que a rival havia copiado o projeto de freios da Mercedes-Benz Grand Prix Limited. As reclamações começaram após o Grande Prêmio da Estíria, o qual os carros do time inglês terminaram à frente dos da escuderia francesa (Sergio Pérez e Lance Stroll cruzaram a linha de chegada respectivamente em sexto e sétimo lugar, enquanto Daniel Ricciardo foi o oitavo colocado e Esteban Ocon abandonou). Desde então, em toda corrida em que os pilotos da Racing Point superavam os da Renault, o time comandado pelo controverso Cyril Abiteboul lançava um novo protesto. Apenas no Grande Prêmio da Grã-Bretanha, em que Ricciardo e Ocon terminaram à frente de Stroll, não houve reclamações.

A priori parece infantil a postura da Renault de querer desclassificar sua adversária porque não consegue vencê-la nas pistas. Todavia, se for analisado o passado da equipe, marcado por trapaças e falcatruas que, inclusive, custaram a carreira de um jovem piloto brasileiro filho de um tricampeão, é possível notar a leviandade e hipocrisia do time francês e levantar a hipótese de que, além de querer subir na classificação do campeonato sem mérito, ela procura apagar seu histórico manchado. Esta matéria fará um breve retrospecto da história da Renault na Fórmula 1 para identificar qual é o verdadeiro objetivo da escuderia em se prestar a esse papel tão baixo.

 

1- Origens obscuras: colaboração com o nazismo

 

A Renault foi fundada como empresa em 1899 por Louis Renault, um industrial de Paris. Em 1938, o empresário se reuniu com Adolf Hitler em pessoa e no ano seguinte se tornou um dos principais fornecedores do exército francês. A Resistência Francesa passou a rejeitá-lo por sua aparente colaboração com o governo de Vichy, que estava a serviço dos nazistas. Em 1942, a força aérea britânica bombardeou as instalações da Renault para enfraquecer o abastecimento das tropas aliadas à Alemanha. Dois anos depois, Louis Renault foi preso acusado de colaborar com os nazistas. Suas fábricas foram expropriadas pelo governo francês.

 

Louis Renault, fundador da Renault e colaborador do regime nazista. (Foto: Famous People) [1]

 

A figura de Louis Renault ainda gera controvérsia entre os historiadores. Alguns afirmam que ele apoiou o nazismo por interesses econômicos, outros dizem que ele foi forçado a colaborar com o regime de Vichy. De qualquer maneira, a empresa teve um papel ativo na Segunda Guerra Mundial, abastecendo o exército francês, aliado de Hitler na época. Muitas fabricantes de carro europeias tiveram experiências parecidas, principalmente as alemãs, e hoje tentam apagar essa mancha em seu passado. Com a Renault não é diferente.

 

2- A Renault enquanto escuderia: um começo desastroso

 

O irmão de Louis Renault, Michel, era apaixonado por automobilismo. Isso despertou o interesse da empresa pelo esporte. No entanto, a Renault ingressou na Fórmula 1 como escuderia somente em 1977. Seu primeiro ano na categoria foi um fracasso. Correndo com apenas um piloto, Jean-Pierre Jabouille, a Équipe Renault Elf encerrou a temporada sem pontos e sem um lugar de classificação. Das oito corridas que participaria, Jabouille desistiu de três, abandonou quatro e não se qualificou para uma.

 

Jean-Pierre Jabouille: primeiro piloto da Renault. (Foto: Carthrottle) [2]

 

No ano seguinte, a escuderia marcou seus primeiros pontos no Grande Prêmio dos Estados Unidos, o qual Jabouille terminou em quarto lugar. A Renault foi a 12ª colocada na classificação final, com três pontos. A primeira vitória do time ocorreu no Grande Prêmio da França de 1979, que colocou a equipe no sexto lugar entre as construtoras, mas também foi a única corrida no qual a Renault pontuou.

 

3- Anos 80: do céu ao primeiro hiato

 

Assim como a Williams, a Renault teve boas temporadas na década de 80. Correndo com Jean-Pierre Jabouille e René Arnoux, a Renault foi a quarta colocada em 1980 (com 38 pontos). No ano seguinte, Alain Prost substituiu Jabouille e o time ficou em terceiro lugar no campeonato, com 54 pontos, repetindo a classificação em 1982, com 62 pontos. O americano Eddie Cheever substituiu Arnoux em 1983, tornando-se o primeiro piloto não-francês a competir pela escuderia, que foi a vice-campeã daquele ano com 79 pontos.

 

Alain Prost foi um dos pilotos da Renault nos anos 80. Hoje, é um de seus embaixadores. (Foto: Renault) [3]

 

Em 1984, a Renault foi a quinta colocada na classificação final, com 34 pontos, e no ano seguinte ficou em sétimo lugar entre as construtoras, com 16 pontos. Patrick Tambay foi seu principal piloto nesses anos, sendo companheiro de Derek Warwick em 1984 e de François Henault em 1985. No ano seguinte, a Renault deixou de participar na Fórmula 1 como escuderia, limitando-se ao papel de fornecedora de motor para as equipes Lotus, Ligier e Tyrrell. Em 1987, ela deixou de fornecer motores, entrando em um hiato que só foi encerrado dois anos depois, quando equipou a vice-campeã Williams.

 

4- Anos 90: sucesso com as campeãs e segundo hiato

 

Durante quase toda a década de 90, a Renault permaneceu como fornecedora de motor na Fórmula 1. Suas parcerias mais bem-sucedidas foram com a Williams e a Benetton, que conquistaram títulos entre 1992 e 1997 (sendo cinco campeonatos vencidos pela Williams e um pela Benetton). No entanto, em 1998, apesar do auge de seus motores, a Renault saiu novamente da Fórmula 1, voltando novamente apenas em 2001, como fornecedora de motor da Benetton, que encerrou o ano no sétimo lugar, com 10 pontos.

 

Michael Schumacher na Benetton em 1994. A equipe utilizava motores Renault. (Foto: site oficial de Michael Schumacher) [4]

 

Até então, a atitude da Renault era encarada como estranha aos olhos de suas concorrentes. Sabe-se que o automobilismo é uma categoria esportiva com muitos custos, mas os resultados obtidos pelas clientes da marca francesa justificariam os investimentos, pois as recompensas pagas pela FIA seriam altas. Nas décadas seguintes, a Renault evitou hiatos, mas embora seus resultados tivessem melhorado, sua participação na Fórmula 1 foi acompanhada de episódios polêmicos.

 

5- Anos 2000: o auge, a ruína e o Singaporegate (ou Crashgate)

 

Em 2002, a Renault voltou para a Fórmula 1 como escuderia, sob o nome de Mild Seven Renault F1 Team. Seus pilotos eram Jarno Trulli e Jenson Button, que lhe renderam 23 pontos e colocaram a equipe no quarto lugar do campeonato. No ano seguinte, o qual o time repetiu a posição de classificação (com 88 pontos), Button foi substituído por um dos pilotos mais controversos da história do esporte: o espanhol Fernando Alonso. Embora responsável pelos melhores momentos da Renault, Alonso foi também um dos personagens de um episódio tão polêmico que atingiu várias equipes e pilotos naquela década.

 

Fernando Alonso ao lado de Michael Schumacher no Grande Prêmio de San Marino de 2005. Aquele ano marcou o primeiro título da Renault na Fórmula 1. (Foto: EssentiallySports) [5]

 

Depois de terminar a temporada de 2004 em terceiro lugar, a Renault conquistou seu primeiro título em 2005. Alonso teve sete vitórias, 15 pódios e mais uma chegada na zona de pontuação, somando 133 pontos. Seu companheiro, Giancarlo Fisichella, somou 58 pontos, com uma vitória, três pódios e mais oito chegadas na zona de pontuação. Além do título, foi a primeira vez que a Renault ultrapassou os 100 pontos em uma temporada, conquistando 191 no total. Em 2006, Alonso repetiu o feito, tornando-se bicampeão com sete vitórias, 14 pódios e mais duas chegadas na zona de pontuação. Fisichella obteve 72 pontos, com uma vitória, cinco pódios e mais 11 chegadas na zona de pontuação. Tendo marcado 206 pontos em 2006, a Renault perdeu Alonso no ano seguinte para a McLaren, na qual o espanhol correu ao lado do estreante Lewis Hamilton, mas o recebeu de volta em 2008. Mesmo com um bom resultado (terceiro lugar entre as construtoras, com 51 pontos) o time francês passou pelo primeiro aperto de sua história no Grande Prêmio do Canadá, no qual Fisichella foi desclassificado após sair do pit lane quando a luz vermelha estava acesa.

 

Giancarlo Fisichella correndo pela Renault. (Foto: Pinterest) [6]

 

Mas a punição a Fisichella estava longe do estrago que viria a acontecer em 2008. Correndo sob o nome de ING Renault F1 Team, a escuderia contratou Nelson Piquet Jr., filho do tricampeão Nelson Piquet, para substituir Fisichella. Naquele ano, Alonso estava longe de seus brilhantes resultados de outrora, e Piquet Jr. (conhecido no Brasil como “Nelsinho”) enfrentava dificuldades para pontuar. Foi então que, na 15ª etapa da temporada, o chefe de equipe Flavio Briatore colocou em prática um plano mirabolante para que o espanhol voltasse a vencer. Ordenou a Nelsinho que batesse seu carro na curva 17 para forçar a entrada do safety car. Com essa manobra, o grid mudou radicalmente. Fernando Alonso venceu a corrida, com Nico Rosberg em segundo e Lewis Hamilton em terceiro. Felipe Massa, que havia liderado boa parte da prova, foi o mais prejudicado a curto prazo: cruzou a linha de chegada em 13º lugar, tendo perdido muito tempo em um pit stop desastroso feito às pressas pelos mecânicos da Ferrari. Alguns torcedores e analistas afirmam que uma vitória de Massa em Singapura, que era dada como certa até a batida de Nelsinho, possibilitaria a conquista do título, que foi vencido por Hamilton.

 

Nelson Piquet Jr. (“Nelsinho”) batendo na curva 17 no Grande Prêmio de Singapura de 2008, conhecido como “Singaporegate” ou “Crashgate”. (Foto: EssentiallySports) [7]

 

Nelsinho foi demitido após o Grande Prêmio da Hungria de 2009. Seu pai recomendou ao filho que delatasse o esquema de Briatore, pois não era justo que o jovem piloto fosse prejudicado por uma ideia de seus superiores. Um inquérito foi instaurado, resultando no banimento de Briatore da Fórmula 1 para toda sua vida e de Pat Symonds, diretor de engenharia da Renault, por cinco anos. Alonso foi inocentado após dizer em tribunal que não sabia do esquema. A justiça francesa intercedeu pela Renault e revogou os banimentos, mas tanto Briatore quanto Symonds aceitaram não voltar mais à Fórmula 1.

 

Flavio Briatore: chefe de equipe da Renault em 2006 e mentor do Crashgate. (Foto: Gero Breloer/EPA) [8]

 

Se na época todas as equipes tivessem agido como a Renault fez em 2020, a escuderia francesa teria sido banida da Fórmula 1 igual a Briatore. O caso, apelidado de “Singaporegate” e de “Crashgate”, não apenas beneficiou Alonso e sua equipe, como prejudicou diretamente a luta de Massa pelo título e a carreira de Nelsinho.

 

6- Renault F1 Team: um velho lobo em nova pele de cordeiro

 

Apesar do vexame do Singaporegate, a Renault não foi banida da Fórmula 1. Com a saída de seus principais patrocinadores, o grupo ING e a Mutua Madrileña, devido à polêmica, o time adotou o nome de Renault F1 Team a partir da temporada de 2010. Tendo sua dupla de pilotos formada por Robert Kubica e Vitaly Petrov, a escuderia começou a década ficando em quinto lugar entre as construtoras, com 163 pontos. No ano seguinte, fez uma fusão com a Lotus que durou até 2014 (a palavra “Renault” saiu do nome da escuderia em 2012). Em 2015, a Lotus correu seu último ano na Fórmula 1, utilizando motores Mercedes. Um ano depois, a Renault saiu dos bastidores e voltou para a categoria como escuderia. Sua principal cliente, a Red Bull (que foi tetracampeã entre 2010 e 2013 com Sebastian Vettel), continuou usando os motores da Renault, mas sob o nome TAG-Heuer.

O primeiro ano do novo retorno da escuderia francesa não foi muito bom. Seus pilotos eram Kevin Magnussen e Jolyon Palmer. Pontuando em apenas três corridas, a Renault foi a nona colocada entre as construtoras, com apenas nove pontos. O ano seguinte foi melhor, com um sexto lugar na classificação final e 57 pontos. Nico Hülkenberg substituiu Palmer no meio da temporada. Em 2018, Carlos Sainz Jr. se juntou ao time em busca de oportunidades de crescimento na carreira. Pontuando em mais ocasiões, a Renault conseguiu o quarto lugar no campeonato.

 

Nico Hülkenberg e Daniel Ricciardo foram desclassificados do Grande Prêmio do Japão de 2019. (Foto: Instagram) [9]

 

No ano seguinte, porém, a situação foi bem diferente. Mesmo contando com bons pilotos, o desempenho do carro apresentou vários problemas, impedindo que Daniel Ricciardo e Nico Hülkenberg alcançassem melhores posições. Seu pior momento foi no Grande Prêmio do Japão, do qual seus dois pilotos foram desclassificados por irregularidades no carro. A Renault somou 91 pontos, fechando 2019 com o quinto lugar. Em 2020, com a saída de Hülkenberg, o time francês contratou um piloto quase tão polêmico quanto Alonso: Esteban Ocon. O hispano-francês havia ficado um ano fora da Fórmula 1 após suas escolhas e decisões terem lhe custado chances em praticamente todas as escuderias (para saber mais, leia Entenda o caso Esteban Ocon).

Terminando 2019 à frente da Racing Point, a Renault não se conformou com o excelente desempenho de sua rival no começo de 2020. Acusou a escuderia britânica de copiar os sistemas da Mercedes, visando desclassificar Sergio Pérez e Lance Stroll das corridas concluídas até então e garantir pontos extras a Ricciardo e Ocon. A “denúncia” tem duas faces, que serão desvendadas a seguir.

 

7- Denunciando a Racing Point: o sujo falando do mal lavado

 

É óbvio que, se houve de fato irregularidades, a Racing Point deveria ser responsabilizada por seus atos e sofrer as devidas sanções. Afinal, nenhuma equipe está acima do regulamento. No entanto, os julgamentos da FIA tendem a ser questionáveis. Um bom exemplo foi a cumplicidade do órgão com a Ferrari, quando a federação acobertou as alterações no carro da escuderia italiana em 2019, abrindo espaço para dúvidas a respeito da legalidade dos ajustes. Das nove equipes restantes, sete se juntaram em uma queixa coletiva contra o acordo entre Ferrari e FIA (apenas as equipes clientes dos motores Ferrari, Alfa Romeo e Haas, ficaram de fora, porém, a Mercedes retirou a queixa semanas depois). As explicações do presidente da federação, Jean Todt (ex-chefe de equipe da Ferrari) não foram convincentes, e o mesmo chegou a declarar que não podia revelar mais detalhes sem a aprovação do time italiano.

 

O famoso duplo-padrão da FIA [10]

 

Como a Racing Point foi uma das integrantes da queixa coletiva, a Ferrari foi uma das equipes a se intrometer no protesto da Renault (mesmo o time francês também fazendo parte da queixa), insinuando que o time inglês deveria ser punido. A McLaren, concorrente da Racing Point em 2020, insinuou que houve cópia, mas que esta não merecia nenhuma sanção. A Mercedes negou participação no projeto da Racing Point, e esta por sua vez sempre alegou sua inocência, afirmando que o desenvolvimento de cada parte do carro foi feito sob a fiscalização da própria FIA.

No dia 7 de agosto, a FIA anunciou que a Racing Point perderia 15 pontos e receberia uma multa, mas a pontuação de seus pilotos permanece inalterada. No entanto, cabe recurso contra a decisão. Com isso, Renault e Ferrari saíram beneficiadas, subindo de posição no ranking das construtoras. A denúncia em si, aparentemente, visaria justiça, pois uma das equipes competidoras estaria burlando o regulamento. No entanto, por que justamente a Renault, cujo passado foi marcado por escândalos, foi a responsável pelo protesto? Se tantos times depois se atreveram a comentar o caso, insinuando culpa da Racing Point, por que nenhum deles moveu o protesto? A resposta é simples: a Renault sabe que não é capaz de produzir um carro para competir de igual para igual com a Racing Point e a McLaren em 2020, portanto, recorrendo aos valores de Flavio Briatore, resolveu arrancar uma “vitória” à força, mexendo na classificação das construtoras. O órgão que julgou o caso também não seria o mais indicado para a função, já que possui histórico de favorecimento à Ferrari, mas é o único que a Fórmula 1 tem para situações como esta.

 

Resumo da ópera [11]

 

8- Conclusão

 

A história da Renault foi construída em cima de episódios lamentáveis. O fundador da marca foi um colaborador do regime nazista. A escuderia passou por dois hiatos entre os anos 80 e 90. Seus dirigentes destruíram a carreira de Nelson Piquet Jr. para que Fernando Alonso tivesse uma vitória em 2008, atrapalhando o rumo de Felipe Massa ao título. Na década de 2010, escondeu seu nome para não passar a vergonha de ser lembrada pelo Singaporegate (ou Crashgate). Atualmente, incapaz de fazer frente à concorrência, se utiliza de meios judiciais para subir de posição no campeonato.

Se a Renault estivesse mesmo sedenta por justiça, se desculparia a todos que prejudicou em sua história e, no mínimo, se retiraria da Fórmula 1 e pararia de manchar o esporte com sua participação vergonhosa. Valores morais é o que esse time não pode alegar, pois deseja que sua concorrente assuma um papel coadjuvante no esporte e que seja conhecida mais pelos memes feitos por torcedores de equipes rivais do que por resultados. A história prova que a verdadeira intenção da Renault é, como se diz no Brasil, ganhar no “tapetão” (sem méritos e por meio de decisões fora dos eventos esportivos). Afinal, se todos os campeonatos forem decididos na justiça, não há necessidade de os carros irem para a pista. Se tem uma coisa que a Renault definitivamente não pode acusar a Racing Point é de agir de má fé, pois nisso a equipe francesa já é especialista.

 

Que coisa, não? [12]

 

9- Bibliografia

 

 

10- Fotos

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A Queda da Williams: Do Auge à Ruína

Em meio à pandemia de Covid-19 que provocou o cancelamento e adiamento de várias corridas de 2020, dois anúncios alarmaram a mídia esportiva. Um deles foi a demissão de Sebastian Vettel da Ferrari. O outro se refere à grave crise financeira que assola a Williams. Outrora campeã, a escuderia inglesa comandada por Claire Williams passou por vários períodos de má administração que culminaram numa potencial falência. Em meio a tantas especulações, desvendaremos os motivos que levaram a Williams à situação atual.

 

1- Origens: do amor de Lady Virginia à primeira crise

 

As origens da Williams provêm de dois amores: o de Virginia Berry por Frank Williams e o dele por carros. Vindo de família pobre, Frank se juntou a um grupo de amigos ricos que amavam corridas. Para conseguir dinheiro, ele trabalhava na compra e venda de peças. Com isso, fundou a Frank Williams Racing Cars em 1966 e ingressou no mercado automobilístico, vendendo carros a pilotos de diversos países da Europa, principalmente para italianos. No ano seguinte, conheceu Virginia, uma moça rica e casada. Os dois começaram um relacionamento e ela se divorciou de seu marido para ficar com Frank. Depois de atuar em algumas rodadas da Fórmula 3, ficando conhecido por seu jeito perigoso e arriscado de direção, Frank transformou a Frank Williams Racing Cars em um time de Fórmula 1, tendo Piers Courage como seu piloto principal.

 

Piers Courage, piloto de confiança de Frank Williams. (Foto: nobresdogrid.com.br) [1]

 

Porém, em 1970, Courage morreu em um trágico acidente no Grande Prêmio da Holanda. Seu falecimento deixou Frank Williams muito triste. Nos anos seguintes, sendo nomeada como Williams FW a partir de 1973, o desempenho da escuderia caiu drasticamente, sendo alvo de críticas por parte da imprensa. Seus carros eram feitos de materiais de segunda mão devido ao baixo orçamento do time. Virginia, com quem Frank se casou oficialmente em 1974, fez muitos sacrifícios para manter a equipe, inclusive vendendo seu próprio apartamento. Porém, tanto a família Williams quanto a escuderia viviam dias de penúria. Com estruturas precárias, os carros não atingiam bons resultados, logo a Fórmula 1 pagava uma quantia baixa de dinheiro à equipe. Consequentemente, não havia muitos recursos a serem investidos na melhora dos carros. Atolado em dívidas, Frank não teve outra escolha a não ser aceitar a oferta do magnata do setor petrolífero Walter Wolf e vender 60% de sua escuderia em 1976. No final daquele ano, Wolf removeu Frank da administração e comprou sua parte, renomeando a escuderia como Walter Wolf Racing.

 

Walter Wolf: primeiro investidor a solucionar uma crise da Williams. (Foto: reporter.si) [2]

 

2- Recomeço: Patrick Head e a nova Williams

 

Em 1977, Frank Williams fez um acordo com a cervejaria belga Belle Vue, patrocinadora do piloto Patrick Nève, e fundou junto com Patrick Head a Williams Grand Prix Engineering Limited. Engenheiro, Head foi um dos responsáveis pelo avanço tecnológico que possibilitou o renascimento da Williams. O primeiro ano do novo time não foi muito animador, terminando a temporada sem pontos. No entanto, tempos melhores estavam por vir.

No ano seguinte, Alan Jones conquistou o primeiro pódio da Williams, com um terceiro lugar no Grande Prêmio dos Estados Unidos. Cinco rodadas depois, na Grã-Bretanha, seu companheiro de equipe, Clay Regazzoni, garantiu a primeira vitória da história da escuderia. Jones foi vitorioso na Alemanha, Áustria, Holanda e Canadá e Regazzoni conseguiu pódios na Itália e Canadá, chegando em terceiro lugar em ambas as corridas. Somando 75 pontos, a Williams se tornou a vice-campeã do campeonato de construtoras, ficando a 38 pontos da primeira colocada Ferrari.

 

Alan Jones: primeiro campeão pela Williams. (Foto: Motorsport) [3]

 

Os anos 80 marcaram o domínio da Williams na Fórmula 1. Tendo Alan Jones e Carlos Reutemann em 1980, a escuderia venceu pela primeira vez tanto o campeonato de pilotos quanto o de construtoras. Jones foi o campeão e Reutemann foi o terceiro colocado. No ano seguinte, a equipe foi novamente campeã de construtoras, com seus pilotos marcando juntos 95 pontos (49 de Reutemann, vice-campeão, e 46 de Jones, terceiro colocado). Em 1982, Keke Rosberg substituiu Jones e foi campeão com 44 pontos. Obtendo seis pódios, Rosberg ficou conhecido como “campeão de uma só vitória”, pois a única corrida que venceu naquele ano foi o Grande Prêmio da Suíça, mas sua constância em pontuar garantiu o título. A Williams foi a quarta no campeonato de construtoras, repetindo a posição no ano seguinte, quando Jacques Laffite substituiu Reutemann.

Ficando em sexto lugar em 1984 e em terceiro em 1985, a Williams voltou a ganhar o campeonato de construtoras em 1986, tendo como pilotos Nigel Mansell e Nelson Piquet (bicampeão com a Brabham em 1981 e 1983). Mansell terminou a temporada como vice-campeão e Piquet foi o terceiro colocado. No ano seguinte, o brasileiro foi o campeão e o inglês foi vice. A Williams conquistava seu quarto campeonato de construtoras. O time terminou a década com um sétimo lugar em 1988 e um segundo lugar em 1989.

 

Nigel Mansell e Nelson Piquet: destaques nos anos de ouro da Williams. (Foto: Esportes em Ação) [4]

 

3- Acidente de Frank e a ascensão de Claire

 

No dia 8 de março de 1986, Frank Williams sofreu um grave acidente de carro na França, ficando tetraplégico. Porém, continuou ativo como diretor da equipe. A escuderia repetiu o sucesso na década de 90, vencendo o campeonato de construtoras em 1992, 1993, 1994, 1996 e 1997, e o de pilotos em 1992 (com Nigel Mansell), 1993 (com Alain Prost), 1996 (com Damon Hill) e 1997 (com Jacques Villeneuve). Em 1994, o time sofreu uma grande perda: Ayrton Senna morreu em um acidente no Grande Prêmio de San Marino.

Pai de Jonathan, Claire e Jaime, Frank não confiava em seus filhos para comandar a escuderia, porém sua filha sempre teve interesse pelos negócios da família. Ingressando em 2002 no departamento de comunicação da escuderia, ela assumiu o posto mais alto do setor oito anos depois. Em 2012, Frank abdicou da função de chefe de equipe e Claire assumiu o cargo no ano seguinte, permanecendo até os dias de hoje. Ela também é responsável pelos departamentos de marketing, de comunicação e pelos negócios comerciais da Williams. Seu irmão Jonathan também trabalha na escuderia. Ele desempenhava funções administrativas até a ascensão de Claire.

 

Claire Williams: filha do fundador e atual CEO da escuderia. (Foto: Pinterest) [5]

 

4- A segunda crise: Toto Wolff salva a equipe

 

No início da década de 2000, a Williams permaneceu em uma boa posição entre as construtoras, ficando em terceiro lugar em 2000 e 2001 e em segundo em 2002 e 2003. A partir de 2004, o desempenho da equipe foi caindo, oscilando entre o quarto e o oitavo lugar até 2009. Durante esse período, pelo menos um piloto saía da Williams por ano. Entre os nomes mais conhecidos do time nessa década se destacam Juan Pablo Montoya, Mark Webber e Nico Rosberg.

Era nítido que havia algo de errado na escuderia. Os acordos com as provedoras de motor Cosworth (2006) e Toyota (2007-2009) não haviam rendido bons resultados. Ganhando menos do que nos anos de glória, a Williams não tinha recursos suficientes para boas atualizações no carro. Porém, em 2009, o empresário Toto Wolff comprou uma parte das ações do time e passou a integrar seu corpo de diretores. Era a oportunidade perfeita para sair da crise.

 

Toto Wolff: segundo salvador da Williams. (Foto: EsporteNET) [6]

 

Em 2010, desiludida com a Toyota, a Williams voltou a usar os motores Cosworth, firmando um acordo de longo prazo. Porém, sem bons resultados, a pareceria acabou no ano seguinte. Em 2012, a equipe passou a utilizar motores Renault, mas o desempenho continuou bem abaixo do esperado. Nesse mesmo ano, Pastor Maldonado garantiu a última vitória da Williams até hoje, no Grande Prêmio da Espanha. Toto Wolff foi nomeado diretor executivo e sua esposa Susie foi contratada como piloto de testes. A Williams tinha a oportunidade de ter oficialmente a primeira mulher na Fórmula 1 desde Desiré Wilson, que correu em 1980. No entanto, entraves internos impediram a realização desse fato, bem como a de mudanças necessárias no departamento de engenharia. Com isso, a Williams oscilou entre o sexto e o nono lugar entre as construtoras entre 2010 e 2013.

 

Vitória de Pastor Maldonado no Grande Prêmio da Espanha de 2012, a última da Williams. (Foto: CarsNB.com) [7]

 

5- Saída de Wolff e terceira crise: Lawrence Stroll salva a equipe

 

Em 2013, vendo-se de mãos atadas, Toto Wolff vendeu suas ações na Williams e se juntou à Mercedes, comprando 30% das ações da escuderia. Claire Williams assumiu a função de chefe de equipe e cargos administrativos. No ano seguinte teve início o domínio da equipe alemã na Fórmula 1 que permanece até os dias de hoje. Em 2014 e 2015, contando com os motores da Mercedes, a Williams voltou para o pódio das construtoras, ficando no terceiro lugar. No entanto, a administração financeira da equipe ainda sofria problemas. Correndo risco de fechar após a temporada de 2016, a qual terminou no quinto lugar, a escuderia precisava de mais investimentos. Entre os pilotos, Felipe Massa anunciou sua aposentadoria no final daquele ano, enquanto Valtteri Bottas permaneceu com o time.

Ainda em 2016, o empresário do setor vestuário Lawrence Stroll, pai do campeão da Fórmula 3 Europeia daquele ano, Lance Stroll, anunciou que investiria na Williams. Lance assumiu a vaga de Massa. Porém, com a aposentadoria de Nico Rosberg, Wolff chamou Bottas, seu apadrinhado, para substituí-lo na Mercedes. Para realizar a transferência, a filha de Frank Williams exigiu a volta de Paddy Lowe à equipe, que assumiu o departamento de engenharia. Segundo relatos de Massa, Claire o chamou por telefone no Natal para voltar ao time no lugar do finlandês.

 

Lance Stroll e seu pai Lawrence, o terceiro salvador da Williams. (Foto: F1Sport.it) [8]

 

Em 2017, a Williams teve um começo mediano. Massa conseguia pontuações razoáveis e Stroll enfrentava dificuldades, com falhas mecânicas na primeira corrida e acidentes causados respectivamente por Sergio Pérez e Carlos Sainz Jr nas seguintes. A mídia passou a atacar o canadense, culpando-o pelos problemas da equipe. Antes mesmo do início da temporada, durante os testes em Barcelona, Claire chegou a culpar as batidas de Stroll pelo cancelamento de um dos testes da equipe, o que incitou torcedores furiosos a atacar o jovem nas redes sociais de maneira covarde e injusta. Lowe sempre o criticava na imprensa. Ao mesmo tempo, a mesma mídia que se encantou com uma mulher na posição de chefe de equipe não teve a mesma reação com a estreia de um piloto indígena na categoria. No entanto, no Grande Prêmio do Azerbaijão, Stroll obteve o único pódio da equipe e o último da Williams até hoje, com um terceiro lugar. Com este resultado, a escuderia passou para o quinto lugar do campeonato, conseguindo uma bonificação maior do que o ano anterior.

 

Pódio de Lance Stroll no Grande Prêmio do Azerbaijão de 2017: o último da Williams. (Foto: Fórmula 1) [9]

 

Infelizmente, a contribuição de Stroll para o time não foi reconhecida devidamente. Em 2018, após a aposentadoria definitiva de Massa, a Williams contratou Sergey Sirotkin para substituí-lo. Mesmo com o ingresso de mais um patrocinador, o banco russo SMP, o departamento de engenharia não soube traduzir o investimento em melhorias no carro. Consequentemente, os dois pilotos tiveram muita dificuldade em conseguir pontuações. Isentando os engenheiros de culpa pelo fraco rendimento dos carros, a mídia voltou a atacar Stroll. Alguns jornalistas ignoraram a ética jornalística (ensinada nas faculdades) e chegaram a usar termos passíveis de processo, como “pilotos de talento questionável”, ignorando os feitos de Stroll no ano anterior e nas competições anteriores à sua estreia na Fórmula 1 e desconsiderando a falta de experiência de Sirotkin. A mídia simplesmente se “esqueceu” que quem faz os carros são os engenheiros, não os pilotos, que o orçamento da equipe provém dos patrocinadores (portanto investidores são sempre bem-vindos) e jornalistas utilizaram a falácia argumentum ad hominem para atacar os pilotos e inocentar Claire Williams e Paddy Lowe (ver 11º item da bibliografia).

 

Paddy Lowe, diretor técnico da Williams de 2017 a 2019. (Foto: Jornal Cruzeiro do Sul) [10]

 

6- Saída de Stroll e quarta crise: as máscaras começam a cair

 

Na segunda metade de 2018, Lawrence Stroll montou um consórcio de investidores e comprou a equipe Force India, cujo dono Vijay Mallya era procurado pelas autoridades indianas por suspeita de corrupção. Mesmo ciente das dificuldades enfrentadas por seu filho com um carro nada competitivo e de sua crucificação na mídia, Lawrence manteve Lance na Williams até o final do ano. O canadense se mudou para a nova equipe, renomeada como Racing Point, no ano seguinte (ver Entenda o caso Esteban Ocon).

Com Stroll fora do time, a Williams perdia seu maior bode expiatório. Os críticos, crentes que o empresário canadense e seu filho eram os culpados pela crise na equipe, acreditavam que as novas contratações levariam a escuderia de volta aos tempos áureos. No entanto, com a saída de Stroll, a Williams teve o pior desempenho de sua história. Robert Kubica foi o único a pontuar, marcando apenas um ponto no Grande Prêmio da Alemanha. George Russell, apadrinhado de Toto Wolff, terminou o ano sem pontos. No entanto, nenhum órgão de imprensa o chamou de “piloto pagante”, mesmo vindo de família rica e não tendo chances de justificar o investimento em seu trabalho, gerando suspeitas de racismo por parte da mídia (ver O Caso Lance Stroll: Um Indígena na Fórmula 1).

 

George Russell: branco e europeu, não é criticado pela mídia mesmo não conseguindo pontuar. (Foto: AutoSport) [11]

 

Amargando na lanterna do campeonato com a menor bonificação de sua história, a Williams se encontrou novamente numa grave crise. Logo no início de 2019, vendo que a mídia agora não tinha mais como culpar Stroll e que Russell e Kubica não conseguiam sair dos últimos lugares, Lowe pediu afastamento de suas funções alegando motivos pessoais. O departamento de engenharia continuou falhando em suas funções, sendo o caso mais notável o atraso em meses do volante adaptado de Kubica. Finalmente a pressão caiu sobre Claire. Kubica foi demitido no final do ano e Nicholas Latifi, piloto canadense de ascendência iraniana, foi escolhido como seu substituto. Latifi nem havia estreado e alguns torcedores o acusaram de ser pagante e fizeram ofensas xenofóbicas ao Canadá. Não houve sequer pronunciamento da Williams a respeito disso.

 

Nicholas Latifi: nem estreou e os torcedores raivosos já o culpam pela quarta crise da Williams. (Foto: tomadadetempo.com) [12]

 

Em 2020, em meio à paralisação das atividades das escuderias devido à pandemia de Covid-19, Claire admitiu a possibilidade de venda total da Williams. Toto Wolff adquiriu 5% das ações do time em junho.

 

7- Afinal, de quem é a culpa?

 

Diferente do que alguns jornalistas tentam incutir na cabeça dos torcedores, a culpa pela crise da Williams NÃO é de Lawrence Stroll, muito menos de Lance Stroll, e nem de nenhum outro investidor ou piloto a quem a mídia tenta nomear desonestamente como “pagante”. A culpa é de ninguém a não ser a própria Claire Williams. Por ser filha do fundador da escuderia e gestora após o acidente do mesmo, Claire deveria administrar melhor a parte financeira para assegurar o controle do time em suas mãos. No entanto, os gastos excessivos que não foram traduzidos em resultados nas pistas levaram a escuderia a depender de investimentos externos. Ora, se o problema da Williams era dinheiro, como que a culpa pode ser de quem colocou dinheiro em seu caixa? Toto Wolff e Lawrence Stroll nada fizeram além de AJUDAR o time inglês no momento em que este mais precisava de auxílio. Pilotos e investidores não fazem carros, engenheiros fazem, e o departamento de engenharia comandado por Paddy Lowe teve dinheiro suficiente para desenvolver um bom projeto, mas falhou consideravelmente.

O fato de Lance ser filho de Lawrence não quer dizer absolutamente nada no assunto da crise financeira da Williams. A participação do piloto indígena garantiu à escuderia o quinto lugar do campeonato de construtoras em 2017 graças a seu terceiro lugar no Grande Prêmio do Azerbaijão, justificando o investimento de seu pai na equipe. É óbvio que o desempenho do carro é responsabilidade do engenheiro e o controle financeiro compete aos donos da equipe, mas muitos não enxergam isso e, por ignorância ou falta de caráter, jogam a culpa em Stroll. A insistência da mídia em querer culpá-lo por todos os problemas que acontecem na Fórmula 1 atual, desde questões internas das escuderias até as da categoria como um todo, reflete dois fenômenos que acompanham a história da humanidade e foram responsáveis pelas maiores tragédias.

 

Essa frase de Einstein diz muito sobre o modo como a mídia trata Lance Stroll. (Foto: Pensador) [13]

 

Um deles é o antissemitismo, pois os grupos poderosos sempre tentaram culpar os judeus pelas mazelas do mundo e o fazem até hoje. Como a sociedade atual é mais consciente do problema da discriminação, a mídia apenas acusa Stroll e omite sua origem étnica (o motivo da perseguição) para não correr o risco de ser retaliada pela opinião pública. Alguns torcedores aceitam o discurso por compactuarem com essas ideias, outros são enganados facilmente, refletindo o que foi previsto por Theodor Adorno no século XX: há pessoas que aceitam passivamente tudo o que a mídia diz, sem questionar nada. No século XXI, Ben Shapiro comprovou a existência dessa face da mídia, notando que a mesma ignora os fatos e apresenta a narrativa como bem entender para cumprir sua agenda.

O outro fenômeno é o racismo estrutural. Mesmo com boas condições financeiras, Lance Stroll ainda pertence a grupos minoritários (pois é judeu e indígena), e a mídia tenderá a favorecer os grupos historicamente privilegiados (europeus e brancos). Com isso, comprovando a análise de Shapiro, ela ignora a incompetência administrativa de Claire Williams para jogar a culpa em Stroll, mesmo sem argumentos ou provas. Seu discurso acaba prevalecendo porque muitos torcedores não querem pensar, pois é mais cômodo aceitar o que é dito sem averiguar os fatos. Para alguns, pode parecer absurdo que discussões raciais sejam feitas no contexto da Fórmula 1, principalmente se tratando da falência de uma escuderia. No entanto, é humanamente impossível ignorar a perseguição doentia e injusta que a mídia e alguns torcedores fazem com Lance Stroll e os motivos devem sim ser desmascarados.

 

8- Conclusão

 

O mau gerenciamento financeiro da Williams colocou a equipe em quatro crises ao longo de sua história. Mesmo com bons investimentos e patrocinadores, o departamento de engenharia falhou sucessivamente em atualizar o carro para que os pilotos pudessem lutar por boas posições e colocar a equipe de volta ao topo do campeonato. A mídia preferiu culpar quem estava ajudando em vez dos responsáveis pela ineficiência do carro. O clima interno hostil afasta potenciais investidores, sob o temor de enfrentar entraves nas decisões (e se pertencer a uma minoria étnica, corre o risco de ser crucificado pela imprensa e torcedores e culpado por questões fora de sua responsabilidade). Logo, para a Williams só resta a venda da escuderia ou aprender com o passado e realizar uma mudança radical na sua postura.

 

Problema da Williams: sempre morde a mão que a alimenta. [14]

 

Atualização: No dia 21 de agosto de 2020 foi anunciada a venda total da Williams para o grupo americano Dorilton Capital.

 

9- Bibliografia

 

 

10- Fotos

Obs.: Nenhuma das fotos inseridas neste artigo, exceto a montagem, pertence a mim. Este site possui fins informativos, não comerciais. Abaixo estão indicados os links de onde tirei as fotos. Todos os direitos reservados.

 

A Demissão de Sebastian Vettel: Justiça ou Injustiça?

No dia 12 de maio de 2020, a Scuderia Ferrari anunciou que o contrato do piloto alemão Sebastian Vettel não seria renovado. O desempenho de Vettel nos últimos anos se destacou por duas principais características: suas disputas pelo título em 2017 e 2018 e seus acidentes constantes. Em 2019, o alemão ficou atrás de seu companheiro, o monegasco Charles Leclerc, nos resultados finais, sendo que Leclerc estava em seu segundo ano de carreira e primeiro com a equipe de Maranello.

Durante a temporada de 2018, alguns torcedores chegaram a cogitar que uma aposentadoria do alemão seria mais indicado para ele. Outros usavam o passado glorioso de Vettel como tetracampeão para justificar sua permanência na Fórmula 1. Então, afinal, a decisão da Ferrari foi justa ou injusta? Para responder a essa dúvida, vamos fazer um retrospecto da carreira de Sebastian Vettel e avaliar se seu desempenho era digno dos investimentos da Ferrari.

 

1- O começo: um jovem talento ingressa na Fórmula 1

 

Sebastian Vettel estreou na Fórmula 1 no Grande Prêmio dos Estados Unidos de 2007 pela Sauber, substituindo o polonês Robert Kubica, que havia sofrido um grave acidente na etapa anterior, no Canadá. Vettel chegou em oitavo lugar, o último da zona de pontuação da época, marcando um ponto. No mesmo ano, foi contratado pela Toro Rosso para continuar a temporada a partir do Grande Prêmio da Hungria. Sua segunda e última pontuação em 2007 foi um quarto lugar no Grande Prêmio da China. Terminou o campeonato no 14º lugar, com seis pontos.

A partir de 2008 a estrela de Vettel começou a brilhar mais. Pontuando em nove corridas, o alemão teve uma vitória triunfante no Grande Prêmio da Itália, sendo a primeira vez que um piloto da Toro Rosso vencia uma corrida. Nessa mesma etapa, quebrou dois recordes: “mais jovem piloto a obter uma pole position” e “mais jovem piloto a vencer largando da pole position”. Terminou 2008 no oitavo lugar do campeonato, com 35 pontos.

 

Primeira vitória de Sebastian Vettel, no Grande Prêmio da Itália de 2008. (Foto: MAXF1.net) [1]

 

2- Juntando-se à Red Bull: o ápice e a queda

 

Em 2009, Vettel foi contratado pela equipe Red Bull Racing. Quebrou mais dois recordes: “mais jovem piloto a fazer um hat-trick” (pole position, vitória e volta mais rápida) e “mais jovem vice-campeão”. Com quatro vitórias, oito pódios e mais quatro pontuações, fez 84 pontos, 11 a menos que o campeão Jenson Button, da Brawn. Seus resultados foram tão impressionantes que ele se tornou a aposta da Red Bull para a disputa pelo título.

Correndo ao lado do australiano Mark Webber, seu companheiro desde seu primeiro ano na equipe austríaca, Sebastian Vettel se consagrou campeão por quatro anos consecutivos. Em 2010, com cinco vitórias, 10 pódios e mais cinco pontuações, marcou 256 pontos e garantiu o primeiro título de um piloto da Red Bull. Em 2011, conquistou 392 pontos, resultantes de 11 vitórias, 17 pódios e mais uma pontuação. No ano seguinte, teve 281 pontos, cinco vitórias, 10 pódios e mais sete pontuações. Seu último título foi conquistado em 2013, com 13 vitórias, 16 pódios e mais duas pontuações. O tetracampeonato de Vettel significou duas coisas para a Red Bull: o departamento de engenharia acertou no desenvolvimento de seu motor turbo e a equipe tinha em mãos um dos pilotos mais talentosos da história do esporte.

 

Vitória de Sebastian Vettel no Grande Prêmio da Alemanha de 2013. (Foto: Motor Authority) [2]

 

Nos anos de seu tetracampeonato, Vettel quebrou nove recordes que mantém até hoje. Em 2010 quebrou o de “mais jovem campeão”, aos 23 anos. Em 2011, quebrou os de “mais chegadas ao pódio em uma temporada” (17 no total), “mais pole positions em uma temporada” (15 no total), “mais voltas lideradas em uma temporada” (739 no total), “mais vitórias partindo da pole position em uma temporada” (nove ao todo) e de “mais jovem piloto a fazer um grand slam” (pole position, vitória, volta mais rápida e liderança em todas as voltas). Em 2013, quebrou os recordes de “mais vitórias consecutivas” (nove no total), “mais grand slams consecutivos” (totalizando dois), e “mais vitórias em uma temporada” (totalizando 13). Vettel ainda conseguiu mais três recordes, “mais jovem a liderar pelo menos uma volta”, “mais jovem a conseguir um pódio” e “mais jovem a vencer um grande prêmio”, mas estes foram superados anos depois por Max Verstappen. Com estes feitos, Vettel foi considerado o maior vencedor da era turbo da Fórmula 1.

 

Com a Red Bull, Sebastian Vettel conseguiu quatro campeonatos e nove recordes mantidos até hoje. (Foto: Sports Mole) [3]

 

Mas em 2014, a situação mudou drasticamente. Com a saída de Mark Webber, a equipe escolheu o também australiano Daniel Ricciardo para substitui-lo como companheiro de Vettel. Se antes o domínio do alemão era certeiro, ele passou a ser preterido pela equipe em favor do novo companheiro. O carro de Vettel em 2014 tinha pouca potência para atingir os resultados dos anos anteriores, provocando quatro abandonos. Em contrapartida, o de Ricciardo desfrutava de perfeitas condições, permitindo inclusive sua primeira vitória, no Grande Prêmio do Canadá. Conseguindo apenas quatro pódios e mais 12 chegadas à zona de pontuação, Vettel terminou o ano no quinto lugar do campeonato, com 167 pontos. Ricciardo ficou em terceiro lugar, com 238 pontos. No mesmo ano que a Red Bull resolveu dar preferência a um novo piloto, a equipe perdeu a liderança na Fórmula 1, e o título de Lewis Hamilton (segundo da carreira) começou o domínio da Mercedes, que dura até hoje.

 

A preferência da Red Bull por Daniel Ricciardo não só prejudicou a temporada de 2014 de Sebastian Vettel, como permitiu que a Mercedes fosse a nova equipe dominante. (Foto: Marca) [4]

 

3- Ida à Ferrari: bom negócio?

 

Vendo a decepção de Vettel com a Red Bull, a Ferrari lhe fez uma proposta para se juntar ao time italiano no lugar do espanhol Fernando Alonso. A escuderia sediada em Maranello estava desde 2007 sem ganhar o campeonato de pilotos e desde 2008 sem ganhar o de construtoras. Descontentes com o fracasso de Alonso, os dirigentes da Ferrari apostavam no jovem tetracampeão para trazer de volta os tempos de glória da equipe.

O contrato de Vettel com a Red Bull terminaria no final de 2015, mas a Ferrari pagou sua rescisão para tê-lo em seu time. Correndo ao lado do finlandês Kimi Räikkönen, último campeão pela escuderia italiana, o alemão voltou ao top-3 dos pilotos. Conquistando três vitórias, 13 pódios e mais quatro pontuações, terminou o ano no terceiro lugar do ranking, com 278 pontos, 44 a menos que o vice-campeão Nico Rosberg e 103 a menos que o campeão Lewis Hamilton (ambos da Mercedes). Embora sem conseguir outro título, a posição em 2015 foi um alívio para Vettel, pois estava em um carro mais competitivo, sendo a prioridade da equipe, e estava mais perto de competir pelo troféu de campeão.

 

Com a Ferrari, Sebastian Vettel recuperou as chances de lutar pelo título. (Foto: O Globo) [5]

 

Mas em 2016, o destino trouxe mais um grande rival: Max Verstappen. O holandês havia estreado pela Toro Rosso em 2015, e no ano seguinte foi promovido para a Red Bull no lugar do russo Daniil Kyvat (demitido pelo fraco desempenho e seus acidentes constantes, inclusive prejudicando Vettel, como no Grande Prêmio da Rússia). Verstappen tinha as mesmas características do piloto alemão: era jovem, destemido, arrojado, corajoso e não tinha medo de correr riscos. Responsável por quebrar três recordes que pertenciam a Vettel, o holandês travou intensas disputas com o piloto da Ferrari. As mais emblemáticas foram as disputas pelo pódio do Grande Prêmio do México e pelo quinto lugar do Grande Prêmio do Brasil (o qual Verstappen terminou em terceiro lugar). O jovem quase superou Vettel no campeonato, ficando a apenas oito pontos do alemão, que terminou o ano no quarto lugar do ranking, com 212 pontos.

Em 2017, Vettel voltou a se destacar, iniciando o campeonato com uma vitória no Grande Prêmio da Austrália. A disputa pelo título com Hamilton se manteve equilibrada por 13 corridas, com o alemão levando uma certa vantagem. Porém, no Grande Prêmio de Singapura, a ânsia da Ferrari por vitória acabou prejudicando seu piloto principal. Largando da pole position, ao lado de Max Verstappen, Vettel e Räikkönen fecharam o holandês o que provocou uma batida tripla. Os três pilotos tiveram que abandonar a prova e a vitória caiu no colo de Hamilton. Com a liderança do britânico, Vettel precisava vencer o Grande Prêmio do México e torcer para que Hamilton chegasse no máximo em nono lugar para se firmar campeão. Porém, mais uma disputa com Verstappen frustra os planos do alemão. O holandês lhe tomou a liderança e os dois tiveram um toque. Enquanto Verstappen continuou normalmente, Vettel acabou se chocando com Hamilton e os dois foram para os últimos lugares. O piloto da Ferrari terminou a prova em quarto lugar, já o inglês cruzou a linha de chegada em nono, garantindo o título daquele ano. Vencendo pela última vez no Grande Prêmio do Brasil, Vettel encerrou 2017 como vice-campeão, com 317 pontos resultantes de cinco vitórias, 12 pódios e mais cinco pontuações.

 

Acidente no Grande Prêmio de Singapura de 2017 envolvendo Sebastian Vettel, Kimi Räikkönen e Max Verstappen. (Foto: Busy.org) [6]

 

O ano de 2018 foi semelhante ao anterior. Vettel começou o campeonato com duas vitórias consecutivas (na Austrália e no Bahrein). Porém, a partir do Grande Prêmio da China, no qual teve um toque com Verstappen que o levou para o oitavo lugar, sua sorte começou a mudar. Naquele ano, Vettel se envolveu em uma série de acidentes que lhe custaram pontos preciosos para disputar o título. No Grande Prêmio da França, colidiu com o finlandês Valtteri Bottas, já no da Alemanha, apesar da equipe facilitar seu trabalho, ordenando ao companheiro Räikkönen que lhe cedesse a liderança, bateu no muro e abandonou a prova. No Grande Prêmio do Japão, arriscou a sorte em uma briga com Verstappen que o fez deixar momentaneamente a pista, terminando a corrida no sexto lugar. Ao todo, Vettel teve cinco vitórias, 12 pódios e mais oito pontuações em 2018, firmando-se vice-campeão mais uma vez, com 320 pontos.

Em 2019, Kimi Räikkönen foi substituído por Charles Leclerc. Apesar de muitos jornalistas e torcedores especularem que o novo piloto traria uma ameaça a Vettel, velhos conhecedores da Ferrari já sabiam que a equipe priorizaria o alemão e fariam do monegasco seu escudeiro (tal como fez com Rubens Barrichello e Felipe Massa no passado). Logo na primeira corrida do ano, na Austrália, apesar do carro de Leclerc ter um rendimento melhor, a Ferrari não permitiu que ele ultrapassasse Vettel (o mesmo ocorreu duas etapas depois, na China). Por essa razão, Leclerc ganhou o apelido de “Cinderela”. No entanto, Vettel não justificou a predileção de sua equipe por ele em 2019: só conseguiu uma vitória, em Singapura, que ainda lhe rendeu a polêmica acusação de ser ajudado pela Ferrari (que trocou seus pneus antes dos de Leclerc), além de oito pódios e mais sete pontuações. A principal marca de Vettel em 2019 foram seus acidentes, notadamente a batida com Hamilton no Grande Prêmio do Canadá, a colisão proposital com Verstappen no Grande Prêmio da Grã-Bretanha, com Lance Stroll no Grande Prêmio da Itália, e com Leclerc no Grande Prêmio do Brasil. No segundo e terceiro casos, Vettel apenas ficou entre as últimas posições, inclusive levando punição, já no último causou um duplo abandono ferrarista que alarmou a equipe. Terminando o ano no quinto lugar, com 240 pontos, Vettel ficou uma posição e 24 pontos atrás do companheiro.

 

4- De herói a zerói: qual foi o erro de Sebastian Vettel?

 

Conquistar um título na Fórmula 1 não é uma tarefa fácil. Os especialistas são praticamente unânimes em dizer que a chave para o sucesso no automobilismo é a soma do talento do piloto com o bom desempenho do carro. De nada adianta um carro potente se o piloto não tem garra para levá-lo ao título (Valtteri Bottas é um exemplo), assim como não adianta o piloto ser talentoso se o desempenho do carro não corresponde (Max Verstappen é um exemplo). As conquistas de Vettel (recordes, vitórias e títulos) provam seu talento. Ferrari e Red Bull são consideradas equipes de ponta (apesar de ultimamente o time austríaco estar bem diferente do que era na época que o alemão era seu piloto principal). Então como explicar tamanha queda em tão pouco tempo?

A resposta é simples: autocontrole. Este é um ingrediente importante na receita de um campeão. Um grande exemplo de como isso funciona é o Grande Prêmio da Malásia de 2017. Lewis Hamilton disputava o título com Vettel e havia largado da pole position. Porém, um Verstappen cheio de fúria lutava pela liderança. Hamilton preferiu não oferecer muita resistência, pois preferia garantir um segundo lugar, manter uma série constante de pontuações e firmar o título do que disputar a vitória e arriscar um acidente, dando chances para seu concorrente superá-lo. Vettel não pensa da mesma maneira. O alemão é deveras impulsivo e arrisca até o último segundo, provocando acidentes desnecessários e perdendo pontos significativos. Quando esta disputa acontece com outro piloto impulsivo, como Verstappen, o estrago é ainda maior. Quem sabe o campeonato de 2017 não teria terminado de outro jeito se Vettel e Räikkönen não tivessem armado aquele fechamento em cima de Verstappen para tentar assustá-lo?

 

Batida de Sebastian Vettel no Grande Prêmio da Alemanha de 2018. Erros bobos lhe custaram a chance de vencer mais três títulos. (Foto: Goodwood) [7]

 

A estratégia também é importante para se vencer um jogo. Fórmula 1 é um esporte coletivo, que depende da interação entre o piloto e sua equipe (esta dividida em seus vários departamentos e funcionários, como engenheiros, mecânicos, estrategistas, entre outros). Arrojo e coragem são sim fatores relevantes para uma carreira bem sucedida, mas até mesmo em situações extremas, como numa disputa de posições, é preciso pensar bem antes de agir. Uma boa estratégia seria reunir a equipe antes das corridas para discutir como proceder em situações hipotéticas e colocar em prática o que foi discutido antes.

O erro principal de Sebastian Vettel foi deixar suas emoções tomarem conta da razão. Acidentes como o dos Grandes Prêmios da Grã-Bretanha e do Brasil de 2019 foram nitidamente resultados da raiva do piloto por ser ultrapassado por seus rivais (respectivamente Verstappen e Leclerc). Vettel deveria seguir o exemplo da prudência de Hamilton se quiser voltar a ganhar títulos.

 

5- Conclusão

 

A Ferrari percebeu que não vale mais a pena gastar seus investimentos em um piloto que, apesar de talentoso, sempre mete os pés pelas mãos. É provável que Charles Leclerc seja a nova aposta do time, que contratará outro piloto para ser seu escudeiro (fontes especulam sobre o nome de Carlos Sainz Jr.). Sebastian Vettel, por sua vez, tem dois caminhos possíveis: ou a aposentadoria, ou uma equipe mais fraca (embora Toto Wolff já tenha mostrado certo interesse por ele na Mercedes, mas não se sabe se Vettel aceitaria ser companheiro de Lewis Hamilton). A dispensa do tetracampeão foi resultado de sua impulsividade, que mais o atrapalhou do que ajudou. No entanto, não seria justo ignorar os feitos de Vettel, que deixou seu legado na Fórmula 1 como um piloto arrojado e destemido, que traduziu sua coragem em quatro títulos. A lição mais importante que ele deixa para os novos talentos no esporte é a de que vale muito mais a pena pensar antes de agir do que arriscar tudo, pois você pode perder a última chance de brilhar.

 

Fontes

 

 

Fotos

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O Caso Max Verstappen: Muito Piloto Para Pouca Equipe

Max Verstappen é uma das estrelas da Fórmula 1 atual. Detentor de seis recordes oficiais (entre eles o de “mais jovem vencedor de um Grande Prêmio”), destaque em corridas emocionantes e com vários pódios e vitórias em poucos anos de experiência, o piloto holandês surpreendeu os torcedores ao anunciar no dia 7 de janeiro de 2020 que havia renovado seu contrato com a Red Bull Racing até 2023. Enquanto alguns elogiam a decisão, outros criticam a escolha, se indagando o porquê de Verstappen não aceitar propostas de equipes melhores. A análise desse caso você confere a partir de agora.

 

1- A carreira de Max: surge uma estrela

 

Filho mais velho do ex-piloto holandês Jos Verstappen e da kartista belga Sophie Kumpen, Max Verstappen começou a carreira automobilística aos 4 anos de idade, em competições de kart regionais. Aos 17 anos, depois de terminar a Fórmula 3 Europeia de 2014 em terceiro lugar, foi contratado pela Scuderia Toro Rosso para competir na Fórmula 1 no ano seguinte. Em sua estreia, no Grande Prêmio da Austrália, quebrou o recorde de “mais jovem piloto a estrear em uma corrida de Fórmula 1”, que antes pertencia a Jaime Alguersuari. Na corrida seguinte, na Malásia, quebrou o recorde de “mais jovem piloto a pontuar na Fórmula 1”, que anteriormente era de Daniil Kvyat. Verstappen terminou seu ano de estreia pontuando 10 vezes, totalizando 49 pontos em 19 corridas, além de ser premiado pela FIA como “Estreante do Ano” e “Personalidade do Ano” e sua ultrapassagem sobre Felipe Nasr na Bélgica lhe rendeu o prêmio de “Ação do Ano”.

Todas essas conquistas foram essenciais para que em 2016 a Red Bull escolhesse Verstappen para substituir Kvyat, cujos resultados estavam abaixo do esperado. O holandês não decepcionou e conseguiu sua primeira vitória no Grande Prêmio da Espanha, quebrando os recordes de “mais jovem líder, por pelo menos uma volta na Fórmula 1”, “mais jovem piloto a conseguir um pódio na Fórmula 1” e “mais jovem vencedor de um Grande Prêmio”, todos que anteriormente pertenciam a Sebastian Vettel. Na Bélgica, quebrou o recorde de “mais jovem piloto a largar da primeira fila”, que no ano seguinte foi quebrado por Lance Stroll. No Brasil, quebrou o recorde de “mais jovem piloto a fazer a volta mais rápida na Fórmula 1”, que antes pertencia a Nico Rosberg. No final daquele ano, com a aposentadoria de Rosberg, o chefe de equipe da Mercedes, Toto Wolff, estava à procura de um substituto para o alemão. Noticiou-se que ele entrou em contato com Jos Verstappen várias vezes para conversar sobre Max, mas o jovem continuou com a Red Bull. Wolff contratou seu apadrinhado Valtteri Bottas, que corria pela Williams, para assumir o segundo assento da equipe.

 

Vitória de Max no Grande Prêmio da Espanha de 2016.

 

Se 2016 foi um ano maravilhoso, no qual Verstappen pôde expor suas habilidades, 2017 foi decepcionante. Em 20 corridas, teve sete abandonos, mas nenhum por sua culpa. O primeiro foi no Bahrein, onde um problema nos freios o tirou da prova. O segundo foi na Espanha, onde Bottas colidiu com Verstappen e Kimi Raikkonen, tirando ambos da corrida. O terceiro foi no Canadá, onde uma falha elétrica desligou seu carro. O quarto ocorreu no Azerbaijão devido a um problema no óleo. O quinto foi causado por Kvyat, que colidiu com o holandês e com Fernando Alonso na Áustria. O sexto ocorreu na Bélgica, onde seu carro desligou no meio da corrida. No sétimo e último abandono, Verstappen foi esmagado pelos pilotos da Ferrari, Vettel e Raikkonen, e depois foi lançado para fora da pista pela reentrada perigosa do finlandês. Desapontado com a inconsistência de seu carro, contrastando com o bom desempenho do carro de seu companheiro Daniel Ricciardo, Verstappen teve momentos de fúria com sua equipe. Cientes da situação, Toto Wolff e Maurizio Arrivabene, chefe de equipe da Ferrari, entraram em contato com Jos para discutir o futuro do jovem prodígio. Estava nítido que a Red Bull não teve competência para produzir igualmente um carro vencedor para seus dois pilotos e Max estava sendo sacrificado. Wolff não estava satisfeito com a incapacidade de Bottas de competir de igual para igual com Lewis Hamilton (dando uma brecha para a Ferrari renascer como uma concorrente ao título) e Arrivabene buscava alguém para o lugar de Raikkonen, que estava perto de deixar o time. No entanto, Verstappen preferiu dar uma chance à equipe austríaca e assinou um contrato com cláusula de saída. Apesar das dificuldades, conseguiu duas vitórias, sendo uma na Malásia e uma no México.

 

Acidente do Grande Prêmio de Singapura de 2017.

 

Em 2018 a situação se alterou. A Red Bull sabia que Max abriu mão de boas propostas para continuar com os austríacos, e decepcioná-lo significaria sua partida. O carro apresentou mais estabilidade, mas ainda não era potente o bastante para que a Red Bull se firmasse como uma ameaça à hegemonia da Mercedes, conseguindo apenas duas vitórias, na Áustria e no México. No entanto, o carro de Ricciardo apresentou muitas falhas, comprometendo o desempenho do australiano. O anúncio de que a Red Bull usaria os motores da Honda a partir do ano seguinte provocou desconfianças em Ricciardo, que assinou com a Renault para temporada de 2019. Verstappen preferiu não usar a cláusula de saída e continuou na equipe, que prometia um trabalho árduo com a Honda em torno do holandês.

A promessa foi cumprida de uma maneira bem morna, pois mesmo Verstappen sendo promovido ao posto de primeiro piloto, a Mercedes não sentiu nem a ponta das garras da Red Bull. Para piorar, a contratação de Pierre Gasly tornou-se um fracasso, pois o francês era incapaz de enfrentar os pilotos da Ferrari, que não estavam em boa fase no começo do ano, e impediu que a Red Bull conquistasse o vice-campeonato de construtoras. Com Verstappen carregando o time nas costas, o diretor Helmut Marko decidiu substituir Gasly por Alexander Albon, da Toro Rosso, algo similar ao que havia acontecido entre Kvyat e Max em 2016. Apesar de três boas vitórias, na Alemanha, na Áustria e no Brasil, Verstappen enfrentou falta de potência em corridas que poderiam compensar o déficit causado por Gasly, como na Rússia, em que seu carro não conseguiu alcançar o de Charles Leclerc. O término de seu contrato estava previsto para 2020, mas o holandês decidiu renová-lo para 2023.

 

2- Red Bull: gloriosa no passado, decadente no presente

 

A Red Bull Racing surgiu como escuderia de Fórmula 1 em 2004 após a empresa homônima comprar a escuderia Jaguar, cujo um de seus sócios era o tricampeão Jackie Stewart. O auge da equipe ocorreu entre os anos de 2010 e 2013, no qual Sebastian Vettel garantiu o tetracampeonato para a escuderia, derrotando a McLaren de Lewis Hamilton e a Ferrari de Fernando Alonso.

Nesse período, a categoria empregava o turbo em seus carros e a Red Bull foi capaz de montar um chassi que respondesse ao trabalho do motor. Vettel dominou as temporadas sentindo pouco perigo vindo de seus adversários. Hamilton se decepcionava com a McLaren e a Ferrari sentia o amargor de não vencer um campeonato de pilotos desde 2007 e de construtoras desde 2008. Em 2014, com a proibição do turbo, o cenário da Fórmula 1 mudou consideravelmente. O australiano Mark Webber, até então companheiro de Vettel, deu lugar ao conterrâneo Daniel Ricciardo, enquanto o austríaco Christian Horner assumia o papel de chefe de equipe. O carro do tetracampeão passou por uma sequência de quebras que impediram sua pontuação. Apesar de sua primeira vitória na carreira, Ricciardo não conseguiu muitos feitos e a Red Bull viu a ascensão de Hamilton na Mercedes e o domínio da escuderia alemã que dura até os dias de hoje.

Para os que não se lembram da sequência de falhas técnicas no carro de Vettel, fica a impressão de que Ricciardo venceu o companheiro por ter mais talento. Os críticos do alemão utilizam a temporada de 2014 até hoje como justificativa para afirmar que Vettel deveria se aposentar e que seus títulos são mais um produto do motor turbo do que de seu talento. No entanto, o fracasso em 2014 são significa a derrocada de Vettel. Sentindo-se traído e preterido pela equipe, ele assinou com a Ferrari para o ano de 2015, com a escuderia italiana se comprometendo a pagar por sua quebra de contrato com o time austríaco.

 

Daniel Ricciardo e Sebastian Vettel na Red Bull. A saída do alemão foi o começo da decadência da escuderia.

 

Com Vettel na Ferrari, a Red Bull contratou Daniil Kvyat para correr ao lado de Ricciardo. Porém, nenhum dos dois trouxe de volta a glória dos tempos do alemão. Kvyat ganhou a fama de ser um “barbeiro” e seus acidentes lhe custaram a vaga na equipe principal e a confiança dos dirigentes. Ricciardo deu a impressão de ser um “piloto burocrata”, pois não costumava batalhar por posições maiores. Max Verstappen não era apenas um substituto de Kvyat aos olhos da Red Bull, mas sim uma oportunidade de voltar à posição de campeã, já que o holandês apresentava todas as virtudes encontradas em Vettel: determinação, arrojo, coragem, persistência, entre outras.

No entanto, só é possível vencer um campeonato se há um equilíbrio entre o talento do piloto e o do departamento de engenharia. O atleta não pode ter medo de desafios, mas também deve ter prudência para evitar acidentes. O carro precisa corresponder ao desempenho do piloto, logo falhas elétricas, no motor, nos freios, no óleo ou em qualquer outra parte são inadmissíveis. O que parece óbvio para os torcedores parece não ser para a Red Bull. O arrojo de Max é constante, pois é nítido que ele sempre tenta superar seus adversários, não importa a situação. É um piloto que não se contenta com pontos ou pódios, pois busca a vitória. Seu carro, no entanto, é o mais fraco entre as chamadas “equipes de ponta”. A pergunta que fica no ar é: “Como que em sã consciência alguém pode se dizer fã de Max Verstappen e perdoar a Red Bull pelas quebras em 2017 e por proporcionar a ele uma média de apenas duas vitórias por ano?”.

 

3- Fidelidade vs. Conquistas

 

A primeira renovação de contrato de Max Verstappen com a Red Bull em 2017 já havia sido uma grande surpresa. Naquele ano, alguns veículos de imprensa começavam a questionar o talento do holandês, ignorando os verdadeiros responsáveis pelos abandonos. Isso aconteceu porque memória de jornalista esportivo incompetente é igual memória de eleitor: curta. Diferente de Sebastian Vettel, que percebeu as dificuldades da equipe e mudou-se para a Ferrari, Verstappen estava dando mais uma chance ao time que propiciou uma atmosfera artificial de desconfiança em torno de um piloto que não precisa provar mais nada.

Max nunca detalhou os motivos pelos quais escolheu continuar com o time austríaco, limitando-se a dizer que confiava no que a escuderia planejava para ele. O contrato oferecido era bem interessante: o holandês ficaria até 2020 com a Red Bull, mas uma cláusula de saída lhe dava a liberdade de escolher outra equipe caso suas expectativas não fossem atingidas. Em outras palavras, a Red Bull estava ciente que Verstappen havia recusado ótimas chances em outras equipes e se disponibilizaria a arcar com as consequências da escolha do holandês.

 

A instabilidade do carro da Red Bull custou vitórias e pontos para Verstappen. Mesmo assim, ele se recusa a deixar a equipe.

 

Logo, em 2018, acreditava-se que a Red Bull trabalharia duro para produzir um carro à altura do talento de Max para que ele tivesse a chance de competir pelo título com Lewis Hamilton e Sebastian Vettel. Embora seus resultados tenham sido satisfatórios, Verstappen estava um pouco longe do esperado para se tornar um campeão: teve apenas duas vitórias (Áustria e México) e mais nove pódios. Hamilton teve 11 vitórias e Vettel venceu cinco vezes naquele ano. No final de 2018, Verstappen variava as respostas que dava para a imprensa sobre as expectativas para 2019: hora dizia que estavam prontos para lutar pelo campeonato, hora dizia que não tinham chances. Só uma coisa era irredutível: ele não deixaria a Red Bull.

Já em 2019, a temporada foi um pouco melhor, mas também longe do primeiro lugar: Max teve três vitórias e mais seis pódios. Jos Verstappen até ameaçou pedir para o filho sair da Red Bull caso a equipe não lhe desse condições de disputar um título. Com o fim do contrato se aproximando, os fãs da Fórmula 1 ficaram curiosos para saber qual seria o destino do jovem prodígio. Como Verstappen não deu indícios de que estava disposto a sair da equipe, Toto Wolff renovou com Valtteri Bottas. Foi então, que no dia 7 de janeiro de 2020, Verstappen deu um ótimo presente de 35 anos a Lewis Hamilton: renovou com a Red Bull até 2023. Pelo que se observa desde 2017, a fidelidade de Max o prende à sua atual equipe, mas só isso não lhe garante conquistas, pois lhe falta um carro competitivo (que o próprio às vezes admite que a Red Bull não sabe fazer).

 

4- Mitos e Verdades

 

  •   Mito: Daniel Ricciardo saiu da Red Bull em 2019 porque a equipe estava priorizando Verstappen

 

Essa teoria absurda criada pelos haters de Verstappen já foi desmentida várias vezes pelo próprio Ricciardo, mas volta e meia aparece alguém para dizer isso na internet. O fato é que o piloto australiano deixou a Red Bull em 2019 porque estava descontente, mas não foi por causa do companheiro de equipe.

Em 2017, Max começou o ano à frente do companheiro, chegando ao terceiro lugar do campeonato na segunda corrida da temporada, no Grande Prêmio da China. No entanto, a série de abandonos que se iniciou no Grande Prêmio do Bahrein permitiu a Ricciardo superá-lo na pontuação. Isso não significa, porém, que o australiano teve um ano fácil: apesar de sua vitória no Azerbaijão e de mais oito pódios, Daniel acumulou seis abandonos, sendo o pior no México, onde havia conseguido a pole position. No ano seguinte, venceu duas vezes (na China e em Mônaco), mas teve oito abandonos. Aqueles que acusam a Red Bull de fornecer um carro pior para Ricciardo em 2018 para beneficiar Verstappen, deviam no mínimo ser coerentes e admitir que parecia que em 2017 a equipe havia feito o contrário: prejudicou o carro de Verstappen para que Ricciardo o superasse no campeonato.

 

Verstappen e Ricciardo mantiveram a amizade após a saída do australiano.

 

Ainda em 2018 os executivos da Red Bull anunciaram que a partir de 2019 a equipe trocaria os motores da Renault pelos da Honda. A notícia surpreendeu os torcedores, já que a fornecedora japonesa vivia em guerra com a McLaren quando esta usou seus motores na época de Fernando Alonso. O piloto espanhol teve vários abandonos devido a falhas no motor. Ricciardo afirmou que não queria ter o mesmo destino de Alonso, e ciente de que nem a Mercedes nem a Ferrari estavam interessadas em contratá-lo, o australiano trocou a incerteza da Red Bull pela provável estabilidade da Renault. Infelizmente, a equipe francesa teve um desempenho insatisfatório em 2019, mas não era possível adivinhar que isso iria acontecer.

Ricciardo e Verstappen já disseram que sentem falta um do outro e foram vistos em momentos de descontração diversas vezes. Ou seja, se Max fosse o motivo pelo qual Daniel saiu da Red Bull, eles não teriam essa relação saudável após a ida dele para a Renault.

 

  •   Verdade: A Mercedes já vinha mostrando interesse em Verstappen desde 2014

 

Toto Wolff não esconde sua admiração por Max. O chefe de equipe da Mercedes revelou em entrevistas que em 2014, quando Verstappen ainda estava na Fórmula 3, que o time alemão havia tentado contratá-lo para o futuro. No entanto, a Red Bull planejava inseri-lo na Fórmula 1 mais cedo do que o proposto pela Mercedes. Max e seu pai Jos se interessaram mais pela oferta da Red Bull e o jovem estreou pela Toro Rosso em 2015.

Praticamente nenhum piloto na história da Fórmula 1 correu em apenas uma equipe durante toda a carreira (exceto em casos em que o piloto morreu ou foi demitido no ano de estreia). A ideia de Verstappen futuramente deixar a Red Bull para correr pela Mercedes não parece absurda. Mas a análise dessa possibilidade depende da desmistificação de mais uma inverdade que os haters de Verstappen adoram proferir.

 

  •   Mito: Se sair da Red Bull, Verstappen não tem para onde ir

 

Foram muitas as vezes que Toto Wolff chamou Jos Verstappen para conversar. E é lógico que o chefe de equipe da Mercedes não marcaria encontros com o pai de Max para falar sobre o capítulo da novela ou sobre o último jogo de futebol, ainda mais se tratando da pessoa que já teve interesse em contratar o jovem quando ele ainda não estava na Fórmula 1.

Os atuais pilotos da Mercedes são o campeão Lewis Hamilton e o finlandês Valtteri Bottas. Este último apresenta uma peculiaridade: todos os contratos assinados até então tiveram validade de apenas um ano. Se a Mercedes rejeita Verstappen da maneira como os haters afirmam, por que ela não contrata Bottas para correr no mínimo uns três anos? A resposta é simples: a equipe alemã sabe que o finlandês não tem condições de enfrentar Hamilton como Rosberg o fez, então usa o piloto como um tampão enquanto Max continua na Red Bull. Alguns questionam se Hamilton permitiria o ingresso do jovem na Mercedes, mas o fato é que o inglês não tem poder decisivo no time. Se tivesse, Rosberg teria sido demitido em 2015.

Outra opção de Max, embora esta seja mais improvável, é a Ferrari. A escuderia italiana atualmente conta com Sebastian Vettel e Charles Leclerc, dois pilotos com os quais Verstappen não se dá bem. O holandês já afirmou que não se importaria em correr ao lado de Leclerc, mas o monegasco não esconde que não gostaria de ser companheiro de equipe dele. Já Vettel é um notório rival de Max, com quem já teve vários conflitos. Esses são os motivos pelos quais é menos provável que Verstappen vá para a Ferrari, apesar da equipe ter demonstrado interesse por ele em 2017.

 

  •   Verdade: A falta de títulos de Verstappen na Fórmula 1 é culpa de sua equipe

 

Os pilotos não são responsáveis pelo desempenho de seus carros. Isso é tarefa do departamento de engenharia, e consequentemente, dos engenheiros. Culpar Verstappen pelas falhas no motor, na parte elétrica ou nos freios é burrice. Apenas em casos de acidentes é que se pode atribuir culpa ao piloto, e mesmo assim os acidentes são analisados para saber se houve falha dele ou não.

Max começou 2017 como um dos favoritos ao título. O campeonato foi perdido por culpa dos abandonos, causados ou por falhas no carro ou por colisões causadas por outros pilotos. Em 2018 e 2019, foram várias as oportunidades de vitórias perdidas porque o rendimento do carro não possibilitava ultrapassar adversários das equipes de ponta. Será que um piloto que aos 19 anos havia quebrado seis recordes e que consegue correr tão bem na chuva (como no Brasil em 2016, na China em 2017 e na Alemanha em 2019), realmente não consegue ser campeão por “falta de talento”? Ou será que o carro da “competente” Red Bull só é capaz de lhe garantir no máximo três vitórias por ano?

 

5- Conclusão

 

Max Verstappen é um dos maiores talentos da Fórmula 1. Suas habilidades foram comprovadas em várias corridas, basta procurar os vídeos. Porém, sua equipe, a Red Bull Racing, ainda não foi capaz de lhe proporcionar um carro competitivo que corresponda à sua determinação. Quem não se lembra do Grande Prêmio do México de 2017, em que a equipe pedia para ele desacelerar para não sobrecarregar o carro?

Verstappen tem muitas chances de ser um campeão tão bem-sucedido quanto Lewis Hamilton. Ele já tem uma das chaves para ter sucesso na Fórmula 1: o talento. Só falta a outra: o carro. Mas, se continuar dando chances a uma equipe que até agora só protelou seu sonho, essa conquista corre o risco de ser adiada até um ponto em que ele se encontraria em situação semelhante à de Ricciardo: já com certa idade e sem esperanças de título.

 

 

 O que você prefere? Vencer onze vezes com a Mercedes ou três vezes com a Red Bull?

 

Fontes:

 

 

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O Caso Lance Stroll: Um Indígena na Fórmula 1

 

Atualizado em 1º de setembro de 2020

 

Resumo: “Não é racismo não torcer por Lance Stroll, mas negar seu talento e diminuí-lo em relação a pilotos brancos com menos feitos é.

 

O piloto canadense Lance Stroll volta e meia é assunto dos jornais esportivos e comentários dos fãs da Fórmula 1. Infelizmente, grande parte dos comentários é ofensiva, descarregando uma carga de ódio anormal em cima de um rapaz que nunca fez mal para ninguém (muito menos para seus detratores, que sequer o conhecem pessoalmente). Várias hipóteses são levantadas sobre a origem desse ódio: inveja pela fortuna da família Stroll, fanatismo por pilotos rivais, ignorância acerca de quem Lance é, entre outras. Mas apenas uma está mais próxima da verdade: racismo contra os povos indígenas.

“Ah, mas a mãe dele é belga”, dizem alguns dos haters. “Ah, mas a pele dele é mais clara”, dizem outros. Tais frases relatam o quanto que a sociedade atual desconhece acerca dos povos indígenas da América. Neste artigo, vamos provar que esta raiva gigantesca que muitos internautas (e até membros da imprensa) têm de Lance Stroll nada mais é do que o desejo de que o esporte seja composto unicamente por pilotos brancos.

 

1- Um piloto indígena na Fórmula 1

 

Lance Stroll nasceu em Montreal no dia 29 de outubro de 1998, segundo filho do empresário Lawrence Stroll e da estilista Claire-Anne Callens. Lance é descendente de judeus russos e indígenas inuítes (povo nativo do Canadá, incluindo o Quebec, terra natal dos Strolls) por parte de pai, e de belgas e ingleses por parte de mãe. Lawrence Stroll é filho de um imigrante judeu russo e de uma canadense, possui a pele avermelhada, cabelos lisos e grossos, e olhos levemente puxados. Claire-Anne Callens tem pele branca e olhos azuis. O resultado da miscigenação é notado nos filhos do casal: Chloe, a filha mais velha, tem os olhos da mãe, mas o formato de rosto do pai. Lance, o filho mais novo, tem o formato de rosto da mãe, mas os olhos castanhos levemente puxados e os cabelos escuros, lisos e grossos do pai. A pele de Lance é mais clara que a de Lawrence e mais avermelhada que a de Claire.

 

Os Strolls. Da direita para a esquerda: Claire-Anne (mãe), Lance (filho), Lawrence (pai) e Chloe (filha). (Foto: Thill Arthur/ATP) [1]

 

O fenômeno da miscigenação é muito comum nos países americanos devido ao histórico de colonização, escravidão e imigração no continente. No Canadá, país natal de Lance, não foi diferente. Os povos nativos tiveram contato com os europeus (de pele branca) e os africanos (de pele negra). Os filhos de casais de cores de pele diferente são chamados mestiços. No Brasil, por exemplo, os mestiços ganham nomes diferentes de acordo com suas origens. Os filhos de brancos com negros são chamados de “mulatos”, os filhos de índios com negros são chamados de “cafuzos”, e os filhos de brancos com índios (como é o caso de Stroll), são chamados de “caboclos” ou “mamelucos”.

Na genética existe grande probabilidade de pessoas mestiças com ancestrais brancos terem filhos brancos quando se casam com brancos. Países como os Estados Unidos chegaram a proibir o casamento entre pessoas de cores diferentes no século XIX, enquanto que o governo brasileiro incentivava o casamento com brancos para “branquear” as futuras gerações. No entanto, o fato do mestiço ter a pele mais clara que seus ancestrais não anula sua origem. Logo, um “caboclo” não deixa de ter origens indígenas por sua pele ser mais clara que a dos “índios”. Ele possui tanto origem indígena quanto europeia, e este é o caso de Lance Stroll.

 

Características físicas de Lance Stroll que comprovam sua origem indígena. [2]

 

2- Os indígenas de acordo com os europeus

 

A Fórmula 1 foi criada na década de 1950. Não haviam se passado nem uma década da queda dos regimes nazifascistas na Europa, que se caracterizavam pela intensa repressão do Estado e perseguição de grupos étnicos minoritários (principalmente os judeus) sob pretextos raciais. Desde o século XIX, com a formulação do “darwinismo social”, as escolas e intelectuais europeus ensinavam à população de que as raças se organizavam em uma hierarquia, na qual a raça branca europeia era considerada superior às demais e os mestiços inferiores a todas as “raças puras”. Antropólogos como inglês Edward Tylor aplicaram essa teoria para a defesa do “evolucionismo social”, tese que defende uma hierarquia entre as culturas. Mesmo com esforços de outros antropólogos, como o alemão judeu Franz Boas, em mostrar que não se pode afirmar em superioridade de culturas ou raças, a sociedade europeia abraçou com firmeza a ideia de que estava em vantagem em relação aos demais povos do planeta.

Porém, esse fenômeno tem origens mais antigas. Desde a colonização da América por nações da Europa, diversos grupos detentores do poder lançavam propagandas para obter apoio ao processo colonizador. No Brasil, por exemplo, após a morte do bispo Pedro Fernandes Sardinha (que teria sido devorado por indígenas antropófagos) no século XVI, a Igreja Católica promoveu campanhas que tratavam os indígenas como seres animalescos e selvagens para justificar as campanhas catequizadoras e o controle português em território brasileiro. As consequências foram catastróficas e a tribo acusada de matar o bispo, os Caetés, foi exterminada no processo.

 

Imagem da Exposição Antropológica Brasileira de 1882, ilustrando um indígena brasileiro e um escravo africano sendo exibidos na Europa. Note como os indígenas e os negros são retratados de maneira animalesca comparado aos brancos. (Foto: Museu Nacional do Rio de Janeiro) [3]

 

Na década de 50 a população europeia ainda não entendia como eram os povos nativos da América. Décadas antes, em 1911, o escocês James Matthew Barrie lançou sua obra mais famosa: “Peter Pan”. Na história, uma tribo indígena é retratada como pessoas submissas ao protagonista e a filha do chefe, a princesa Tigrinha, se dispõe a fazer tudo por Peter, mesmo ele não tendo por ela o mesmo sentimento que tem por Wendy Darling, menina inglesa que ele leva para a Terra do Nunca. Em 1953, Walt Disney adaptou a obra em um filme de animação no qual os indígenas assumem um papel maior na música “Por Que Ele Diz ‘Au’?” (“What Makes the Red Man Red?” no original em inglês). Na cena, a tribo é composta de indivíduos parados no tempo, isolados do resto do mundo e que usam as mesmas vestes de seus antepassados. O estereótipo em torno dos indígenas gerou tanta polêmica para a Disney que os estúdios optaram por não incluir os personagens na sequela do filme: “De Volta à Terra do Nunca”, de 2002 (título original “Return to Neverland”).

 

Tribo indígena do filme “Peter Pan” (1953). (Foto: Disney) [4]

 

Como os indígenas viviam apenas no continente americano, não havia nenhum interesse na Europa em combater o preconceito contra eles, muito menos em fazer uma autocrítica sobre a interação entre brancos e indígenas ao longo dos séculos. Mesmo nos países americanos, os nativos ainda eram marginalizados e excluídos da sociedade. Somente com a organização e luta desses povos, principalmente no século XX, é que a questão foi levada mais a sério. No dia 19 de abril de 1940 foi realizado o Congresso Indigenista Interamericano, visando promover o combate ao racismo e pressionar os países americanos a adotar políticas de proteção e garantia dos direitos indígenas. É por isso que na Argentina, na Costa Rica e no Brasil, no dia 19 de abril é comemorado o Dia do Índio.

A Fórmula 1 visava incentivar o interesse à indústria automobilística. À época, os consumidores desse setor eram homens brancos. Mulheres eram proibidas de dirigir em muitos países do mundo, e negros e indígenas viviam em segregação, impossibilitando-os de ter acesso a veículos. Logo, o esporte se concentrava em agradar ao público masculino, branco e europeu, seu mercado consumidor. É devido a isso que por anos a Fórmula 1 foi dominada por europeus e seus descendentes (Juan Manuel Fangio, piloto argentino que foi o segundo campeão da categoria, era descendente de italianos).

 

3- Revson e Hamilton: quebrando a hegemonia

 

Em 1964, o norte-americano Peter Revson estreou como o primeiro judeu na categoria, quebrando anos de domínio branco europeu na Fórmula 1. Vale lembrar que o povo judeu sofre perseguições desde a Antiguidade e foi o grupo majoritário entre as vítimas do Holocausto (antes havia sofrido invasões de suas terras por assírios, persas, gregos e romanos, inquisições por parte da Igreja Católica, pogroms no Império Russo e muitas outras políticas de segregação e extermínio). Também importante ressaltar que mesmo um quarto da população judaica tendo pele branca (caso de Revson), eles não são considerados brancos pelas teorias raciais (por terem origem no Oriente Médio) e são perseguidos pelos grupos de supremacia branca. Revson correu por 10 anos com as equipes Revson Racing, Reg Parnell, Tyrell, McLaren e Shadow Racing. Teve duas vitórias e oito pódios, pontuou 14 vezes e acumulou 61 pontos em toda a carreira. Faleceu em um acidente nos treinos para o Grande Prêmio da África do Sul de 1974.

Quarenta e três anos depois, em 2007, estreou o primeiro piloto negro da Fórmula 1, o inglês Lewis Hamilton. Filho de mãe branca e pai negro nascido de imigrantes caribenhos, Hamilton juntou-se à McLaren para correr ao lado do espanhol Fernando Alonso. Logo nos treinos preparatórios, ele sofreu ofensas raciais pelos torcedores de Alonso, que o chamavam de “macaco”. Alguns dizem que o motivo das ofensas não era racial, e sim esportivo, pois os torcedores de Alonso amavam o piloto espanhol. Porém, se assim fosse, não seria mais lógico chamar Hamilton de “perdedor” ou dizer que Alonso iria “acabar com ele”? Chamá-lo de “macaco”, ofensa historicamente associada aos negros, prova que o ódio dos torcedores espanhóis contra Hamilton era sim, racismo.

Hamilton começou o ano com um pódio, teve sua primeira vitória, e se tornou vice-campeão de 2007. No ano seguinte, foi campeão ainda com a McLaren. Porém, mesmo com seus resultados brilhantes, o inglês ainda não estava livre da perseguição racial. No Grande Prêmio de Mônaco de 2011, os comissários puniram Hamilton por um choque com Felipe Massa, piloto brasileiro de ascendência italiana. Ele questionou a punição e acusou os comissários de tomar uma decisão com base na cor de pele dos pilotos, pois Massa era branco e Hamilton negro. Em vez de apurarem o caso, os responsáveis pela Fórmula 1 moveram uma censura ao piloto inglês, proibindo-o de acusar novamente os comissários de racismo. A melhor decisão nesse caso seria a de mostrar os vídeos da colisão para ambos os pilotos e esclarecer os motivos da punição. Ao silenciarem Hamilton, os administradores do esporte deixaram margem para que a hipótese de racismo fosse levada em conta.

 

Peter Revson (à esquerda) e Lewis Hamilton (à direita): respectivamente o primeiro piloto judeu e o primeiro piloto negro na Fórmula 1. [5]

 

Outro caso de racismo sofrido pelo britânico ocorreu no Grande Prêmio da Itália de 2019, cuja arbitragem é questionada até hoje. Correndo pela Mercedes, Hamilton tinha chances de ultrapassar Charles Leclerc, piloto monegasco que representava a Ferrari. Para bloquear o adversário, Leclerc o espremeu contra o muro e uma investigação foi iniciada. No entanto, os comissários decidiram apenas advertir Leclerc com uma bandeira preta e branca. Após a vitória do monegasco, Hamilton subiu ao segundo lugar do pódio e os torcedores italianos o vaiaram fortemente. Alguns inclusive fizeram gestos e sons imitando macacos. Hamilton postou uma mensagem em seu Instagram recomendando aos italianos não cometer esse desrespeito, pois mancharia a imagem de uma torcida lembrada por sua alegria e entusiasmo. Nenhuma autoridade da Fórmula 1 sequer chegou a comentar o caso.

Séculos de ensinamentos racistas de “superioridade branca” deixaram marcas profundas na sociedade europeia de modo que o fenômeno do racismo passe despercebido ou seja encarado como algo banal até os dias de hoje. É nítido que os movimentos contra o racismo são mais fortes na América do que na Europa, mas mesmo no continente americano existem aqueles que se negam a enxergar a discriminação racial como um problema. No Brasil, por exemplo, enquanto alguns imigrantes europeus se misturaram com indígenas e negros, outros preferiram se unir a outros europeus e criaram seus filhos com as mesmas ideias que eram repercutidas na Europa. Tal fenômeno levou alguns brasileiros a acreditar que o racismo não era algo sério e a aceitar a discriminação contra negros e índios, incluindo atletas dessas etnias. No Grande Prêmio do Brasil de 2008, após o resultado dar o título de campeão a Hamilton mesmo com a vitória de Massa, torcedores brasileiros vaiaram o inglês e o chamaram de “macaco”, provando que a “utopia racial brasileira” não passa de uma lenda.

 

4- Indígena e judeu: o bode expiatório perfeito

 

Lance Stroll pertence a dois povos historicamente perseguidos e massacrados: os ameríndios e os judeus. Esses dois grupos nunca foram bem-vistos pela sociedade europeia. Os indígenas eram “canibais”, “selvagens”, “animalescos”, “incivilizados” na visão eurocêntrica e, como tais, precisavam de conversão ou serem domados e escravizados. Os judeus eram “deicidas”, “hereges”, “controlavam os bancos, a mídia e a política” segundo as ideias vigentes e, como tais, deveriam ser convertidos ou queimados por “não aceitarem a verdade cristã e serem de uma raça inferior”. Mesmo com a queda do nazismo, essas ideias não foram apagadas da mentalidade europeia por completo. Ainda existem figuras no cenário mundial que negam o Holocausto, acusam os judeus de conspiração e defendem que os indígenas devem abrir mão de suas culturas originais.

 

Lance Stroll jogando futebol americano na infância. Repare nas características inuítes no menino. (Foto: Instagram) [6]

 

Muitas pessoas, tanto na Europa quanto na América, ainda veem os indígenas como parados no tempo, habitantes de florestas, que vivem da caça e pesca. Logo, causa estranheza para muitos ver que os indígenas podem ser empresários bem-sucedidos. Como a Fórmula 3 não recebe tanta atenção quanto a Fórmula 1, não eram todos os fãs do esporte que sabiam das conquistas de Lance Stroll. Tudo o que sabiam dele era que o piloto vinha do Canadá e seu pai era bilionário, ignorando que todos os pilotos recebem um investimento para manter suas carreiras. Até mesmo pilotos como Esteban Ocon possuem quem arque com os custos de suas estadias no esporte. Na pré-temporada de 2017, por não ter experiência com o carro de Fórmula 1, Stroll acabou batendo várias vezes. Enquanto uns aproveitavam a situação para fazer piadas, alguns precipitadamente acusaram o jovem de compra de vaga. Oras, mesmo que Stroll realmente tivesse pago para entrar na Fórmula 1, isso não seria motivo para tanto ódio. Afinal, ele havia sido contratado pela Williams para substituir um piloto que estava se aposentando, Felipe Massa. O brasileiro desistiu da aposentadoria após a ida de Valtteri Bottas para a Mercedes para substituir o aposentado Nico Rosberg. Ninguém comprou a vaga de ninguém. Bottas e Stroll estavam simplesmente ocupando as vagas de pilotos que se aposentaram. Por que então tanto ódio a Stroll, que até então não era rival de ninguém?

A resposta para essa pergunta é simples: os fãs queriam ver outro europeu na Williams. Incomoda para muitos ter que aturar um piloto negro na Fórmula 1, agora um piloto indígena estava chegando ao esporte, na vaga que segundo os torcedores deveria ser ocupada por um piloto branco de etnia europeia. Este é o motivo pelo qual a fortuna de Lawrence Stroll causa tanto ódio nos internautas: mesmo ele sendo casado com uma europeia, mesmo suas empresas gerando empregos e sustentando famílias, mesmo seu dinheiro tendo sido obtido de maneira totalmente legal, sem envolvimento em nenhum escândalo, ele ainda era um “selvagem canibal incivilizado inferior aos europeus”. Imaginem o quanto que estes internautas devem ter se indignado ao ver pela primeira vez um piloto do continente americano ser campeão da Fórmula 3 EUROPEIA.

 

Lance Stroll foi o primeiro indígena a vencer a Fórmula 3 Europeia. Os racistas queriam ver um europeu como campeão. (Foto: Prema Powerteam) [7]

 

Motivados pelo ódio racial a Stroll, os racistas lançaram críticas ácidas à presença do canadense na Fórmula 1 como se ele fosse o culpado de todas as mazelas do mundo. Lance sentia na pele o que seu povo sofreu por séculos. Enquanto os supostos “justiceiros sociais” da internet (que não dão nem uma esmola a um mendigo necessitado) odeiam os Strolls por sua fortuna, Lance prova que não corresponde ao estereótipo de “rico egoísta” e se engaja em ações de caridade, como uma visita ao Montreal Children’s Hospital, uma campanha pela perfuração de poços de água na Gâmbia e uma generosa doação ao Corpo de Bombeiros de Los Angeles para combater os incêndios florestais na Califórnia. Os haters ignoram de propósito o fato de haver pilotos igualmente ricos cujos resultados não se aproximam dos de Lance. Por quê? Porque um branco rico não gera a mesma estranheza e desconforto do que um indígena rico. Eles veem um indígena judeu como o culpado de todos os infortúnios do mundo, como se um simples piloto canadense fosse o responsável pela fome e a miséria mundiais. Ao mesmo tempo, inocentam os brancos igualmente riquíssimos disso.

Afinal, qual foi o último piloto estreante que conseguiu um pódio em um carro de uma equipe mais fraca? Qual foi o último estreante que largou da primeira fila em um carro longe de ser competitivo? Qual foi o último piloto a quebrar dois recordes em seu ano de estreia? Todos esses feitos são apagados propositalmente da memória dos torcedores e jornalistas para inocular nos fãs a ideia de que Lance só está no esporte porque seu pai é bilionário. Por quê? Porque os racistas da internet e da mídia não suportam ver que um piloto indígena conseguiu feitos que muitos brancos não foram capazes de obter, e que oito pilotos brancos, incluindo Fernando Alonso (o mesmo ídolo dos racistas que chamaram Hamilton de “macaco”), ficaram atrás de um indígena em seu ano de estreia. Para isso, omitem não só seus feitos, como também omitem a etnia de Lance das discussões. Usam a desculpa de que a mãe de Stroll é branca para dizer que ele “não é mais índio”. Ninguém deixa de ser índio. É como deixar de ser velho. Etnia, assim como idade, é uma característica inerente de cada pessoa.

 

5- Pilotos pagantes brancos não são pagantes, só os índios

 

O fato é que o século XXI não é igual ao XX. Mesmo com a persistência do racismo, os movimentos de combate são mais fortes hoje em dia do que no século passado. A sociedade ocidental está mais consciente da importância do respeito e de que nenhuma etnia ou cultura é superior ou inferior a outra. Logo, até mesmo os racistas mais convictos procuram mascarar seu racismo para evitar serem condenados pela opinião pública.

A desculpa que os racistas encontraram para criticar a presença de um indígena na Fórmula 1 sem que se perceba os motivos raciais foi ressaltar a fortuna de seu pai. E como dizia o ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels, “uma mentira contada várias vezes torna-se uma verdade”. Com isso, há jornalistas e internautas tão entorpecidos com o preconceito e a ideia de que Stroll não merece a vaga que se recusam até a ler a história do piloto antes de julgá-lo, convencidos de que os indígenas devem ser ignorados, tratados com desprezo, do mesmo modo que foi séculos atrás, quando os colonizadores europeus massacraram tribos, escravizaram nativos e os obrigaram a abrir mão de suas culturas originais.

Mas os racistas acabam deixando escapar seu plano ao cometerem um deslize fatal: desconhecerem a etnia que eles julgam inferior. Muitos internautas em sua defesa afirmam não saber que Lance Stroll é indígena, e outros até negam com firmeza a etnia dele. A mesma desculpa era dada quando os mesmos racistas afirmavam não saber que Stroll é judeu. Os motivos: Stroll não usa kipá, o “chapeuzinho” judaico (e mesmo se usasse, ele ficaria escondido debaixo do capacete), não usa peyot (os cachinhos de cabelo nas têmporas) e não tem “nariz grande”. O primeiro passo para se identificar um racista é notar que ele generaliza todos os membros de um grupo como se todos fossem iguais. No caso, por Lance não ser um judeu ortodoxo hassídico, “não teria como saber que ele é judeu”. A internet facilita muito o trabalho de pesquisa, mas os racistas se julgam tão superiores que não veem a necessidade de pesquisar sobre aqueles que eles consideram inferiores.

 

O povo judeu é composto de diversas etnias. É errado pensar que todos os judeus são iguais. Na imagem acima é possível ver quatro etnias judaicas: os asquenazim, os sefaradim, os judeus etíopes (também chamados de Beta Israel) e os mizrahim. [8]

 

Mais absurda ainda é a desculpa de não saber que Stroll é indígena. Os motivos: ele não anda de cocar na cabeça, não caça e pesca com lança, não mora na floresta ou em reserva indígena, e sua pele é mais clara do que a pele “de índio”. Isso revela muito da ignorância da sociedade atual sobre os povos indígenas. Para começar, não existe apenas uma etnia indígena. Agrupar todos as tribos e nações nativas da América como um povo só foi um instrumento dos colonizadores para convencer os monarcas europeus de que os indígenas seriam facilmente derrotados e domados. Existem indígenas de diversas tonalidades de pele. No Canadá, os Métis, por exemplo, são mais claros que os Inuítes, e isso não os torna “menos índios” que os outros. Entre as tribos americanas, os Quileutes são diferentes dos Navajos, que são diferentes dos Cherokees, que são diferentes dos Ottawa, que são diferentes dos Potawatomi, que são diferentes dos Powhatans, e por aí vai. No Brasil, os Tupiniquins se diferem dos Guaranis, que se diferem dos Yanomamis, que se diferem dos Jês, entre outros. É verdade que a maioria dos indígenas possuem cabelos escuros, lisos e grossos, pele avermelhada, olhos levemente puxados e poucos pelos no corpo, mas nem todos são assim. Ironicamente, Stroll apresenta muitas dessas características, mas por não viver isolado da sociedade contemporânea, seus detratores omitem que ele seja indígena.

 

Existem milhares de etnias indígenas no continente americano. Cada tribo possui particularidades, como cultura, religião, vestimenta, língua e costumes. Na foto acima é possível ver quatro etnias indígenas: os Inuítes (Canadá), os Navajos (EUA), os Seris (México) e os Yanomamis (Brasil). [9]

Como podem ver, o ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, possui o mesmo tipo de cabelo e de olhos de Lance Stroll. Morales é da etnia aimará e Stroll é mestiço da etnia inuíte com a etnia europeia. Ambos possuem origens indígenas. [10]

 

O problema do racismo com os indígenas é que ele passa despercebido pela população por não haver muita atenção midiática acerca disso como há para o preconceito contra outras etnias. A luta dos indígenas pelo respeito é silenciada pelo desprezo midiático, e há quem afirme que nunca ouviu falar em índio. Quando se ouve a palavra “racismo”, ela quase nunca é associada aos indígenas, e estes somente aparecem nos noticiários quando o governo ou algum fazendeiro ou garimpeiro invade as terras de uma reserva e entra em confronto com os membros da aldeia.

E a prova concreta de que a birra que os haters tem com Stroll não tem nada a ver com dinheiro e sim com cor de pele é a idolatria que os mesmos tem pelo piloto inglês Lando Norris. Lando é filho do magnata Adam Norris, um milionário dono da companhia Horatio Investments e detentor de uma fortuna pessoal de £205 milhões, sendo o 18⁰ homem mais rico do Reino Unido.

Ao contrário de Stroll, que estreou em uma equipe pouco competitiva, Norris estreou pela McLaren em um ano de atualizações no chassi que renderam à equipe um bom desempenho para competir pelos primeiros cinco lugares do ranking. Diferente de Stroll, que terminou seu ano de estreia a apenas três pontos de seu experiente companheiro (chegando até a ultrapassá-lo no ranking em alguns momentos do campeonato), Norris terminou o ano com 47 pontos a menos que o companheiro Carlos Sainz Jr., que possuia quatro anos de experiência. Sainz ainda conquistou o único pódio da equipe no ano, com um terceiro lugar no Grande Prêmio do Brasil de 2019.

Se formos comparar os resultados, não há dúvidas de que Lance Stroll é melhor que Lando Norris. Em seu ano de estreia, Lance teve um pódio, largou da primeira fila e quebrou dois recordes: mais jovem estreante a ter pódio e mais jovem piloto a largar da primeira fila. Seus feitos garantiram o quinto lugar de sua equipe no campeonato de construtoras. Lando em seu ano de estreia não conseguiu nenhum pódio e não quebrou nenhum recorde, tendo seu melhor resultado um sexto lugar no Bahrein e na Áustria, no mesmo ano em que Lance teve seu melhor resultado um quarto lugar na Alemanha. Para mascarar sua medianidade enquanto atleta, Norris lançou uma campanha de marketing para que os fãs e a própria Fórmula 1 o lembrassem como um piloto engraçado em vez de um piloto pagante que só está no esporte porque seu pai é um empresário milionário. Nessa campanha, são feitos vários memes, usam-se perfis falsos para divulgá-los e qualquer coisinha que Norris faça já é acompanhada de uma enxurrada de pessoas rindo e o considerando o melhor piloto do grid, mesmo ele não fazendo nada de impressionante. Somado a isso está o patrocínio da Petrobras à McLaren, garantindo que os narradores e comentaristas brasileiros elogiassem Norris como se ele fosse a própria reencarnação de Ayrton Senna.

Então, se Lando Norris também é milionário e tem resultados muito inferiores, por que é Lance Stroll que é chamado de “piloto pagante”? Realmente, até no ano de “glória” de Norris, o melhor resultado de Stroll foi melhor que o de Norris e o inglês ainda não tem os feitos do canadense. O diretor esportivo Nuno Pinto também aponta que o currículo de Lance é mais impressionante que o de Lando, e que ele foi o primeiro piloto a cumprir a regra da FIA contra pilotos pagantes (fazer ao menos 40 pontos na Superlicença). E mesmo assim os internautas e a mídia idolatram Norris e apedrejam Stroll. Isso prova que não é o dinheiro que importa, é a cor da pessoa que tem o dinheiro.

 

 

Lógica dos racistas: se você for indígena, você é pagante; se você for branco, pode ser o piloto mais medíocre possível que vamos te louvar. [11]

 

Outro caso de racismo foi quando a mídia tentou culpar Lance Stroll pela saída de Esteban Ocon da Fórmula 1 (ver “Entenda o Caso Esteban Ocon”) após o pai do canadense comprar a equipe, salvar 405 empregos e manter Ocon até o fim de seu contrato (pois é, mesmo com esse detalhe, os racistas chegam ao absurdo de acusar Lawrence de comprar equipe para Lance). Omitem que Ocon já estava de saída quando seu padrinho Toto Wolff o prometeu uma vaga na Mercedes, na Renault ou na McLaren, mas todas as outras equipes recusaram. Ou seja, a culpa é de Stroll ou de Wolff, que mentiu para o apadrinhado? E por que não culpam Daniel Ricciardo, Lando Norris, Carlos Sainz Jr. ou George Russell pela saída de Ocon? Porque todos estes são brancos.

E falando em George Russell, ele provou que muitas vezes a mídia só critica as minorias, enquanto exime os brancos de culpa. Em 2018, com o fraco desempenho da Williams, por culpa de seu departamento de engenharia comandado por Paddy Lowe, a mídia culpou Lance Stroll por não trazer pontos suficientes para o time. Stroll terminou aquele ano em antepenúltimo lugar, vencendo Romain Grosjean e o companheiro Sergey Sirotkin. Quando George Russell e Robert Kubica vieram para o time inglês substituir Stroll e Sirotkin, o desempenho do carro da Williams piorou e a equipe fez apenas um ponto, marcado por Kubica. Em nenhum momento criticou-se a contratação de Russell, mesmo ele não sendo capaz de fazer um mísero ponto para seu time. A mídia preferiu apostar em Russell como um piloto excelente, vítima de uma equipe incompetente, título este que dariam a Stroll se ele não fosse indígena.

 

6- Você já sabia que ele é índio, só não quer admitir

 

Ao ser anunciado como piloto da Williams para 2017, Lance Stroll ficou em evidência. Houve um interesse por parte da mídia e dos internautas de conhecê-lo melhor. Uma coisa prontamente notada foi a semelhança entre Lance e o ator americano Taylor Lautner, famoso por interpretar o lobisomem indígena Jacob Black na saga “Crepúsculo”. O curioso é que mesmo Lautner sendo filho de uma indígena, ainda havia pessoas que duvidavam de sua etnia por seu pai ser descendente puramente de europeus. Se Lautner não fosse indígena, não teria sido chamado para interpretar um personagem indígena, certo? E se Stroll não fosse indígena, não faria sentido ele ser comparado com um ator indígena. Por que não compararam Stroll a Will Smith ou a Leonardo DiCaprio? Porque ele não tem a mesma etnia desses dois, e sim de Taylor Lautner.

 

Foto que compara Lance Stroll a Taylor Lautner. (Foto: Blig Groo) [12]

 

Site humorístico F1 Fanático chamando Stroll de “cover do lobisomem do crepúsculo”. Para quem não sabe, Jacob Black, o lobisomem na saga Crepúsculo, é um indígena da tribo Quileute. (Foto: F1 Fanático) [13]

 

7- O que aprendemos com isso?

 

  • Que Lance Stroll não está ocupando a vaga de ninguém. Ele foi contratado para substituir um piloto que havia se aposentado.
  • Que Lance Stroll possui mais conquistas que muitos pilotos brancos europeus, e isso incomoda muita gente.
  • Que mesmo sendo filho de mãe belga e neto de imigrante russo, Lance Stroll possui ancestrais inuítes, povo indígena nativo do Canadá, e não deixa de ter origens indígenas por ser mestiço.
  • Que não existe apenas uma aparência indígena. Há milhares de tribos indígenas na América, cada uma com sua etnia e cultura.
  • Que não importa o quão bom seja o piloto, ele sempre será vítima de racismo se pertencer a uma minoria étnica (ex.: Lewis Hamilton).
  • Que nenhum piloto chega à Fórmula 1 sem um suporte financeiro (incluindo os brasileiros). A implicância com a fortuna dos Strolls, obtida de maneira honesta e justa, é pura indignação de pessoas que acham que os indígenas não podem ser bem-sucedidos.
  • Que todos os haters de Lance Stroll, ou são racistas que não suportam ver indígenas no esporte (ainda mais vencendo brancos), ou são idiotas que repetem a falácia racista porque são incapazes de pensar com a própria cabeça e engolem tudo o que a mídia e a internet diz.

Sabendo disso, da próxima vez que ver ou ouvir um internauta ou apresentador de televisão (narrador ou comentarista) chamando Lance Stroll de “piloto pagante” (“pay driver”) ou de “garoto rico” (“rich boy”), ou acusando-o de roubar a vaga de alguém, saiba que está diante de um caso de racismo. Denuncie, confronte, diga a verdade para essa pessoa. Não deixe o racismo prosperar. Se queremos uma sociedade onde todos são iguais, não ignore o preconceito com o outro. Desmascare o racista. Obrigue-o a silenciar-se. Os indígenas são seres humanos como todas as outras etnias e origens, e como tais, merecem o nosso respeito e apoio.

 

Adendo (11/04/2020): No dia 11 de março de 2020, a página do The Racing Track no Instagram foi alvo de um comentário racista de um perfil chamado official_alexalbon, que afirmou que “Judeus merecem ‘Aushwitz’ não assentos na Fórmula 1”. Esta é a prova cabal do que foi demonstrado nesse artigo: quem é contra a presença de Lance Stroll na Fórmula 1 é contra a presença de pilotos indígenas e judeus no esporte, usando a fortuna da família do canadense como desculpa para o ódio desproporcional a uma pessoa que eles sequer conhecem. Lembrando que torcer para pilotos brancos e europeus, ou até mesmo não ser fã de Lance Stroll não torna o torcedor um racista (em momento algum a matéria deu a entender isso), mas usar padrão duplo para julgar os pilotos, ignorando os feitos de Stroll e rebaixando-os em relação a pilotos brancos igualmente ricos cujos resultados no esporte foram inferiores é sim um ato de racismo. Fica abaixo a foto do comentário:

 

Para quem duvidava que o racismo contra Lance Stroll fosse real, eis a prova.

 

Errata: Originalmente o texto dizia que Lance Stroll havia quebrado três recordes em seu ano de estreia: mais jovem estreante a ter pódio, mais jovem piloto a largar da primeira fila e pódio mais jovem (menor média de idade entre os integrantes do pódio). No entanto, o pódio mais jovem da história foi o do Grande Prêmio do Brasil de 2019, e antes desta prova, o pódio do Grande Prêmio do Azerbaijão de 2017, do qual Stroll fez parte, era o décimo mais jovem. Ao sermos informados do erro, corrigimos o parágrafo.

 

8- Bibliografia

 

Fotos

Obs.: Nenhuma das fotos inseridas neste artigo pertence a mim. Este site possui fins informativos, não comerciais. Abaixo estão indicados os links de onde tirei as fotos. Todos os direitos reservados.

Entenda o Caso Esteban Ocon

Matéria escrita em 10 de agosto de 2019. A leitura nos dias de hoje pode ajudar a entender porque Esteban Ocon ficou sem vagas em 2019 e quais as atitudes que teve que tomar para voltar ao grid em 2020.

 

Esteban Ocon, piloto hispano-francês que correu na Fórmula 1 entre 2016 e 2018, é um dos nomes mais comentados quando começam as especulações no mercado de pilotos. Afinal, o jovem de 22 anos, apadrinhado de Toto Wolff, era tido por muitos como a promessa de uma futura estrela. Porém, ele ficou de fora do grid de 2019. Por que isso aconteceu? Ele ainda tem chances? Seu caso é complicado, mas iremos explicar tudo.

1- Início de carreira

Esteban Ocon é um caso raro na Fórmula 1. Por esta ser um esporte com muitos custos (peças, engenheiros, mecânicos, simuladores, etc.), é esperado que os pilotos tragam patrocínio para ajudar nas despesas de suas equipes. Portanto, os pilotos em sua maioria esmagadora são de origem rica. Ocon é uma das raras exceções. Nascido em uma família humilde de imigrantes espanhóis de Málaga, cidade na província de Andaluzia (a mais pobre do país), o jovem deve toda a sua carreira a Toto Wolff. Ocon chegou a afirmar que se não fosse pelo atual chefe de equipe da Mercedes, que lhe deu uma oportunidade para ingressar no automobilismo, estaria trabalhando em lanchonetes para ajudar a renda familiar. A relação entre Wolff e Ocon é uma peça fundamental para entendermos a situação atual do piloto.

Esteban Ocon e seus pais, Laurent e Sabrina

Em 2014, Ocon foi campeão da Fórmula 3 Europeia, uma das principais categorias de acesso à Fórmula 1. No entanto, o jovem promovido naquele ano foi Max Emilian Verstappen. O jovem holandês, filho do ex-piloto Jos Verstappen, estreou na Toro Rosso em 2015, enquanto que o campeão Ocon permaneceu no anonimato até a metade de 2016, quando a Manor o contratou para substituir o indonésio Rio Haryanto no Grande Prêmio da Bélgica. Ocon terminou seu ano de estreia sem pontos, em 23⁰ lugar. Seu primeiro ponto veio com o Grande Prêmio da Austrália do ano seguinte, o qual Esteban terminou em 10⁰ lugar.

2- Caso semelhante

Pascal Wehrlein é um piloto alemão que também fora apadrinhado por Toto Wolff. Filho de pai alemão e mãe africana das Ilhas Maurício, ele estreou na Fórmula 1 pela Manor em 2016, no Grande Prêmio da Austrália. Tornou-se companheiro de Ocon após a demissão de Rio Haryanto. No final da temporada, a Manor decretou falência e anunciou que não competiria mais na Fórmula 1.

Pascal Wehrlein

Para garantir que seus apadrinhados permanecessem, Toto Wolff conseguiu bons contratos: Wehrlein foi mandado para a Sauber, substituindo o brasileiro Felipe Nasr, e Ocon para a Force India no lugar do alemão Nico Hülkenberg. A Rede Globo, emissora brasileira que detém os direitos de transmissão da Fórmula 1 no país, chegou a especular que Nasr iria para a Force India por ter resultados superiores aos de seu companheiro, o sueco Marcus Ericsson. No entanto, Nasr ficou de fora da categoria e Ocon preencheu a vaga. Inicialmente, muitos fãs brasileiros ficaram com raiva de Toto Wolff e Esteban Ocon.

Como o carro da Sauber tinha o pior rendimento do grid, Wehrlein só chegou a pontuar duas vezes, com o sétimo lugar no Grande Prêmio da Espanha, obtendo seis pontos, e o décimo lugar no Grande Prêmio do Azerbaijão, conseguindo um ponto. Seu companheiro foi o único piloto daquele ano a não pontuar. Para 2018, a Sauber teria de sacrificar um de seus pilotos para contratar o monegasco Charles Leclerc, campeão da GP2 (outra categoria importante de acesso à Fórmula 1) e membro da Academia de Pilotos da Ferrari. Leclerc é apadrinhado de Nicolas Todt, filho do atual presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), Jean Todt (chefe de equipe da Ferrari entre 1993 e 2007). A Sauber na época era uma equipe subordinada à Ferrari tal qual a Toro Rosso é à Red Bull atualmente. Tendo que escolher entre o sueco patrocinado pela Tetra Pak e o alemão com resultados melhores apadrinhado por Toto Wolff, a equipe suíça optou por Ericsson e Wehrlein foi demitido.

Wolff colocou Wehrlein no cargo de terceiro piloto da Mercedes, juntamente com o jovem inglês George Russell. Toto prometia a Pascal que lutaria até o fim para lhe garantir um assento na Fórmula 1, porém Wehrlein espera isso até hoje. Descontente com a situação, o alemão se juntou à Ferrari como terceiro piloto, substituindo o russo Daniil Kvyat, que voltava para a Toro Rosso depois de ter sido demitido da equipe.

3- Relação com outros pilotos

Nos tempos das categorias de acesso, Ocon fez amizade com o canadense Lance Stroll, cujo pai, Lawrence Stroll, era o dono da melhor equipe da Fórmula 3 Europeia e da GP2, a Prema Powerteam. Ocon foi campeão da Fórmula 3 Europeia em 2014 por essa equipe. Lance fez o mesmo em 2016, quebrando o recorde de mais jovem campeão da categoria e primeiro canadense a ganhar o título. Alguns críticos avaliaram que Verstappen chamou mais atenção que o campeão Ocon por ter conseguido o terceiro lugar com um carro bem inferior (Van Amsterfoot Racing, motorizada pela Volkswagen). É válido notar que Verstappen foi a grande sensação de 2015. Os jornais automotivos só falavam do menino Max, seja por seus recordes, seja por seus acidentes ou por suas manobras arrojadas que lhe garantiam boas pontuações. Max foi eleito Estreante do Ano pela FIA em 2015. Tudo isso contribuiu para ofuscar a imagem de Ocon durante um ano e meio.

Com Stroll, Ocon travava uma amizade ao estilo “O Príncipe e o Mendigo”, pois ambos vieram de situações bem diferentes. Mas a amizade entre os dois provou que a riqueza não define caráter. Ser rico não quer dizer ser mau ou bom. Ser pobre não quer dizer ser bom ou mau. E mais para frente, vamos ver que isso realmente se aplica.

Com Wehrlein, Ocon não teve atritos consideráveis, situação bem diferente da que teve com o mexicano Sergio Pérez, seu companheiro na Force India. Os dois se enfrentaram em algumas ocasiões, principalmente no Grande Prêmio da Bélgica de 2017, quando um toque entre os dois na entrada da Eau Rouge espremeu Esteban contra o muro dos boxes. Ocon acusou Pérez de “tentar matá-lo”, enfurecendo os torcedores mexicanos, que passaram a ofendê-lo nas redes sociais. Alegando motivos de segurança, Esteban contratou seguranças armados para si e seus pais no Grande Prêmio do México daquele ano. Outro exemplo de atrito entre os dois foi no Grande Prêmio de Singapura, quando Pérez bateu em Ocon, tirando-o da prova.

Atrito entre Pérez e Ocon no Grande Prêmio da Bélgica de 2017. Ocon acusou Pérez de tentar matá-lo

4- Início da crise: a falência da Force India

Em 2018, o dono da Force India, Vijay Mallya, passou a ser investigado pelas autoridades indianas por suspeita de corrupção. A justiça britânica já negociava sua deportação para a Índia. Com as contas no vermelho e a confiabilidade baixa, a escuderia iniciou o processo de falência. Segundo informações de Mariana Becker, jornalista da Rede Globo, um empresário americano e um russo estavam interessados em comprá-la, mas não se chegou a um acordo.

Vendo uma oportunidade de investimento, Lawrence Stroll montou um consórcio de empresários e comprou a Force India, com Mallya assumindo qualquer pendência relativa ao período de sua gestão, inclusive o processo que Sergio Pérez moveu contra a equipe. O filho de Stroll, Lance, que havia feito uma boa temporada com a Williams em 2017 (conseguindo um pódio, uma largada da primeira fila e três recordes), sofria com um carro nada competitivo na escuderia inglesa. Especulava-se que quando Lawrence comprasse a equipe, Lance se transferiria para ela.

Matéria do jornal Independent, que menciona os 405 empregos salvos por Lawrence Stroll

Como explicado no começo dessa matéria, a Fórmula 1 precisa que os pilotos tragam patrocínio para manter o esporte. Pérez traz o patrocínio de empresas como Telmex e Claro e do governo do estado de Jalisco, no México. Ocon, por sua vez, era bancado unicamente por Toto Wolff.

5- Tentativas de contrato com outras equipes

  • Mercedes: o padrinho acata a vontade de Niki Lauda

Segundo a imprensa, Toto Wolff havia dado conselhos a Ocon antes do Grande Prêmio de Mônaco de 2018. Ele teria dito que, caso não dificultasse a ultrapassagem de Lewis Hamilton após o pit stop, Esteban assumiria a segunda vaga da Mercedes, já que o finlandês Valtteri Bottas tinha o desempenho bem inferior ao de Hamilton. Isso teria ocorrido bem antes da compra da Force India (que foi efetuada nas férias dos pilotos, antes do Grande Prêmio da Bélgica). Ocon facilitou a ultrapassagem do inglês em todas as corridas.

Ou seja, meses antes da Force India ir à falência e ser vendida, Esteban Ocon já estava cotado a deixar a equipe. Porém, o então conselheiro da Mercedes, o tricampeão Niki Lauda, recomendou a Wolff que desse mais uma chance a Bottas. O chefe de equipe acatou o pedido e renovou o contrato do finlandês por mais um ano. Caso Ocon deixasse a Force India, o que era o mais provável por não trazer os mesmos benefícios que Pérez, Wolff teria de se esforçar para encaixar seu pupilo em uma escuderia nova.

  • Renault

Em 2018, a equipe francesa contava com o espanhol Carlos Sainz Jr. e com o alemão Nico Hülkenberg. O primeiro foi chamado para substituir Fernando Alonso na McLaren depois que o bicampeão anunciou sua aposentadoria. O segundo teve seu contrato renovado. Com isso, a Renault tinha uma vaga disponível para 2019. Segundo a imprensa, Toto Wolff negociava a transferência de Ocon para essa escuderia, pois o piloto não era vantajoso nem financeiramente, nem em termos de desempenho, já que seus resultados estavam abaixo dos de Pérez.

Porém, ninguém contava com uma reviravolta na Red Bull. O anúncio de que a equipe austríaca correria com o motor da Honda em 2019 desagradou um de seus pilotos, o australiano Daniel Ricciardo. Temendo passar por uma série de quebras como houve com a McLaren em 2016 e a Toro Rosso em 2017, Ricciardo optou por deixar a Red Bull e assinou contrato com a Renault, preenchendo a segunda vaga da equipe. Essa era a primeira porta que se fechava para Ocon.

  • McLaren

Insatisfeita com os resultados do belga Stoffel Vandoorne, a escuderia inglesa demitiu o piloto e chamou Carlos Sainz Jr. para substituir Fernando Alonso, que se aposentaria no final de 2018. Consequentemente, uma vaga também estaria disponível na McLaren. Fontes afirmam que Toto Wolff também contatou os britânicos para garantir uma vaga para Ocon. No entanto, a equipe optou por um jovem piloto inglês que estava há anos no programa de treinamento da escuderia. Seu nome era Lando Norris, filho de um empresário inglês bilionário. Com isso, uma segunda porta se fechou para Esteban Ocon.

  • Williams: o caso Lance Stroll

Se 2017 foi um ano glorioso para a equipe inglesa, pois o pódio de Lance Stroll lhe garantiu o quinto lugar no campeonato de construtoras, 2018 foi arruinado pela incompetência de seus engenheiros. Lawrence Stroll era um dos principais financiadores da equipe, juntamente com o banco SMP, que patrocinava o russo Sergey Sirotkin. A equipe de engenharia liderada pelo britânico Paddy Lowe falhava em criar um carro competitivo, com promessas de melhorias que eram sempre adiadas. Amargando nas últimas posições do grid, os pilotos eram acusados injustamente pelos problemas da equipe, por estarem em maior evidência.

Obviamente, Lance estava descontente com a incompetência da equipe e tratamento injusto por parte da imprensa e dos torcedores. Também era nítida a antipatia de Claire Williams, chefe de equipe e filha do fundador Frank Williams, pelo piloto canadense e o embate entre Claire e Lawrence criava um clima pesado na escuderia. Lembrando que era a segunda vez que a má gestão da família Williams levava a equipe a ficar nas mãos de um investidor de fora (Toto Wolff em 2009 e Lawrence Stroll em 2017). Lawrence percebeu que o investimento não valeria a pena e encontrou uma oportunidade na compra da Force India.

Embora seu pai tenha assumido como o novo dono da equipe, Lance não se transferiu para a escuderia. Esse é o primeiro argumento que rebate a acusação que caiu sobre o canadense: de que seu pai teria comprado a Force India para que o filho tivesse um assento melhor, mesmo que tivesse que sacrificar seu amigo. Se Lawrence fosse simplesmente um pai tentando agradar o filho, teria pago a rescisão de contrato de Ocon e colocado Lance no time imediatamente. Não foi o que aconteceu. Esteban permaneceu na equipe, agora com o nome de Racing Point Force India, até o final do ano.

Muitos esperavam que Lance e Esteban trocassem de equipe. Em outras palavras, Stroll iria para a Force India e Ocon para a Williams. Com o desempenho de Sirotkin abaixo do esperado e com a partida de Stroll, a escuderia inglesa teria duas vagas disponíveis. Toto Wolff entrou em ação, colocando seu pupilo em uma das vagas da Williams. Seu nome, GEORGE RUSSELL.

O jovem inglês era membro do programa de desenvolvimento de pilotos da Mercedes e atuava como terceiro piloto da equipe alemã. Há muito tempo ele esperava uma oportunidade na Fórmula 1. Wolff não deu explicações sobre porque optou por garantir um assento a um novato em vez do apadrinhado que estava ficando sem chances. Apenas alegou que Russell tinha qualificações para a vaga.

Ao mesmo tempo, especulava-se sobre a volta de Robert Kubica às pistas. O polonês estava afastado desde 2011, quando sofreu um grave acidente que deixou seu braço esquerdo lesionado. Seu empresário era ninguém menos do que o campeão de 2016, Nico Rosberg. O retorno Kubica era um investimento arriscado: sua equipe teria que gastar mais dinheiro para adaptar o carro a suas deficiências e não havia garantia de que seu desempenho seria bom. Rosberg alegava que empresas polonesas estariam dispostas a patrocinar o piloto e que os torcedores do país ansiavam pela volta de Kubica desde a aposentadoria do brasileiro Felipe Massa.

  • Toro Rosso: apadrinhado do Toto Wolff? Nem pensar!

A Toro Rosso passava por uma dança das cadeiras inigualável. Insatisfeita com os sucessivos acidentes de Daniil Kvyat, a equipe correu em 2018 com Pierre Gasly e Brendon Hartley. No entanto, o segundo também se envolveu numa série de colisões que irritaram os dirigentes da equipe italiana.

Com Hartley demitido e Gasly promovido para a Red Bull após a saída de Daniel Ricciardo para a Renault, havia duas vagas disponíveis. No entanto, dois fatores dificultavam as chances de Ocon. O primeiro é o fato da Toro Rosso ser uma equipe subordinada à Red Bull, e normalmente seus pilotos estão ligados a ela: ou são jovens do programa de treinamento ou foram rebaixados da escuderia. Esteban não tinha laços com a Red Bull. O segundo fator era a ligação de Ocon com Toto Wolff. O chefe de equipe, Franz Tost, chegou a afirmar que não queria pilotos ligados à Mercedes na equipe. Talvez a escuderia temesse um escândalo de espionagem como o da McLaren em 2007 ou que Ocon contasse para Wolff os segredos do time, que usava motores Honda.

6- A imagem de Esteban Ocon

  • Stroll é jogado na fogueira; Ocon demora a socorrer o amigo

Lance Stroll estreou pela Fórmula 1 em 2017 pela Williams, aos 18 anos, no Grande Prêmio da Austrália. Três abandonos sucessivos e acidentes nos treinos livres fizeram a imprensa e os torcedores esquecerem de seus feitos na Fórmula 3 Europeia (como seu título e recorde) e o considerarem um “piloto pagante”. Essa fama injusta acompanhou Lance até seu terceiro lugar no Grande Prêmio do Azerbaijão, no qual quebrou o recorde de “mais jovem estreante a ter pódio”. Ocon até então não tinha pódio, mesmo com um carro superior, e assim permaneceu até o fim de sua carreira.

Com os problemas enfrentados pela Williams em 2018, a fama de “piloto pagante” voltou a pairar sobre Stroll, principalmente porque a mídia atribuía aos pilotos a culpa pelo mau rendimento do carro, mesmo isto sendo responsabilidade dos engenheiros. Quando seu pai, Lawrence Stroll, comprou a Force India na segunda metade do ano, salvando o emprego de 405 trabalhadores, os fãs de Esteban Ocon, envolvidos por uma raiva mortal, passaram a atacar Lance em suas redes sociais com as ofensas mais terríveis possíveis, algumas inclusive de teor racial. Pouco se falou dos empregos salvos, ou das vantagens que Pérez e Stroll trariam à equipe, ou que a falta de patrocínio e resultados de Ocon o atrapalhou na questão. Alguns simplesmente não admitiam que um piloto canadense judeu descendente de indígenas que possuía um pódio, uma largada da primeira fila e três recordes substituísse um piloto branco de origem europeia sem pódios e sem recordes.

Mas o mais surpreendente nesse caso foi a reação de Esteban Ocon. A Force India foi comprada em agosto de 2018. Ocon só se manifestou sobre os ataques a Lance em setembro de 2018. Em um mês, a mídia e os torcedores tiveram tempo suficiente para lançar boatos caluniosos sobre o canadense, enquanto que seu amigo desde a época da Fórmula 3 assistia a tudo calado. Ocon classificou os ataques como “irracionais” e lançou um stories em seu Instagram no qual ressaltava sua amizade com Stroll apesar de suas “origens diferentes”. Por que Ocon demorou um mês para acudir o amigo que sofria uma das mais baixas campanhas de difamação na história da Fórmula 1? Por que Ocon ressaltou diferenças nas “origens” de ambos, sendo que Stroll sofria ofensas raciais e ataques por ser rico (coisa que 99,9% dos pilotos é)?

Postagem no Instagram de Ocon defendendo Stroll um mês depois
  • Batida em Verstappen no Grande Prêmio do Brasil; a martelada final

Com 99,9% das vagas indisponíveis para Ocon, suas chances de permanecer na Fórmula 1 estavam cada vez mais escassas. No dia 11 de novembro de 2018, ocorreu o Grande Prêmio do Brasil, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Embora Lewis Hamilton tenha obtido a pole position, Max Verstappen conseguiu a liderança da prova e caminhava rumo à vitória. Esteban era o 16º e saía dos boxes quando acelerou e ignorou a bandeira azul, chocando-se contra Verstappen. Os dois pilotos saíram temporariamente da pista, possibilitando a ultrapassagem de Hamilton. Verstappen voltou em segundo lugar, com danos no carro. Ocon foi punido com 10 segundos de stop-and-go. A vitória de Hamilton estava na conta desse incidente.

Depois da cerimônia do pódio, Verstappen procurou Ocon para esclarecer a situação. Com um sorrisinho debochado no rosto, Esteban lhe respondeu que “estava mais rápido” e portanto tinha o direito de estar na frente mesmo com a bandeira azul.

Nota: Acreditem, há quem engula essa desculpa esfarrapada até hoje.

Verstappen ficou irado com o deboche e partiu para a agressão física, empurrando sucessivamente Ocon até que ambos foram separados. Max deixou a sala visivelmente irritado, enquanto que Esteban continuava rindo e caçoando do holandês. Depois, ele teve a coragem de dizer que “Max não agiu como homem”. Desrespeitar a bandeira azul, que obriga os retardatários a deixar os pilotos da frente passar, é coisa de homem? Caçoar da pessoa prejudicada em vez de assumir o erro e pedir desculpas é coisa de homem? Ver o amigo sendo vítima de difamação e ajudá-lo somente um mês depois é coisa de homem? Acusar o companheiro de equipe de tentativa de homicídio é coisa de homem?

Ocon caçoa de Verstappen após manobra que impediu sua vitória
  • Veredito: culpado por fidelidade máxima a Toto Wolff; Sentença: ficar sem vaga para 2019

A reação de Ocon ao choque com Max Verstappen gerou duas teorias para explicá-la: a primeira é um possível ressentimento de Esteban pela promoção de Max à Fórmula 1 em 2015, mesmo este sendo o terceiro colocado na Fórmula 3 Europeia de 2014 enquanto que o hispano-francês havia sido o campeão; a outra é a de que Ocon estaria passando uma mensagem a Toto Wolff de que ele seria um ótimo piloto para a equipe, já que suas ações inegavelmente garantiram a vitória de Lewis Hamilton.

Se por um lado essa imagem lhe traria benefícios com Wolff, ela rendeu a Ocon uma péssima reputação com as outras equipes. Esteban passou a ser visto como um agente leal ao chefe de equipe da Mercedes, e sua presença em outras escuderias poderia significar espionagem, traição e dupla-lealdade. Ocon não ganhou nada com o acidente com Verstappen: não pontuou, recebeu punição e teve a reputação manchada. Os únicos beneficiados com o acontecimento foram Hamilton, pela vitória, e Valtteri Bottas, que permanecia em quarto lugar no campeonato, à frente de Verstappen. Mas isso não se manteve até o final, pois na última corrida do ano, em Abu Dhabi, Max conseguiu um terceiro lugar e tomou a posição de Bottas no campeonato, ficando a apenas três pontos do terceiro colocado, Kimi Raikkonen.

Depois do Grande Prêmio do Brasil, Claire Williams anunciou que a equipe britânica havia contratado Robert Kubica, encerrando todas as chances de Esteban continuar na categoria máxima do automobilismo. Wolff não teve outra alternativa a não ser colocá-lo como terceiro piloto da Mercedes.

7- Mitos e verdades

  • Mito: Stroll é o culpado pela saída de Ocon da Fórmula 1.

Stroll não assumiu a vaga logo após o pai ter comprado a Force India com a ajuda de um consórcio de empresários. Mesmo tendo condições de pagar uma rescisão de contrato, os novos donos da escuderia deixaram Ocon correr pela equipe até o final de seu contrato. Ocon também era cotado para sair da equipe antes da compra. Pérez trazia vantagens para a equipe por ser o piloto com melhor desempenho e ainda trazer bons patrocinadores, coisa que Esteban não fazia. A escolha por Pérez foi baseada em oferta e demanda, uma regra de ouro do mercado.

Ocon tentou vagas em outras equipes, porém todas tiveram outros planos. A Renault optou por Daniel Ricciardo. A McLaren escolheu Lando Norris. A Mercedes renovou o contrato de Valtteri Bottas. A Toro Rosso contratou Alexander Albon e Daniil Kvyat (que tinha na época um pódio na carreira, um a mais que Esteban Ocon). Stroll não é mais culpado que Ricciardo, Norris, Pérez, Bottas, Albon, Kvyat, Russell e Kubica pela saída de Ocon. Lembrando que Stroll tem um pódio, uma largada da primeira fila e três recordes na carreira, competências que Ocon não tem. Culpar Stroll por estar na Fórmula 1 enquanto que Ocon está fora é a mesma coisa que culpar Ayrton Senna por ter mais títulos que Rubens Barrichello.

  • Verdade: a ligação com Toto Wolff diminuiu as oportunidades de Ocon na Fórmula 1

Os incontáveis elogios de Esteban ao chefe de equipe da Mercedes e a manobra para cima de Max Verstappen no Grande Prêmio do Brasil de 2018 comprovam que Ocon tem muita devoção a Toto Wolff, seu padrinho no esporte. As outras equipes temiam que um agente-duplo gerasse um escândalo de espionagem ou que seus segredos fossem vazados para a escuderia alemã.

Muitos podem pensar que, devido ao fato da Mercedes ter um dos melhores carros do grid (se não o melhor) ela não estaria interessada em informações sobre os outros times. Porém, as equipes sempre observam o desempenho de suas concorrentes (vide McLaren em 2007) em busca de melhorias e estratégias.

  • Mito: Ocon era um piloto de desempenho excelente e sua saída foi uma grande injustiça

Ocon foi superado por todos os seus companheiros de equipe durante sua carreira na Fórmula 1. Em seu ano de estreia, em 2016, ficou atrás de Pascal Werhlein nos resultados finais (embora ambos tivessem pontuação nula) por ter entrado na Fórmula 1 no meio do ano. Em 2017 e 2018 foi superado por Sergio Pérez, com 87 pontos contra 100 no primeiro ano e 49 contra 62 no segundo. Esse mito foi criado por jornalistas que, por motivos pessoais, focam em difamar Pérez, Stroll e Verstappen mais do que em elogiar Ocon por si. Os dados do piloto provam isso.

Em dois anos e meio de carreira, Ocon não conseguiu UM pódio, UMA largada da primeira fila, UMA pole position nem UM recorde, somando apenas 136 pontos. Comparando com outros pilotos da mesma faixa etária: Max Verstappen quebrou dois recordes em seu ano de estreia e mais quatro no ano seguinte, mesmo ano que obteve uma vitória, cinco pódios e uma largada da primeira fila; Lance Stroll conseguiu um pódio, três recordes e uma largada da primeira fila em seu ano de estreia; Charles Leclerc não obteve grandes resultados em seu ano de estreia, mas um ano depois conseguiu, até o presente momento, duas poles e cinco pódios. Lembrando que em seu ano de estreia, Ocon foi incapaz de pontuar.

  • Verdade: as escolhas de Ocon lhe renderam má fama no paddock

O caso do Grande Prêmio da Bélgica de 2017, no qual Esteban acusou Sergio Pérez de “tentar matá-lo”, é um dos exemplos da guerra de narrativas que o piloto travou em sua carreira. Pérez chegou a afirmar que Ocon gosta de se vitimizar e fazer seus rivais parecerem vilões. A teoria tem embasamentos.

Durante sua carreira, as escolhas de Ocon, sejam elas manobras nas corridas ou declarações à imprensa (incluindo a falta/demora delas), fizeram Pérez parecer um “piloto impulsivo que seria capaz inclusive de matar o colega de equipe”, Stroll parecer “um capitalista malvadão que compra assentos na Fórmula 1” e Verstappen parecer “um brigão descontrolado que agride seus adversários”. Todas essas figuras midiáticas acabaram por se voltar contra Esteban, que perante às demais equipes ficou com a imagem de “um piloto traiçoeiro e incompetente que não se dá bem com ninguém a não ser com Toto Wolff”. Com essa reputação, é difícil arrumar um assento na Fórmula 1 porque não se tem a confiança das escuderias.

8- Comparações entre Ocon e Wehrlein

Pascal Wehrlein entrou na Fórmula 1 com a Manor em 2016. Não obteve pontos devido ao péssimo rendimento do carro. Em 2017 foi promovido para a Sauber, onde pontuou no Grande Prêmio da Espanha e no Grande Prêmio do Azerbaijão. Sem patrocinadores que pudessem ajudar as contas da equipe, embora tenha superado seu companheiro de equipe, Marcus Ericsson, foi demitido da equipe para dar lugar a Charles Leclerc, protegido da Ferrari. Em 2018 foi colocado como terceiro piloto da Mercedes pelo padrinho Toto Wolff, que lhe prometeu um retorno à Fórmula 1. Como a promessa jamais foi cumprida, juntou-se à Ferrari como terceiro piloto e nunca mais foi visto nas pistas.

Esteban Ocon entrou na Fórmula 1 com a Manor em 2016. Não obteve pontos devido ao péssimo rendimento do carro. Em 2017 foi promovido para a Force India, onde pontuou 18 vezes, porém terminou o campeonato com 13 pontos a menos que seu companheiro, Sergio Pérez, que o venceu em 2018 também. Sem patrocinadores que pudessem ajudar as contas da equipe e com um desempenho inferior ao do companheiro, foi demitido. Em 2019 foi colocado como terceiro piloto da Mercedes pelo padrinho Toto Wolff, que lhe prometeu um retorno à Fórmula 1 (antes teria prometido a vaga de Bottas).

9- Conclusão

A saída de Esteban Ocon da Fórmula 1 em 2019 e sua incerteza para o futuro são frutos das péssimas escolhas que o piloto hispano-francês realizou durante a carreira. Deixando a gratidão a Toto Wolff lhe subir à cabeça, Ocon entregou seu futuro nas mãos do padrinho, que havia falhado em conseguir uma vaga para seu outro apadrinhado, Pascal Wehrlein. O péssimo relacionamento com Sergio Pérez, a demora em socorrer o amigo de longa data Lance Stroll enquanto este sofria difamação e a manobra para cima de Max Verstappen que possibilitou a vitória de Lewis Hamilton no Grande Prêmio do Brasil de 2018 renderam a Esteban uma reputação manchada (de vitimista com dupla-lealdade) e desconfiança das outras equipes (que optaram pelas contratações de Daniel Ricciardo, Lando Norris, Alexander Albon, Daniil Kvyat, George Russell e Robert Kubica). Seus resultados não foram suficientes para justificar seu merecimento à vaga na Racing Point, herdeira da Force India, e suas escolhas o afastaram das demais escuderias do grid. A imagem de “piloto excelente injustiçado pelos demais” não passa de uma invenção midiática de jornalistas mal intencionados cujos interesses focam mais em difamar Pérez, Stroll e Verstappen do que em exaltar os grandes feitos de Esteban na Fórmula 1, que até agora não se materializaram. Se Ocon tem chances de voltar à Fórmula 1? Tem, mas isso dependerá da estratégia adotada por Toto Wolff. No momento, a situação de Ocon está praticamente idêntica à de Wehrlein.

Esteban Ocon e Toto Wolff: o casamento mais problemático da Fórmula 1

 

10- Fontes

Fotos

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